Prólogo — A Grande Putaria de 1875

 A bilioteca era imensa. Tão imensa, aliás, que um designer mais esperto teria projetado aquela planta incluindo mais uns dois candelabros, pra que a iluminação fosse melhor distribuída no aposento. Entretanto, a família real havia resolvido economizar contratando um arquiteto vagabundo através do Peixe Urbano, e deu essa merda — uma biblioteca IMENSA, mas com apenas um candelabro. E pior, no cantinho do ambiente, em vez do centro do salão como seria o mais lógico. Nem eu que mal consigo seguir as instruções de um kit de LEGO teria cometido um erro tão trivial.

E o resultado dessa falha de projeto é que a porra do candelabro iluminava apenas o cantinho da biblioteca; a luz banhava uma única estante, que a propósito estava quebrada. O que eu estou querendo dizer é que esse candelabro era a coisa mais inútil do mundo e uma grande fonte de frustração para a família real.

Através de uma janela aberta, o vento gélido da madrugada carioca fazia o candelabro oscilar levemente. Sabe quando você tá numa lotérica esperando sua vez pra pagar uma conta, e o único ventilador na sala está oscilando, e você precisa ficar dando passinhos de um lado pra outro pra ficar no ponto focal do vento antes que aquele calor de 38 graus revele a todos os presentes que você esqueceu de passar desodorante? Então, se o vulto sentado à escrivaninha naquela biblioteca quisesse usar o candelabro pra ler a carta que ocupava sua atenção naquele momento, ele teria que ficar dando esses passinhos de um lado pro outro pra acompanhar o movimento pendular do lustre.

Mas Dom Pedro II era um homem que não se submeteria a tal indignidade. Então, resignado à inutilidade do candelabro e sem vontade de mover sua escrivaninha praquele lado da biblioteca, ele lia a tal carta usando a lanterna do seu indestrutível Nokia 1100. E a cada linha lida, o regente soltava um suspiro de preocupação que, se eu não soubesse da seriedade da missiva, poderia ter confundindo com a exasperação de alguém que descobriu através do Facebook que seu crush começou a namorar aquele cara da faculdade que ela jurava que era “apenas um bom amigo”.

Não; o conteúdo da carta diante o Imperador Brasileiro era imensamente mais grave, e colocava em risco o futuro da nação.

Entre uma apalpada de sua barba e outra (que Dom Pedro II passou a cultivar após ver uma matéria sobre Charles Darwin no Globo Repórter), o monarca levantava os olhos da carta, mirava pela trilhonésima vez pro único canto iluminado da biblioteca, e como era de costume sempre que fazia isso, amaldiçoou a família do arquiteto que resolveu colocar o candelabro num local tão sem sentido.

Dom Pedro II, que eu vou começar a chamar de Dom Pedro mesmo porque o I só aparecerá na história lá mais tarde então não preciso ficar distinguindo um do outro no momento, finalmente deitou a carta na sua escrivaninha. Da primeira gaveta à esquerda ele puxou uma elaborada caneta de pena, sabe aquelas? Tu sabe.

Da mesma gaveta ele puxou uma folha com os dizeres “DO ESCRITÓRIO DO EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR DOM PEDRO II M.D. All Rights Reserved©”.

Dom Pedro pôs a caneta no papel, e ensaiou o começo de uma resposta, mas parou antes de completar o rascunho da primeira letra. Soltou um longo suspiro, pensou, apalpou a barba novamente, e tentou mais uma vez. Parou de novo, sacudindo a cabeça negativamente. Como alguém que procrastina estudar para uma importante prova, ele continuou nesse negócio de QUASE escrever a carta, e se interromper logo em seguida, em profunda indecisão. Numa explosão de frustração, Dom Pedro finalmente arremessou a caneta pro outro lado da biblioteca, na esperança de acertar o candelabro solitário no cantinho do salão. E errou.

“Puta que pariu”, disse o imperador, enfiando as mãos no rosto, ou o rosto nas mãos, sei lá, na real é o mesmo movimento se tu parar pra pensar. “Dessa vez a ghente se fodeu mesmo. O Brasil está fodido“.

Naquela época eles falavam “ghente”, com H. O Brasil de 1875 era outro mundo.

Porém, convencido a fazer o necessário para garantir o futuro da nossa pátria, Dom Pedro reuniu as forças e começou a escrever uma resposta para a carta que o causou tanta preocupação.

Uma resposta, não — várias.

Fortaleza, CE — 12 horas antes

(Continua…)

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8 comments

  1. Tô ligado. Li uma carta, que estava digitalizada em um livro de ensino médio, e o idioma era realmente diferente. Aliais, tinha bastante frases que eram parecidas com a do inglês.

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