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[ Recomendação de série ] House of Cards

Postado em 7 July 2014 Escrito por Izzy Nobre 25 Comentários

Antes de mais nada, o disclaimer: eu jamais trabalhei com a Netflix, e este post não é patrocinado nem nada do tipo. Adoraria trabalhar com os caras, porque ganhar pra falar bem de algo que você já gosta mesmo (como foi o caso desta resenha) é excelente, mas acho que eles não me notaram ainda. Fazer o que!

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O Netflix, um excelente serviço de streaming que acredito honestamente ser o melhor custo/benefício que eu pago nessa vida, começou há algum tempo a lançar suas próprias séries — uma notícia que o público e a crítica em geral recebeu de braços abertos. Falou-se muito de uma “nova era da televisão”; de fato, na época em que notícia saiu pareceu até peculiar a idéia de um serviço de streaming virando produtora.

O título de primeiro seriado original do Netflix é acirradamente competido por causa de algumas tecnicalidades. Cronologicamente falando, o primeiro seriado produzido sob supervisão do Netflix foi Lilyhammer. Entretanto, o Netflix entrou como parceiro numa produção televisiva convencional que já estava em andamento. É como colocar meu nome no trabalho em grupo sobre capitanias hereditárias quando eu nem fui na casa da menina lá pra fazer a pesquisa com a galera.

Mas colocar o nome na capa do trabalho que foi Lilyhammer deixou o Netflix com vontade de produzir algo realmente seu. E aí veio House of Cards…

…que tecnicamente, também não é “realmente seu” — assim como The Office, House of Cards é remake de uma série britânica homônima. Dependendo do critério que você queira usar, Hemlock Grove seria então a primeira série totalmente original do Netflix.

Mas então, vamos logo à série.

Em House of Cards, o sempre excelente Kevin Spacey interpreta Frank Underwood, um congressman, que seria o equivalente político dos nossos deputados. Mas ele não é apenas um deputado comum — ele é um “whip”, ou seja, uma espécie de líder que coordena os votos dos outros deputados do seu partido. De acordo com o que me disseram no Twitter, seria algo como um líder da bancada no equivalente político brasileiro.

Costumo explicar House of Cards dizendo que é como Breaking Bad, se o Walter White já COMEÇASSE como vilão. O Underwood tem todas as piores qualidades de um político — egomaníaco, sedento por poder e influência, mentiroso, manipulador, e sem qualquer escrúpulos. Ferido por uma promessa política não cumprida pelo novo presidente, Frank Underwood começa então uma campanha secreta para galgar os degraus políticos e destruir a presidência no processo. Praticamente traição, como aponta um personagem — ao que Underwood rapidamente retorque que “bom, ‘praticamente traição’ é simplesmente ‘política’ mesmo”.

Como em Breaking Bad, temos um personagem que é literalmente um vilão, manipulando todos ao seu redor e escapando da vigilância daqueles que no mundo real seriam os reais heróis da história (lembra do Hank? Temos vários equivalentes ao Hank aqui, no encalço das maracutaias do Underwood). Também como em Breaking Bad, Frank Underwood se mete em enrascadas políticas e legais que são solucionadas genialmente no último instante, deixando os outros personagens com o inegável semblante de “como esse filho da puta fez isso?!” no rosto.

Cabe aqui um pequeno comentário sobre a expressão “anti-herói”, que assim como eu via (erroneamente) atribuída ao Walter White, vejo também sendo empregada para descrever o personagem do Spacey. Anti-herói, tradicionalmente, é um herói que foge do padrão clássico de “escoteiro bonzinho” encarnado em personagens icônicos como o Superman, Spider-Man, Capitão América, entre outros.

Nos anos 80 e começo nos anos 90, vimos no universo de quadrinhos um fenômeno reacionário aos “mocinhos” clássicos da arte sequencial. Foi nessa época que rolou uma explosão da popularidade dos anti-heróis; o período foi um campo fértil pra esse arquétipo de personagem. Wolverine, Spawn, Punisher, Deadpool e outros se tornaram estrelas justamente nessa época. Aliás, a dependência das HQs desse período nesse modelo de personagem é algo que rende piadas e paródias até hoje.

Basicamente, o anti-herói é ainda um herói no seu âmago, mas um que age fora das regras, ou que se dá ao luxo de desvios de moralidade e ética para o bem no geral. Han Solo, por exemplo, que é um contrabandeador que luta pela Aliança Rebelde, ou o Ben de Full Throttle, que é um gangster de bom coração, ou o Wolverine, que é “do bem” mas mata gente pra caralho (esse é o motivo pelo qual ele teve carterinha de Vingador em tantas ocasiões, aliás — fazer o “trabalho sujo” é parte do CV dele).

Frank Underwood não é um anti-herói. Pior que o Walter White (que pelo menos COMEÇOU com boas intenções, antes de virar um monstro completo), o Underwood já é um cínico e impiedoso literalmente na primeira cena da série. Ele é um vilão protagonista; seus objetivos são completamente egoístas e imorais.

Voltando ao seriado: ele é uma interessantíssima exposição do processo político americano — e do processo político em geral, na real. O programa se embasa na mecânica jurídica/eleitoral americana, evidentemente, mas a dinâmica “uma mão lava a outra (e nesse lava-lava uma acaba algemada a outra)” deve existir literalmente em qualquer círculo político, seja em Washington ou em Brasília. Por isso, o seriado dá um insight interessante de como e por que alguns países são tão perdidamente corruptos. O vai e vem entre políticos e interesses privados, seja diretamente ou intermediados por lobbystas, é muito mais responsável pela direção dos EUA de House of Cards do que qualquer outra coisa.

E eu suspeito que o mundo real não é diferente em nada, com as vendas e trocas de favores políticos que moldam a direção do governo, e as eventuais pisadas de bola e/ou facadas nas costas uns dos outros que resultam em X9s delatando a parada toda.

Uma das primeiras dúvidas que tive com House of Cards foi decidir se um político americano, ao assistir o seriado, pensa “caralho, eles pegaram a gente, é desse jeito mesmo!” ou “pfff, eles pensam que é só isso aí? Então estamos de boa”. É assustador pensar que o mundo real tem inúmeros Frank Underwoods; ver a corrupção simulada na TV gera um “pânico sob controle” estilo montanha russa.

Talvez por isso o programa seja tão bom. Entretem e é ao mesmo tempo assustador.

E pra finalizar as comparações com Breaking Bad, é importante mencionar que temos aqui um vilão que é “the one who knocks” também. Não há nada melhor pra provar a maestria narrativa do seriado do que o fato de que a cena final, que não mostra literalmente NADA senão o protagonista batendo numa mesa (sequer tem diálogo), é de arrepiar.

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comments

Categorias: recomendação

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

25 Comentários \o/

  1. Tiago Moreira says:

    assisti as duas temporadas em uma semana e meia .. o incrível é a quantidade de episódios que tua cabeça explode e você fica PQP!!! QUE PORRA É ESSA ..

  2. Jota says:

    Ótima recomendação, Izzy! House of Card é uma série fantástica mesmo! Arrisco a dizer que uma das melhores coisas pós Breaking Bad. Chega a arrepiar a frieza, o jogo de cintura e a falsidade do Frank pra colocar o “tabuleiro do jogo” exatamente como ele precisa.

    Existe um pequeno detalhe na série que é uma das coisas que mais me prendeu quando estava assistindo: aqueles diálogos que o Frank tem com o espectador, quebrando a quarta parede. Um específico que eu achei sensacional é no final do primeiro episódio da segunda temporada (quem já viu deve saber qual é).

    • Izzy Nobre says:

      Caralho, esqueci de comentar isso…

      • Matheus Dias says:

        “Did you think I’d forgotten you? Perhaps you’d hoped I had”

      • Gabrielp says:

        Hehehe não me odeie Izzo, sei que você não curte. Mas Game of Thrones é igual House of Cards, só que todo mundo usa roupa medieval…

        Eu adoro essa politicagem sacana, essa busca por poder desenfreada. Assisti os primeiros episódios da primeira temporada e achei foda bagarai. Vou acompanhar.

      • Eu já estava considerando o melhor episódio da série e quando chegou nesse monólogo puta que pariu!

        “Did you think I’d forgotten you? Perhaps you hoped I had. Don’t waste a breath mourning Miss Barnes. Every kitten grows up to be a cat. They seem so harmless at first—small, quiet, lapping up their saucer of milk. But once their claws get long enough, they draw blood. Sometimes from the hand that feeds them. For those of us climbing to the top of the food chain, there can be no mercy. There is but one rule: hunt or be hunted. Welcome back.”

    • Celso says:

      Aquele que ele fala sobre alimentar gatos não é?

    • Arthur Barros says:

      [Spoiler]
      Voce se refere aquela parte: Voces acham que eu tinha me esquecido de voces?!

      • Jota says:

        [SPOILER]
        Isso mesmo! Eu passei o episódio inteiro pensando “ué, agora ele não vai conversar com o espectador mais não?” aí no final ele me manda essa! Quase pulei da cama hahahaha

  3. Vi você comentando a série no twitter e precisei rever o episódio onde ele acaba com a greve dos professores. Assisti as duas temporadas e em nenhum momento ele superou a genialidade daquela cena.

  4. Godoy says:

    ** spoilers**

    Presidente dos US and A. O votos. Foda.

  5. Caio says:

    Ainda sobre séries “originais” do Netflix, Lilyhammer e Orange Is the New Black são duas excelentes séries também. Gostei bastante das histórias e da pegada mais cômica.
    O mesmo não posso dizer de Hemlock Grove, que embora tenha algumas cenas muito bem feitas, a história eu achei um pouco caída.

  6. André says:

    Essa série começa legal, mas depois de umas duas temporadas eles começam a apelar pros absurdos. O fato de 99% do elenco ser formado por personagens filhos da puta também achava enjoado. Vc quer ver algo diferente, algo mais interessante, mas tudo o que vc vê são os velhos personagens filhos da puta usando os velhos truques de filhos da puta… Desde o primeiro episodio.

    Igual The West Wing, começou boa, mas depois foi ficando ruim (no caso do West Wing, foi ficando chata).

  7. leithold says:

    Não sei se era só coisa da minha cabeça, mas quando House MD estava no auge tive a percepção que alguns médicos (alguns que eu já frequentava antes) ficaram parecidos com ele. Ficaram levemente sarcasticos e ironicos (nada que comprometesse a ética da profissão…), talvez numa tentativa de copiar de forma meio tronxa a genialidade do personagem, ou de querer se encaixar em algo cool.
    Eu reparei nisso, porque percebi que faço isso com as séries que vi o gostei. Teve uma época que eu gesticulava igual ao Pauli do Sopranos quando falava!

    Se for o caso, será que o mesmo poderia se dar com House OF CARDS? Um politico ver aquilo e achar que é cool , se sentir de certa forma representado e compreendido e, talvez justificado?
    Os politicos brasileiros por exemplo estão cada vez mais cínicos, estão cagando para a opinião publica.

  8. Ygor says:

    Izzo, qual é o melhor episódio das (por enquanto) duas temporadas da série? P mim, o melhor é o episódio em que começam a investigar a os esquemas câmara e chegam à um fio de pegar o Frank. Nesse episódio você vê todo o potencial estrategista dele, mesmo nervoso/ansioso/e com medo. Aliás, já estão gravando a 3ª temporada ! \o/

  9. Bruno Guedes says:

    “seus objetivos são completamente egoístas, ele não”

    Senhor tá comendo final de frase, Kid. Dá uma revisada direito.

    No mais, ainda bem que o senhor finalmente assistiu essa série, que é muito foda. Eu sinceramente não conigo puxar da cabeça nenhuma outra história que me fez cúmplice de um vilão desse jeito(sim, eu ainda tenho que assistir Breaking Bad).

  10. Enzo Guerrero says:

    Alguém (ou o Izzy) pode me falar onde e como baixar o tema e plano de fundo da matrix q o Izzy tem no pc dele

  11. Bruno Alexandre says:

    Assistindo em 5, 4, 3, 2, 1…

  12. Vinicius Martarello says:

    Acabei de assistir umas 7 horas seguidas de House Of Cards. Obrigado pela recomendação.

  13. Hugo says:

    Adorei a série, levou 3 eps para me interessar mesmo.

    Kid, se você gostou de Breaking Bad, e ta recomendando House Of Cards, acho que você vai curtir bastante Dexter.

    Até mais!