[ Recomendação ] Rick and Morty, um seriado cômico… diferente

rick morty

Meu irmão foi o primeiro a me falar deste desenho. Animadamente descrevendo-o como “uma ficção científica absurdista e violenta, com pitadas de Lovecraft, e roteirizada pelo criador de Community”, o moleque estava convencido que eu adoraria o seriado… mas demorei a finalmente assistir. Sou sempre assim; é raro me interessar imediatamente a algo que me é recomendado.

Quando finalmente o fiz, lamentei não ter começado mais cedo. Pelo menos, não perdi muito tempo — o seriado acaba de começar sua segunda temporada, com uma terceira já encomendada.

Vamos aos personagens. Temos o Rick Sanchez, um cientista maluco (mas incrivelmente capaz), alcoolatra, bastante cínico e meio sociopata. O show dá a entender que ele não conseguiu usar seu talento científico pra uma carreira “convencional”, e por isso tem que morar com a filha Beth e seu genro Jerry. O outro protagonista da série é o Morty, um garotinho de 14 anos que é sempre arrastado pelo Rick pra viver aventuras malucas espaciais/interdimensionais. O Morty tá sempre incerto de si, e com medo de todas as situações, enquanto o Rick tem aquela postura de “pfff isso aí não é nada, já me meti em coisa muito pior”. E tem a Summer, a outra neta do Rick.

O programa tem uma vibe de paródia absurda de De Volta para o Futuro, e não é acidentalmente. Rick and Morty foi desenvolvido baseado em Doc and Mharti, uma animação em flash que o Justin Roiland, o dublador de ambos protagonistas do desenho, fez anos atrás.

É… bizarro. Esteja avisado. Não assista no trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=EbTlK3perdI

Se parece bizarramente ofensivo, é porque esse é o objetivo: o Justin Roiland fez as primeiras animações com os personagens com a intenção expressa de receber um processo da Universal. O nome da série (que ele estava fazendo de forma bem amadora, só pra ele e os amigos na internet mesmo) seria “Back to the Future: the new official Universal Studios cartoon featuring the new Doc Brown and Marty McFly”, querendo realmente receber no mínimo uma cartinha extra-judicial.

No processo de criar o negócio ele acabou vendo que existia um potencial maior pra uma série baseada num cientista louco e num moleque que o segue nas aventuras. Aí ele mudou levemente o nome pra “The Real Animated Adventures of Doc and Mharti”. Eventualmente, ele resolveu fazer uma série completamente diferente, mantendo da paródia original apenas a sutil referência a um cientista maluco e um garoto que o acompanha.

Dá uma olhada no trailer da segunda temporada.

https://www.youtube.com/watch?v=90wG8ObCBE0

O seriado é excelente. É violento, é absurdo, é ofensivo, é improvisado em inúmeros momentos — e por isso bastante imprevisível. A temática de scifi dá ao programa, similar ao que acontecia com Futurama, a chance de explorar um monte de histórias ou cenários diferentes: universos paralelos, viagens no tempo, realidades simuladas, tudo com piadinhas absurdas e observações nonsense a cada curva. Por exemplo, em um episódio, Rick está ensinando Morty a dirigir sua nave espacial e aponta que ele pode parar na vaga para deficientes, porque qualquer entidade com menos de 8 membros naquele planeta é considerado deformado.

Uma coisa que tem me chamado atenção é que, assim como Futurama, Rick and Morty tem momentos de chocante sentimentalismo — e não digo isso da forma piegas, ou pra desmerecer. É realmente impressionante a transição de humor galhofa, pra momentos que te deixam triste. Digo isso no sentido literal da palavra: esses momentos deixam uma impressão distinta em você.

A autora Cath Crowley disse uma vez que “é mais difícil fazer alguém rir do que chorar” (embora a frase seja comument atribuída ao Bill Murray ou ao Leslie Nielsen). No que diz respeito a série animadas de comédia, eu acho muito mais digno de nota quando os personagens e as situações originalmente cômicas induzem o espectador a um momento de tenra introspecção, ou às vezes até mesmo ao choro mesmo.

SPOILERS DAQUI EM DIANTE, MAS NA MORAL PODE LER DE BOA PORQUE NESTE TRECHO VOU EXPLICAR PORQUE TU REALMENTE DEVERIA VER O DESENHO

VALE A PENA, CONFIE EM MIM

MAS É SPOILER, ENTÃO ESTÁ AVISADO

MAS VALE A PENA PORQUE AÍ TU VAI FALAR “CARALHO MANO QUE SERIADO FODA”

O desenho fez uma curva brusca pra um sombrio niilismo já na primeira temporada. Em Rick Potion #9, Morty pede a Rick que o ajude a conquistar uma garota da escola; Rick inventa então uma poção que deixará qualquer pessoa apaixonado pelo garoto. Só que naturalmente dá merda, a parada se espalha pelo mundo inteiro, e de quebra ainda transforma toda a humanidade (com exceção dos pais e da irmã do Morty) em monstros grotescos que eles chamam de “Cronenbergs”, uma referência ao diretor visto como pioneiro do “body horror” — ou seja, o tipo de horror que se deriva de destruição ou mutação extrema do corpo humano. Tipo Alien, ou O Enigma de Outro Mundo ou A Mosca (este último, inclusive, foi dirigido por ele).

Então, sem solução perante um mundo completamente fodido, o Rick fala que só tem uma única chance de resolver o problema. A cena corta, e vemos o Rick e o Morty chegando em casa; um jornal proclama que a epidemia genética foi resolvida, tudo voltou ao normal. Morty parabeniza Rick por ter achado uma solução, Rick volta a trabalhar em uma geringonça qualquer… que explode, matando ambos violentamente.

Nisso abre-se um portal. Rick e Morty “originais”, aqueles que estivemos assistindo pelos últimos 20 minutos, aparecem.

O Rick então explica que ELE não sabe como resolver o problema, mas como existem infinitos universos paralelos, existe vários em que ele conseguiu consertar o mundo. Bastava então achar um universo paralelo em que ele conseguiu reverteu as mutações, E também em que ele e o Morty tivessem morrido mais ou menos ao mesmo tempo. Assim, era só questão de enterrar os corpos e seguir normalmente como se aquele fosse o universo deles.

E na cena final, você entende o completo horror que isso significa pra um garoto de 14 anos. Ele nunca verá seus pais verdadeiros de novo. O mundo inteiro foi destruído. Ele está enterrando o próprio cadáver e tomando uma vida que não é realmente a dele. E há um bizarro contraste de atitude entre ele e o Rick; a indiferença do cientista sugere que ele talvez já tenha precisado fazer coisa parecida antes. Morty entra em casa, e vê tudo aparentemente normal, e não consegue conciliar o fato de que ele destruiu um MUNDO INTEIRO simplesmente porque queria que uma garota gostasse dele. E tudo ao redor parece completamente indiferente ao que acabou de acontecer. Apenas duas pessoas naquele universo inteiro sabem a catástrofe que acabou de acontecer em um universo similar, e uma delas não se importa, e a outra foi quem CAUSOU a tragédia.

O programa toca muitas vezes na temática cínica/niilista de que nada importa nessa existência, até ao ponto de falar isso literalmente. Mas nessa cena, o programa acertou o sentimento perfeitamente. Repare, aliás, que ambas cenas se conectam — porque foi aquela experiência que mudou o personagem daquela forma. A inocência do Morty acabou ali.

E como se isso já não fosse genial, a cena depois dos créditos desse episódio tem um plot twist de explodir a cabeça.

E o último episódio, novamente, deixou espectadores deprimidos. Em Auto Erotic Assimilation, revela-se que o Rick havia namorado brevemente uma entidade hive mind que desde então havia dominado um planeta inteiro. A entidade, no início do episódio vista como o antagonista do dia, é revelada como um ser benéfico e que havia melhorado a vida no planeta. É a presença do Rick, um alcoolatra com comportamento auto-destrutivo, que começa a foder a vida da entidade, até o ponto em que ela o abandona, levando consigo TODOS os habitantes daquele planeta. E deixa pra ele uma nota de despedida comovente.

Tomado por culpa e depressão, o Rick então vai pra garagem e começa a trabalhar em mais um de seus muitos experimentos. Só que…

Eu fiquei sem palavras ao fim desse episódio.

Rick and Morty é engraçado, é inteligente, faz sensacionais referências a scifi pra quem curte e manja do gênero, e de quebra ainda é capaz de me deixar com um nó na garganta em algujns episódios. Futurama servia esse papel antes, mas agora temos uma alternativa.

And awaaaaaaaaay we go!

A PROPÓSITO! Cenas depois dos créditos não é exclulsividade de filme de super heroi. Assista os episódios até o final, senão tu vai ter que fazer como eu, reassistindo vários capítulos passados pra ver a piadinha final.

Ah, e eles fizeram uma aparição especial nos Simpsons:

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comments

11 comments

  1. Izzy outro seriado que tem o mesmo foco de ser uma comédia animada que deixa vc super na foosa depois e causa momentos de iluminação é BoJack Horseman,série exclusiva da Netflix e dublada pelo Aaron Paul(o jesse pinkman).Se puder confira q não irá se arrepender,realmente percebi muitas semelhanças com essa série.

  2. Cara muita gente tem me falado deste seriado!

    Vou começar a assisti-lo neste final de semana, junto da patroa.

    Izzy já ouviu falar no desenho ‘The Oblongs’? A alguns anos atrás eu costumava assistir este desenho, ele passava nas madrugadas do SBT, na TV aberta aqui no Brasil.

    The Oblongs e Mission Hill foram uma das únicas séries que vi passar na TV aberta até hoje, ambas do Adult Swim.

    A série retratava a história de uma família que morava ao lado de um pântano contaminado com resíduos industriais, na zona pobre da cidade. Os donos de tais industrias eram os ricos, que moravam na parte rica da cidade. Os personagens desta família eram todos deformados e feios, por conta das contaminações. E as piadas do desenho eram geradas em cima das ironias entre ricos e pobres, feios e bonitos. Eu morria de rir com esta série, mas me parece que ela foi cancelada.

    Depois de uma olhada nela se não a conhecer.

    Ótimo post, abraços.

  3. Obrigado pela dica, Izzy. Comecei a assistir ontem. Era pra eu assistir 1 episódio por dia, mas já vi 5. E, a seu pedido: “CARALHO MANO QUE SERIADO FODA!!!”

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