[ Resenha de livro ] John Dies at the End

Lá pelos idos de 2005 ou 2006 havia um site que eu curtia muito, o Pointless Waste of Time. Era um site de humor sarcástico/irônico não muito diferente do que eu tento fazer por aqui (a principal diferença é que eles eram engraçados).

Então, o dono lá do PWoT chamava-se Dave Wong. De lá pra cá o bloguim dele fechou e ele tornou-se editor/redator do Cracked.com, possívelmente o melhor site de humor em toda a internet.

Pois bem, este colega Dave Wong estava há muito anos escrevendo um livro — embora na época fosse no formato de seriado internético mesmo, ele postava capítulos mensais no site lá dele — de terror/humor chamado John Dies at the End. Eu li os primeiros capítulos muitos anos atrás, quando eles estavam disponíveis na web, e achei interessantíssima a premissa do livro.

Sempre que explico pra alguém que John Dies at the End é um horror cômico (“comédia horrorosa” dá margem a uma interpretação bem adversa), a pessoa torce o nariz estranhando a combinação.

É compreensível, afinal horror e comédia são tons tão incompatíveis que é até difícil imaginar como é o esquema do livro. Dá até pra misturar drama e comédia (Forrest Gump é o primeiro exemplo que vem à mente), mas horror e comédia? Horror que assuste MESMO?

Pois bem, o Dave Wong conseguiu essa proeza.

John Dies at the End conta a história de dois amigos (Dave e John; sim, Dave é o próprio autor, o livro é em primeira pessoa) que, após consumir uma droga estranha que parece ter vindo diretamente o inferno, ganham a habilidade de enxergar através da realidade. Em outras palavras, os caras passam a ver todos os demônios/espíritos que compartilham o planeta com a gente.

Dave, o autor e protagonista, é o típico “cara normal”. Tem um emprego que odeia, uma casa que vive bagunçada, ganha pouco, não pega ninguém. John é o porra-louca que toca numa banda, só fala maluquice e é quase sempre o responsável por tornar uma situação ruim pior ainda.

No livro os malucos se envolvem com situações completamente bizarras envolvendo as forças do mal (cuja origem o final do livro explica de uma forma incrivelmente maestral que me fez ter pesadelos por vários dias), e as resolvem de formas ainda mais bizarras.

E o horror é realmente palpável; o Wong tem as manhas de descrever uma situação de forma que você se coloque no lugar dele e compreenda o tipo de pavor que o cenário provocaria. Realmente muito bom.

E na contrapartida disso, o humor é afiadíssimo — estamos falando do cara que redige o Cracked né, nem preciso falar que aqueles caras REALMENTE sabem escrever coisas engraçadas. E a facilidade com a qual o cara narra uma situação tenebrosa e fica indo e voltando para as sacadas humorísticas é um negócio pioneiro.

A melhor forma de explicar é assim — John Dies at the End tem trechos que farão você se mijar de rir. Logo em seguida, a trama se torna tão sombria e luciferística que você ficará com medo demais pra ir ao banheiro fazer xixi.

E aí você se mijará novamente.

Em resumo, descrevo John Dies in the End como um misto de:

  • HP Lovecraft (a idéia do terror ancestral que divide o planeta conosco e que há muito pouco — ou nada — que possamos fazer a respeito);
  • Kevin Smith (a dinâmica do amigo “normal” e o amigo maluco salpicado de diálogo sarcástico e referências a cultura pop);
  • Ghost Busters (afinal, os caras meio que são os caça-fantasmas da cidade misteriosa em que eles vivem — cujo nome não é revelado no livro);
  • Twilight Zone, também conhecido como “Além da Imaginação”, uma série antiga de seriados de terror/ficção científica bizarra. Esqueci de mencionar isso, o John Dies at the End tem uma pegadinha leve de sci fi também.

Até drama e romance tem, lá pelo final do livro. E tão incrível quanto a mesclagem natural do horror com comédia é a forma como o Dave Wong enfiou drama e romance no livro. A sensação não é “mas que merda, TINHAM que enfiar uma história de amor nessa bosta?“, é “caralho eu entendo perfeitamente como é isso e provavelmente faria a mesma coisa que eles se tivesse na mesma situação“.

Passagens que eu mais curti e que acho que você também vai gostar:

  • As formas bizarras (mas que fazem perfeito sentido no contexto do livro) como a dupla luta contra os demônios (o John combate uma horda de monstros “cantando” aquele solo de guitarra de Sweet Child o Mine; e outro trecho ele amarra uma bíblia na ponta dum taco de baseball);
  • Uma parte que lida com viagem no tempo/causalidade de uma forma que nunca vi antes em obras do gênero;
  • Um trecho em que o Dave explica pra um repórter como o John ALEGA ter infiltrado um prédio e lutado contra seguranças. Eu CHOREI de rir;
  • A conclusão da história é muito foda e vai te deixar triste. E não pense que o nome do livro é um spoiler. Ou é…?

Recomendo John Dies at the End com força. Eu terminei de ler o livro e fiquei tão maravilhado com o incrível desfecho — e senti tanta “saudade” dos personagens — que comecei a ler de novo imediatamente. Entrou fácil no rol de livros favoritos.

Até onde sei não há tradução em português, o que é uma pena. Aprenda a ler inglês e compre o livro na Amazon, valerá a pena.

Ahhh, quase esqueci: John Dies at the End vai ter filme ano que vem.

Cês notaram que depois da compra do meu ebook reader eu tenho livro PRA CARALHO?

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comments

39 comments

  1. Curtindo demais esse post! Adoro ler e esse livro parece ser daqueles imperdíveis, mesmo!
    Assim que a greve dos correios (sim, eles estão de greve aqui…) terminar, vou me jogar na Amazon!
    🙂

  2. Quide,

    Snto-me na obrigação moral e patriótica de recomendar ao universo um livro chamado “God, No! Signs you may already be an atheist and other magical tales” do colega mago Penn Jillette.

    Leia. Leia sobre. Não vou resenhar porquê *juro* que você iria se arrpender de cada segundo que não passou lendo o mesmo.

    Não te conheço pessoalmente, mas ja companho o blog há tempo suficiente pra saber que você vai curtir MUITO.

  3. Tá na lista de compras!

    Já tinha me interessado quando você citou esse livro algum tempo atrás, mas agora com a resenha, parece realmente imperdível…

    cobre alguma comissão do autor, pq com certeza muita gente vai comprar depois de ler esse seu texto

    1. Eu pelo menos entendo o terrir como filme/livro em que o horror é exagerado de uma maneira que faça rir, isso quando intencionalmente. Quando sem intenção é a produção que é tão, tão tosca que você não tem como não rir.

  4. Faltou citar uma “referência” na descrição.
    Douglas Adams. Eu “vi” o John como o Ford Prefect o livro inteiro. A relação é ainda mais parecida do que Jay & Silent Bob.
    Boa indicação Kid, muito bom o livro. Esperemos que o filme nao seja uma completa bosta.

  5. meu inglês é intermediário, admito. e não encontrei tradução desse livro, bem que um stalker seu de plantão poderia traduzi-lo pra e disponibilizar pra download. team hbdia!

  6. Kid seu maldito… eu fiquei com MUITA vontade ler isso, mas muita mesmo! meu ingles é meio tenso (bom o suficiente para poder ler Fight club, ruim o suficiente para nao entender a linguagem no alice in wonderland)

    1. Mas também, Alice’s Adventures in Wonderland é outro nível, né? Isso se você está falando do texto original, e não de alguma adaptação por aí. É um inglês realmente mais difícil que o dos livros mais modernos.

      Não li Fight Club (ainda), mas se você conseguiu lê-lo sem problemas, provavelmente vai conseguir ler esse do Kid também.

  7. Gosto ler livros sem saber muito sobre eles, pois muitas vezes o que se define por “sinopse” é o que se lê nos primeiros capítulos. Dessa forma perde-se um pouco da surpresa.

    Como você andou meio putaquepariuquelivrofodatop5comcertezaleiamissoamigospelamordedeus ultimamente no Twitter (e agora com esse post [que eu ainda não li]), baixei o pdf aqui pra ler. Até porque faz tempo que eu não leio nada.

    Então depois que terminar eu leio o post e digo o que achei.

    🙂

  8. Desculpa a pergunta, mas chega a ser mais assustador e angustiante que “Terminal”, do “Robin Cook”?
    Naquele livro, só de lembrar a descrição detalhada dos processos de lobotomia e abertura de caixa craniana, já me deu tontura. 🙁

  9. Acompanho teu blog há um tempo, mas nunca comentei. Eee, primeira vez (confetes, por favor)
    Então, eu quero esse livro e meu inglês é tão ruim que… Nem dá pra descrever o quão ruim ele é. Basta dizer que comecei a ler um livro e não consegui sair das primeira páginas. Com áudio eu até me viro bem, mas falou em ler algo, não rola muito bem.
    Tentei achar o livro ‘traduzido’ pelo google e não rolou… Acho que vou tentar baixá-lo e ir lento (tentando ler) conforme meu inglês de seriados vai deixando.
    Valeu a Dica Izzy!

  10. Adorei a resenha.
    Quando tiver uma oportunidade, por favor faça uma lista de livros que você leu e gostou muito. Gosto de basear minhas compras em listas alheias…

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