que bosta

Vou confessar um negócio aqui procês: eu tenho uma certa saudade da TV aberta brasileira.

Nunca fui desses que adere a essa malhação de judas que é a constante rejeição do conteúdo da nossa TV aberta. Faustão, Gugu, Xuxa e outros personagens do nosso folclore televisivo me lembram minha vida pré-Canadá, uma vida cada vez mais distante e desbotada. Como esses caras ainda tão em atividade, vê-los hoje recaptura um pouco a “experiência” de viver no Brasil. Parece maluquice mas sempre que estou aí, assisto TV aberta. Penso que outros imigrantes talvez façam o mesmo, e me entenderão.

Aí hoje eu fui obrigado a concordar que o nível da TV brasileira, a julgar pelo que rolou essa semana no Pânico, tá mesmo uma bosta.

Sabe o Pânico na TV? Eu sei pouquíssimo sobre o programa, já que estreou quando eu estava em vias de me mudar pro Canadá, mas até eu sei que parte do brand dos caras é aparecer em eventos e encher o saco de todo mundo por várias horas, na esperança de que rendam uns 10 minutos de filmagem que categorizem algo que possa ser utilizado num programa de “humor”

É uma esperança pífia.

Assisti esta bosta pela primeira vez em 2009, em minha primeira visita à Pátria Amada desde que me mudei pra cá. No caso, vi aquele segmento zoando a Amy Winehouse. Não achei muita graça.

Essa semana rolou em São Paulo a Comic Con Experience, a versão tupiniquim do mais ilustre evento de nerd/cultura pop no mundo. O Pânico na TV compareceu lá, pra fazer o que aparentemente é o MO deles — zoar os participantes.

Eis o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=ews4gCafWhs&feature=youtu.be&ab_channel=EmillyRibeiro

Aos 2:40, vemos o que a cosplayer brasileira Myo Tsubasa já tinha denunciado no seu perfil do Facebook: um momento tosquíssimo de assédio que por algum motivo os “repórteres”, a produção, e a emissora em geral achou que tava perfeitamente de boa pra colocar em rede nacional.

Mas não pulemos direto ao momento que rendeu esse vídeo — vamos desgustar por completo a bosta que é esse vídeo, porque tem vários outros momentos memoráveis. Farei isso na esperança que no fim desse post você odeie esses caras tanto quanto eu.

Aos 1:30, o rapaz dá crédito ao Frank Miller por criar o Batman e o Wolverine (?); aos 2:11, ao entrevistar aparentes mãe e filha, o sujeito comenta que “com uma mãe dessa eu mamava até os 30”, que todos podemos concordar não é algo bacana pra falar sobre a mãe de alguém, ainda mais na presença da própria.

Na minha terra isso aí é passível de peixeirada no olho do estômago. Achando que talvez não foi escroto o bastante, o cara adiciona que a presença das duas na Comic Con Experience significa que “a pia de louça tá cheia lá em casa”.

Aos supracitados 2:40, o tal “Selfie Boy” passa o dedo na garota — que, de acordo me consta, é menor de idade ainda por cima — e, não satisfeito, LAMBE o braço dela. Em rede nacional.

Imagina você sendo humilhado assim em público, e a protagonista da parada FILMAR o negócio e passar numa emissora com alcance em todo o país.

A cosplayer, visivelmente constrangida, protesta e sai da entrevista. O assediador, escrotissimamente, zoa a reclamação da menina, ficando então com a “última palavra”. Não me surpreende que coloca “Pânico na TV” em seu currículo seja incapaz de auto-crítica, mas ainda é meio chocante de ver acontecendo.

Pare e pense que em algum momento um editor, diretor, produtor, toda uma equipe que compõe a produção do programa viram esse segmento e acharam que tava de boa pra passar em rede nacional. Isso deixa evidente que o joselitismo não é uma anomalia, é uma característica compartilhada por diversas personalidades do programa.

Aos 2:53, ao entrevistar uma garota asiática, os dois então recorrem ao rebuscado humor de zoar o sotaque estereotípico de um chinês. HAHAHA!

Por volta dos 4:50, os caras mandam um correspondente para o aeroporto, pra registrar a chegada do Jorge Garcia. Fãs de Lost e pessoas que abriram a wikipédia rapidinho durante a autoria desse post o reconhecerão como “o gordinho lá da ilha maldita do JJ Abrams aliás que merda eram aqueles monstros de fumaça?”. Aqui, a grande piada era repetir em inglês macarrônico e sintaxe de perna quebrada “YOU’RE LOST NO MORE!!!!”. Como o seriado acabou tem apenas meia década, a piada ainda está bastante atual.

Não, chega. Não aguento mais essa porra. Me sinto menos inteligente só por ter visto essa bosta e olha que eu já não tinha com um QI muito alto pra começar.

Não há nenhuma piada nessa merda, nenhuma sacada bem bolada, porra nenhuma. O vídeo me lembra aquelas ocasiões na escola em que um bully tenta tirar onda com alguém, e fala algo sem a menor graça mas que mesmo assim é recebida com as risadinhas das hienas decerebradas que orbitam em seu redor.

Myo, se você estiver lendo isso aqui: processe esses malucos. Por favor.

Ah, e meus sinceros parabéns pro Felipe Castanhari pela PATADA MERECIDA que meteu naquela turma aos 11 minutos. O Felipe já tem costume de mandar bem mesmo, mas NESSA ele foi foda. Foi a única coisa no vídeo inteiro que valeu a pena ver.

[ UPDATE ] O pessoal do Omelete mandou bem e baniu o Pânico de futuros eventos. Eu receio, no entanto, que esse tipo de gente sem noção ou auto-crítica é imune a tais medidas. Talvez fosse mais eficiente encrencar com a emissora como um todo, e não apenas com o programa. O diretor/produtores dessa parada já deixaram evidente que não estão nem aí pra nada, já a direção da emissora vendo-se boicotada por um evento de forma mais massiva seja meio difícil de passar pra baixo do tapete. Afinal, essa porra aí já acontece com consentimento dos produtores (talvez o único consentimento que importe pro programa, pelo jeito).

Imagina uma criança aprontando as maiores merdas no prédio sob supervisão do irmão mais velho que permite a palhaçada. Ir reclamar com o irmão mais velho não rende nada. Cê tem que mandar uma bronca nos pais.

Opie and Anthony são uma dupla de radialistas americanos que alguns fóruns gringos que eu frequento (ou frequentava, ando sem tempo pra fóruns) parece idolatrar unanimemente — até recentemente. No momento os caras estão sendo odiados por boa parte da internet.

Pelo que captei do contexto, eles fazem o papel típico de “radialista polêmico meio arrogante e cheio de razão que às vezes arrisca fazer humor”. Algo como o Adam Carolla ou o Ralph Garman — duas referências mais dispersas que um peido na ventania, já que nenhum dos dois é muito conhecido no Brasil.

Não sei quando misantropia virou sinônimo inquestionável de humor ou de infalibilidade moral; culpo o George Carlin e humoristas que seguem a mesma linha (o Doutor House da TV tem uma pitada de culpa também, aliás). Não que haja algo de errado com esse tipo de comédia ou personagem — o problema é que ela inspira wannabes sem talento a concluírem que crueldade é inerentemente engraçada, dispensando o timbre e o timing cômico pra fazer essa caricatura funcionar.

Enfim. O loirinho aí em cima é a parte “Opie” da dupla. Conhecia bem pouco do rapaz quando comecei a escrever este post e continuo não sabendo tanto assim, além do fato de que ele é um desperdício de órgãos funcionais cuja maior contribuição para a raça humana será o dia em que o vazio de sua vida miserável o faça apontar uma arma para a própria cabeça e puxe o gatilho. E se posssível dentro duma banheira ou algo assim, pra não incomodar tanto o responsável pela limpeza.

O motivo de minha completa e absoluta repulsa por este excremento humano é o seguinte. Desde 1999, os radialistas inventam quadros polêmicos pro seu programa de rádio. Quão polêmicos, você me pergunta? Bem, esta dupla dinâmica que é a prova cabal da inexistência de uma divindade benevolente gosta de explorar a miséria de moradores de rua para o próprio deleite.

Lembra quando aqueles malucos atearam fogo no índio em Brasília e usaram a defesa “é que a gente achou que era só um morador de rua“? Como se um desabrigado fosse um sub-humano que não merece a gentileza de não ser queimado vivo? Pois bem, então, estes dois desgraçados — me envergonho até de dividir a mesma gravidade com eles — transformaram esse espírito (“é um morador de rua, foda-se”) num verdadeiro show de horrores.

E pior, com milhões de fãs e inúmeros patrocinadores.

Então, sobre os moradores de rua. Em 1999 estes futuros portadores de câncer de cu (cruzemos os dedos!) deram início ao Homeless Shopping Spree, um evento em que dão uma grana na mão de mendigos, colocam-nos num shopping e saem gravando os caras. É um freakshow do caralho que tem a intenção única de ridicularizar a condição do morador de rua (há formas melhores e menos vexatórias de fazer caridade, antes que você me venha com esse argumento).

Mas isso não é o bastante. Eles gostam de ridicularizar mendigos em formato freestyle, sem a necessidade de um evento e de uma logística ao redor da humilhação.

O vídeo abaixo faz meu sangue entrar em ebulição quando o assisto. Ele é constantemente deletado do YouTube; se for o caso, procure usando os termos “Opie Cake Stomp

É o seguinte. Alguns desses mendigos que se submetem às humilhações da dupla (o cara que não tem nenhuma outra opção na vida acaba se sujeitando a essas indignidades em troco de algumas migalhas mesmo, infelizmente) são figuras já conhecidas pelos apresentadores. Este homem, no caso, é o Homeless Andrew. Ele apresenta problemas de dicção; como é o caso com muitos moradores de rua, é bem possível que tenha problemas mentais.

Os radialistas notam que o padrão de fala do Andrew é meio não-convencional e perguntam se ele está bêbado. Ele diz que bebeu na noite anterior, mas que está sóbrio — o que confirma minha crença de que seu padrão de fala é por virtude de algum distúrbio neurológico.

Estes dois vagabundos que um dia presentearão a raça humana com as próprias mortes reparam uma caixa ao lado do mendigo e perguntam o que tem lá dentro. O mendigo abre a caixa orgulhosamente, mostrando um bolo. Num momento que, em retrospecto, torna o vídeo ainda mais deprimente e revoltante, o Andrew diz “treat yourselves!” (algo como “pega um pedaço aí!”) e oferece o bolo pra eles.

Este sujeito, que está vestindo basicamente 80% das posses que vem nessa vida maldita, que provavelmente é do tipo que não sabe exatamente o que terá pra comer até o fim da semana, ofereceu o bolo pros radialistas. Por sua interação semi-frequente com eles, Andrew vê os algozes como amigos.

Um dos radialistas menospreza a oferta do mendigo, dizendo “eca, eu não, come você, rsrs”. O outro, o Opie, cuja alma é mais suja que o filtro de um aquário que não é trocado há 7 meses, sugere que ele coloque o bolo no chão rapidinho “só pra eu ver um negócio aqui”. O mendigo obedece.

O radialista vai e pula com os dois pés juntos em cima do bolo.

cake stomp

De forma grotescamente previsível, câmera e microfones se voltam imediatamente para o morador de rua, pra registrar e explorar a desgraça dele naquele momento. Tudo que o Andrew consegue dizer é “pô… isso foi sacanagem…” com uma voz completamente derrotada. Em seguida ele tenta apontar pros desgraçados que “earned that [cake]“, ou seja — ele “fez por merecer ter aquele bolo”. Não é imediatamente claro o que ele fez pra conseguir o bolo — um dos filhos da puta insinua que ele teria tirado do lixo –, mas a expressão deixa implícito que o bolo é o resultado de algum esforço por parte do rapaz.

Ai este dejeto humano lamentável que tem o valor aproximado daquela gosma que é o resultado do acúmulo de sujeira do corpo, pelos pubianos e colônias bacteriais que se encontra no ralo do chuveiro dá o último golpe na dignidade do Andrew — ele atira algumas cédulas de dólares na direção do mendigo.

Como se dinheiro substituísse o sentimento básico de decência humana. Você percebe que o Andrew tá tão anestesiado por esse ato de crueldade gratuita que, apesar de paupérrimo, nem faz esforço de pegar o dinheiro. Um contra-regra qualquer é que recolhe o dinheiro e põe no copinho do mendigo.

target=”_blank”>Ah, eles fizeram algo similar com esta outra moradora de rua, durante um “show de talentos de mendigos”. Repare a reação dela quando percebe que ninguém está apreciando seu talento, e que ela está ali pra servir de alvo de humilhação.

E não, não faz muita diferença que estão dando dinheiro pra substituir o patrimônio destruído. Ela não parece muito consolada pelo fato de que deram algum dinheiro pra ela. Sabe por que?

Ignore por um momento que essas pessoas já são vitimadas o bastante pela sociedade; se alguém te humilha no meio dos amiguinhos escrotos dele, apontando pra você e rindo, se aproveitando do fato de que você tem pouco ou nenhum recurso pra se defender, e depois fala “ahhh tomaí esse dinheiro e sai fora daqui”, como você se sentiria…?

Você se sentiria como o lixo humano que, ironicamente, os engraçaralhos por trás dessas crueldades é que são.

E pior é saber que tem quem defenda esse tipo de coisa.

Este pequeno fenômeno se repete todo ano, sem falta. Outubro chega, o tempo começa a esfriar aqui no Oeste canadense, aí é hora de revirar os armários pra procurar as jaquetas mais grossas. Aí…

 

Dentre as guloseimas que achei no bolso da jaqueta ontem havia um chiclete que, ao ser mordido, tinha a consistência de giz. Ele simplesmente se esfarelou todo na minha boca.

Acho que os fabricantes desses docinhos de Halloween sabem que a criançada esfomeada vai comer todos no mesmo dia e nem se preocupam em colocar conservantes nessas porras. Se duvidar a validade deles é de 3 dias.

A seguinte rage comic ACABOU DE ACONTECER:

E o melhor foi o dialogo seguinte. Me esforçando o máximo pra não zoar a desgraçada, digo “poisé, abrimos no fim de semana também. Por isso que eu disse ’24/7′…”

“Ahhh, você quer dizer então que o horário de vocês é literalmente 24/7?”

“Err… Isso.”

A vontade na verdade era dizer “não minha senhora, 24/7 significa que trabalhamos só de segunda a sexta, de 8 às 17 horas”.

Que retardada do inferno. Tomara que seja gostosa ao menos.

Isso aconteceu comigo hoje.

 

 

Enquanto eu tenho que provar que falo inglês fluente e eloqüente (através de um teste filho da puta que custa uns 200 dólares e demora 3 horas e dura apenas um ano), esses meus amigos poríferos que não sabem sequer escrever a palavra “faculdade” são aceitos sem qualquer dificuldade.

Vá tomar no cu.

Mais uma quinta feira desgraçada, lá vou eu pro trabalho.

Quinta feira é desgraçada porque eu trabalho de quarta a domingo, então minha quinta feira na verdade é uma terça. Ou seja, vocês ai se já tão se animando pro fim de semana enquanto a minha mal começou. Você odiaria também.

Pois bem, imagine eu lá na parada de ônibus como um pobre proletariado quando de repente a seguinte cena acontece.

Mano, que susto maldito. Quase cai pra trás recuando do inseto maldito.

Logo em seguida vejo uma mulher chegando na parada e parando bem do lado da abeiona. Evidentemente não falei nada, foda-se ela.

E escrevi esta merda de texto inteiramente durante a viagem de ônibus (incluindo a tirinha). Olhaí:


20110811-022547.jpg

Acho que vou vender meus computadores, não tem mais por que usar aquelas merdas.

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