Por que o @izzynobre precisa morrer

Inglês e português são línguas bastante distintas, como qualquer falante nativo de uma que sofre tentando aprender a outra vai te garantir. Vivenciei os dois lados da moeda — aprender inglês falando português, e ensinar a língua lusófona a um gringo. Uma das grandes dificuldades é o fato de que as expressões idiomáticas de um não tem literalmente nada a ver com o outro. Nada revela tão crua a estranheza que é o modo estrangeiro de pensar do que analisar suas expressões idiomáticas literalmente, sem o contextual cultural que dá sentido a elas.

Voar pelo fundo das minhas calças” por exemplo significa “improvisar”. Como DIABOS os gringos conectaram um conceito ao outro seria pra nós tão alienígena como explicar pra eles que a associação que nós brasileiros fazemos com fundo e calças (pra ser mais exato, “o cu e as calças”) significa “não ter conexão nenhuma uma coisa com a outra”.1

Com algumas exceções, claro. “Don’t look a gift horse in the mouth” é quase literalmente o nosso “cavalo dado não se olha os dentes“, por exemplo — o que me faz pensar na aparente (e peculiar) universalidade da hábito de dar cavalos de presente. Eu não conheço ninguém que jamais tenha dado ou recebido um regalo equestre, mas pelo jeito em algum momento a prática foi difundida o bastante pra que a expressão exista quase idêntica nos dois idiomas.

E a outra exceção notável é “under my nose“, que é verbatim o nosso “debaixo do meu nariz”. E após de ler tantos relatos de pessoas que decidiram que a única forma de se desvencilhar da toxicidade do Twitter era simplesmente sair dele definitivamente (tipo, deletar do celular, se impedir artificalmente de acessa-lo no computador) que não consigo parar de pensar que a resposta pra muitos dos meus problemas estava debaixo do meu nariz esses anos todos.

@izzynobre precisa morrer.


Você provavelmente conhece alguém que já te perguntou por que você gosta de mim. Já ouvi muitas histórias assim — o sujeito curte o canal, ou o blog (com o atual semi-abandono, esse segundo caso deve ser mais raro hoje em dia), mas o irmão/namorada/cunhado/colega de faculdade detesta, e o interroga frustradíssimo pra tentar entender como alguém PODERIA sequer gostar de mim.

Há muito tempo atrás, a curiosidade mórbida de saber o que falam de mim por trás das costas 2 me fazia procurar “izzy nobre” no search do Twitter, pra rir da raiva que meu nome causava pela internet afora. Fazer isso de forma recreativa durou exatamente um dia — há um limite de quanta negatividade alguém pode ler sobre seu próprio nome sem que isso passe a causa-lo algum tipo de mal, então eu abandonei a prática rápido.

Talvez eu devesse ter continuado o tal “ego search”, e quem sabe a epifania que tive hoje teria chegado mais cedo.

Essas pessoas não estão erradas.

E a resposta é que a conta @izzynobre simplesmente me faz eu me manifestar como a PIOR versão de mim mesmo em existência. É fascinante que o mesmo não aconteça na conta que uso pra interagir com meus inscritos do canal em inglês, embora seja um fenômeno tão comum que isso tem até nome — relatividade linguística. Pessoas que falam múltiplas línguas literalmente pensam de forma diferente dependendo da língua que estão usando, e caso você acompanhe meus dois twitters, você já deve ter notado que há uma diferença comportamental gritante entre as duas.

Em uma, eu sou gente boa — trato todo mundo com cordialidade, converso sobre jogos e tecnologia, e respondo discordâncias com “hmm, eu não tinha pensado por esse lado” — nas raras instâncias que sequer há discordâncias. Até hoje esses infrequentes debates na minha conta em inglês raramente passaram de 3 tweets.

Já na outra, eu sacrifico a boa vontade que as pessoas tem comigo em troca de estar certo em discussões completamente irrelevantes. A única diferença que essas inacabáveis altercações verbais causam é que frequentemente alguém COMEÇAVA gostando de mim, e TERMINAVA me odiando, tornando o exercício inteiro pior que fútil — era destrutivo.

Se eu fosse quantificar, eu tenho a impressão que em 96% dos casos essa era a única mudança de opinião que eu provocava nas pessoas.

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Eu não sei o que elicita em mim essa necessidade de provar, ao custo da minha própria imagem pessoal, que estou certo em discussões COMPLETAMENTE sem propósito. Talvez eu goste TANTO de debater que não percebo o rastro de relacionamentos destruídos que esse ímpeto deixa por trás; talvez exista algo inato em mim que me compele a berrar “AHHH, MAS…” a qualquer custo, como se nada pudesse passar sem meu comentário tipicamente contrariador.

Seja lá o que for, uma coisa eu tenho certeza — em nenhum outro ambiente esse padrão comportamental é mais habitual que o Twitter.

Eu não sou o único culpado disso, óbvio — existe ALGUMA coisa na estrutura desse site maldito que provoca em alguns o quase irresistível fervor de comprar briga, ou pior, de tornar um desentendimento num espetáculo circense, com direito a platéia aplaudindo e vaiando.

Sempre acreditei que, como no RPG Vampiro a Máscara, temos dentro de nós mesmos uma Besta que tenta a todo momento tomar as rédeas. Essa Besta toma formas diferentes — para o viciado, ela seria o desejo insuportável de fumar outra pedra ou tomar outro trago. Para o cara que come compulsivamente, a Besta é aquela força da natureza que faz com que seu carro entre no drive thru do McDonalds automaticamente, como se o Elon Musk tivesse estendido as capacidades autônomas do Tesla pro seu Celta, mas com a expressa missão de te engordar.

No meu caso, a Besta sempre foi esse entusiasmo quase adolescente de discutir — ou melhor, de contrariar. E como a audiência proporcionada pelo Twitter nos torna emocionalmente investidos em estarmos “certos” na frente da nossa tribo, admitir erro se torna impossível. E com isso segue a petulância, condescendência, e arrogância.

Impressão minha ou nada que termina com CIA é coisa boa?! ADOLESCENCIA CARTOMANCIA DEPENDENCIA FLATULENCIA.

O curioso (hipócrita, talvez, alguns certamente diriam — não totalmente sem razão) é que as únicas ocasiões em que eu percebo o quão lamentável esse comportamento é… quando vejo outros se comportando assim.

Não costumo notar muito no @izzynobre — conforme a hipótese de relatividade linguística, no Modo Português eu me transformo na versão mais escrota de mim mesmo que existe, e tal qual o escorpião sou insensível ao próprio veneno.3

Já nas minhas áreas de atividade em inglês, como sou menos babaca, a babaquice alheia se torna mais contrastante.

Hoje mesmo vi uma moça, uma youtuber americana de tecnologia cujo trabalho eu admiro MUITO, respondendo alguém com uma petulância insuportável, esfregando na cara do sujeito seu conhecimento em uma determinada área da forma mais presunçosa que eu já vi. Eu fiquei verdadeiramente chocado, porque acompanhando seus vídeos ela jamais deu qualquer indicação que tratasse fãs dessa forma. E ao mesmo tempo que lamentei a atitude dela, senti um insuportável vexame, porque eu sei que me comportei assim inúmeras vezes nos últimos anos.

Pra simplificar: sabe o Rick Tóxico do episódio Rest and Ricklaxation?

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Esse é o @izzynobre. Ele é a soma de todas as minhas piores características e ímpetos, os mais imaturos e destrutivos, sem qualquer filtro ou pudor. O @izzynobre me afastou de admiradores, erodiu relacionamentos com amigos, espantou oportunidades de networking e de business e de forma geral esmerdalhou a sua timeline numa infindável busca por estar certo. Fico até surpreso, legitimamente, que alguém consiga me seguir por tempo estendido e ainda gostar de mim. O @izzynobre estragou o Izzy Nobre.

E tá na hora de matar ele.

Ficar sem Twitter por tempo indefinido será um desafio pra alguém que depende das conversas aleatórias com a galera pra se inteirar do que ocorre no Brasil, ou pra gerar pautas pro canal. Não sei como isso será remediado, e aceito sugestões. Talvez criar um perfil anônimo só pra seguir a galera que geralmente posta noticias interessantes…

É bastante possível que eu ainda retorne ao Twitter um dia. Como alguém que trabalha com a internet, cedo ou tarde exibir atividade nas redes sociais se torna uma necessidade. Procurarei atrasar esse retorno o máximo possível, e tomei as medidas necessárias para que voltar ao Twitter seja inconveniente o bastante pra que eu não faça isso com trivialidade. Ainda assim, certamente você verá meu avatar na sua timeline novamente algum dia.

Mas sem dúvida alguma, @izzynobre tem que morrer.

Ah, e aos broders que ficaram ao meu lado por todos esses anos, a despeito do Toxic Izzy estar no volante com tanta frequência — vocês tem paciência de santo.

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9 comments

  1. Vou te falar a verdade: Durante anos segui o blog e adorava os textos do “kid”. Durante anos vi o @izzynobre sendo citado no twitter abria e não gostava daquele cara.

    Até que um dia eu liguei os pontos e… “PUTAQUEPARIU COMO ASSIM O KID DO HBDIA É ESSE IZZYNOBRE?!?!??!”

    Passado o susto, comecei a ouvir os podcasts, a ver os videos. E sim, minha opinião mudou. Principalmente com os videos. Mas continuo não seguindo no Twitter.

    Talvez vc tenha razão, talvez o Twitter liberte alguma coisa aí. Talvez o twitter traga de volta aquele troll dos foruns evangélicos e vc nem perceba.

    De qualquer forma legal vc notar isso. Boa sorte nesse afastamento do Twitter. Tomara que dê certo.

  2. Eu teria acompanhado mais se o Izzy tuitasse menos. Não tinha como alguém que só acessa pelo celular no fim do dia (ou algum momento de ócio) acompanhar os posts e threads malucas dele.
    Eu não vou sentir falta do @izzynobre, mas acho que quem acompanhava sentirá do jeito que eu sinto falta das atualizações do blog.
    PS: acompanhar o Izzy, o Cardoso e o Morroida e ainda trabalhar é humanamente impossível.

  3. A grande verdade é que pela internet é muito fácil ser babaca.
    No seu vídeo você mesmo comenta que pessoalmente as pessoas nem te reconhecem por você ser uma pessoa totalmente diferente daquela que é no twitter (vez por outra no youtube onde eu te acompanho).
    O mais engraçado é ver esse comportamento em alguém que deu uma lição de moral no sujeito que segundo suas palavras tinha “sérios problemas” e que estava te criticando via twitter sendo que estava no mesmo ambiente físico que você. Curioso não?

    Eu gosto bastante da maior parte dos vídeos que você faz. Te acho inteligente e criativo mesmo em pautas que não concordo. Acho um bom passatempo ver 10 minutos de você por semana e tal. Por isso estou aqui. Quem não se importa fica apenas indiferente. Certo?

    @izzynobre alem de pé no saco tinha bots e inundava o mural do twitter como se apenas ele existisse. Eu que já não sou adepto do twitter, deixei de seguir com 1 ou 2 dias daquela loucura. Não pense entretanto que o @izzynobre é o culpado de tudo. Por vezes vi esse mesmo comportamento no youtuber como tambem no podcaster. No próprio 99vidas teve um discussão com o Evandro que poderia ter acabado com uma amizade se não fosse o “segue o jogo” dito pelo Evandro (Sim… muita gente sabe identificar quando problemas aconteceram).

    Enfim, boar sorte nessa jornada, pense bem na pessoa que você é e não apenas na parte representada pelo @izzynobre. Continue com a criatividade e inteligência. Tente mostar ao publico o que tem de bom em você.
    Já que sempre se pergunta “O que estou fazendo de errado no youtube para que meu canal nao cresça como outros”, espero que comece a encontrar a resposta bem ai.

    abs

  4. Cara, que BOM que você percebeu isso. Conheço seu trabalho das antigas, sempre acompanhei esse blog (provavelmente se não li tudo aqui, li algo em torno de 80-90%), canal do YT, tenho seu primeiro livro (e provavelmente comprarei o segundo), entre outras coisas.

    Só para você ver como esse comportamento é lamentável, certa vez, eu já cansado de tanta treta e bait que você soltava loucamente no twitter, interagi contigo reclamando EXATAMENTE disso que você está mencionando aí. Em como seu trampo tava ficando distorcido e você parecia estar se tornando um caça tretas.

    Você respondeu. Algo como, “o botão de unfollow é a serventia da casa”, ou algo parecido e me meteu um block. Eu fiquei realmente triste, porque dei um toque que nem foi escroto, foi numa boa, querendo seu bem mesmo, de alguma forma eu já antecipava essa situação que você descreve de começar a perder o vinculo com quem realmente é sua audiência. Eu quase fui um desses.

  5. Engraçado que esse pensamento aí no começo do texto é realmente o que acontece comigo. As vezes estou assistindo um vídeo seu em casa e a esposa “nossa, como vc acompanha esse cara”.

    Na verdade não sou um seguidor seu muito ativo. Só acompanho raramente no YouTube pq sou inscrito e algum assunto do vídeo me chama a atenção. No fundo é mais uma nostalgia do Kid dos bons tempos do blog e do FHBD.

    Enfim, desde essa época acho que você já tinha isso da arrogância, e nem estou falando do twitter, porque usei/interagi com você muito pouco. Realmente, certos ambientes acabam libertando comportamentos ruins que temos, por exemplo uma pessoa educada e cortês, pode ser no trânsito, dirigindo um carro, aquele belo filho da pura que todos detestamos.

    Enfim (2), que bom que você mesmo percebeu isso. Uma mudança de pensamento e tomar atitude positiva a respeito disso, é melhor tarde do que nunca…

    Paz e luz

  6. Eu achava tóxico mesmo, mas achava que era de propósito, como aquele velho Izzy troll do orkut. Um dia fui brincar que você era a arroba mais chata do twitter e você me bloqueou. Aí eu descobri que não era bem de propósito sua atitude. Depois disso, parei de asistir seus vídeos no YouTube porque eu tinha acesso ao link via twitter.

  7. Cara, muitas vezes eu te via discutindo alguma coisa no twitter e pensava “por que caralhos o Izzy tá se esforçando TANTO pra ser do contra?”. Porque eu tinha certeza ABSOLUTA que no fundo no fundo tu conseguia ver que tava errado (muito errado), porque tu tem posicionamentos políticos e pensamentos sociais que podiam te fazer parar pra pensar e falar “não, opa, to falando uma merda mto grande aqui agora”, mas por algum motivo se recusava a dar o braço a torcer ahahhahahaha

    Te conheci pelo blog (continua sendo o meu favorito até hoje), acompanhava pouco teu canal no youtube e apesar dos pesares, o teu twitter trazia discussões bem relevantes (às vezes), nem que fosse pra eu ficar indignada com vontade de mandar tu parar e ler direito oq tu tava dizendo.

    Feliz que tu percebeu um erro próprio e reconheceu que deve ser mudado, é assim que as pessoas evoluem e se tornam pessoas melhores. Isso por si só já é uma virtude, muitas gostam de falar dos outros e se recusam a olhar pra si de todo jeito (nem que não percebam que estão fazendo isso).

    Torcendo aqui pra você conseguir voltar pro twitter! 😉

  8. Eu te silenciei no Twitter pq vc deu um rt num meu reply a você. O contexto era vc falando mal de ancap e eu, só por argumentar mesmo, acabei te fazendo uma réplica (eu sou de esquerda, então era somente argumentar por argumentar). Você tirou o tweet de contexto no RT e me ridicularizou. Se eu fosse ancap eu ficaria puto e vida que segue, como eu não sou decidi silenciar pra não correr o risco de te dar reply novamente hahaha seu trabalho no youtube é mil vezes melhor nesse sentido. abraço!

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