[ Resenha de quadrinho ] Independência ou Mortos

NÃO TEM SPOILERS, FIQUE FRIO.

A atual obsessão da cultura popular pelo mythos zumbi atingiu o estágio de produzir curiosos crossovers com os mortos-vivos. Na gringa, temos o exemplo de Pride and Prejudice and Zombies, uma releitura do clássico da literatura inglesa incluindo exatamente o que o nome indica.

E veja você, agora temos um equivalente nacional.  Li ontem Independência ou Mortos, do Fábio Yabu (sob pseudônimo anagramático “Abu Fobiya”) com ilustrações de Harald Stricker. O quadrinho (“graphic novel”, se você preferir) foi lançado neste ano pela Nerdbooks, o braço literário da galera do Jovem Nerd.

Independência ou Mortos, como qualquer ouvinte do Nerdcast sabe a essa altura, trata sobre a vida e obra de Dom Pedro I, sua jornada pelas páginas da História Brasileira, e alguns personagens periféricos cujos nomes você talvez lembre das aulas de história, embora não relembre exatamente o que eles fizeram.

E, é claro, com zumbis no meio.

Primeiro, a qualidade material do livro. Tendo o livro sendo lançado pela turma do Jovem Nerd, nerds ilustres no meio internético brasileiro, talvez inicialmente possa existir a impressão de que é um trabalho relativamente amador. Afinal, a falsa intimidade causada pela proximidade virtual talvez faça muitos verem Jovem Nerd e Azaghal como broders habituais na roda de bar. Por isso, eu não me surpreenderia se o estado de espírito “vamo ver aqui esse livro que meus amigos escreveram” faça algum hipotético leitor cultivar baixas espectativas em relação à produção.

Bom, não é o caso. IoM é uma publicação com qualidade de premium consumer product que não deixa a dever pra nenhuma editora de maior tempo de mercado. A capa dura, o que logo de cara deixa nítido tratar-se o quadrinho de uma produção de valor, tem uma ilustração rica em detalhes e que deixa evidente o conteúdo da história: Dom Pedro I se atracando com inúmeros zumbis. Na capa traseira, seus companheiros de batalha — personagens que, embora não nascidos no Brasil, são idealizados nas páginas do quadrinho como heróis nacionais.

A arte do quadrinho em si também não deixa nada a desejar. Em um preto-e-branco reminiscente de Walking Dead (até por causa do tema em comum), a arte do Stricker é competente, bem detalhada e se dá ao luxo de piadinhas visuais em alguns momentos. É o tipo de estilo artístico que recompensa o leitor atencioso aos detalhes no background.

A história começa com a histórica fuga da família real portuguesa em direção ao Brasil, graças à incursão militar napoleônica. Dom Pedro I, protagonista e narrador durante o início da história, é apresentado como um príncipe que acabou tendo o Brasil como sua verdadeira nação. Seu pai, Dom Fujão João VI, é retratado de acordo com as concepções tradicionais sobre o monarca: gordo, atrapalhado e ainda por cima, responsável por trazer a maldição zumbi ao Brasil.

Chalaça, a mão direita de Dom Pedro I e um dos personagens principais da história, aparece logo no começo também.

A trama é muito boa; Yabu recontou muito bem a história do nosso país e os conflitos de interesse entre a metrópole e a colônia brasileira, salpicando por cima a ameaça zumbi aqui e ali. A badassização dos personagens históricos foi bastante satisfatória, com momentos de pleno FUCK YEAH.

Texto pixelizado ali porque senão seria spoiler

Em alguns momentos há a impressão de que o foco mudou da luta contra os zumbis para uma revisão de história brasileira; no entanto, achei essas “pausas” na ação bem vindas. Ajuda a pintar melhor o universo do quadrinho; é bom lembrar que além das lutas hollywoodianas com ondas de mortos-vivos, há também a história de uma colônia tentando virar um país. Achei que ambos objetivos foram cumpridos.

Ah, e há algumas piadas internas referentes à cultura do Nerdcast. Passarão batidas para quem não ouve o podcast, mas imagino que estes serão minoria entre os leitores, então as piadas atingem o alvo certo.

Se há uma crítica em relação IoM, é o fato de que o tom do quadrinho varia um pouco entre “sério e emocional” e “galhofa estilo revista MAD”, e eu achei esse vai e vem um pouco distrativo. Algumas piadinhas visuais, apesar de legitimamente engraçadas, acabam sendo mais relevantes à turma viciada em internet.

Uma ocasião vem a mente em relação a essa crítica: uma plaquinha de protesto com um anacronístico termo em formato de hashtag. Na minha opinião, isso desvirtou do resto da história e talvez aliene um pouco o possível leitor que não compartilhe nosso amor por redes sociais. É uma piada meio parnasiana, digamos assim: uma piada que existe só por ser uma piada, sem a preocupação de contextualizar com o resto da história. E daí que não existia tuíter na época? Vale pelo absurdismo e pronto.

Não que eu seja contra humor absurdista, eu adoro. É que erode um pouco o clima mais emocional que o quadrinho toma lá pelo ato final.

No geral, eu gostei muito de IoM. Além da história ser divertida, existe um detalhe cultural que me faz vez o quadrinho como uma grande obra do gênero.

É o seguinte. Ao contrário da gente, os gringos exploram muito sua História nas mídias de entretenimento: seus personagens cívicos aparecem em desenhos animados, filmes, fantasias de Halloween, jogos, piadas, etc. Veja o recente Assassins Creed, que glorifica a história da Revolução Americana. Temos algum equivalente nacional disso? Há pelo menos novelas recentes que falem sobre um período brasileiro equivalente?

No Brasil, me parece que relegamos os heróis históricos a uma breve aula no ensino primário que explica o significado do Dia de Tiradentes e pronto. Tirando essas pequenas aulinhas cívicas de quarta série pra criança pintar o rosto como índios, jogamos toda a nossa rica história na pilha de material a decorar pro vestibular. Não há muito crossover da nossa bagagem histórica com o entretenimento, o que eu acho uma lamentável desperdício de oportunidade.

E por esse fator, eu acho que IoM transcende a simples categorização de “história em quadrinho publicada por site nerd”. Ao romantizar nossos heróis nacionais (que neste caso, paradoxalmente, não eram brasileiros), Independência ou Mortos acaba servindo como um esforço de pop-culturização da nossa herança histórica, à moda do que se faz lá fora onde se valoriza mais as raízes nacionais.

E há de fato no quadrinho momentos de espírito patriótico irresistível, como visto acima. Fiquei “bolado” ao ver esse painel, como dizem os amigos cariocas. É nesse contexto que usam o termo? Não sei.

Não sei se é porque estou fora da Terra Mãe há quase 10 anos (completarei 10 anos exatos no dia 28 de novembro de 2013); talvez por isso eu seja mais sensível a esse tipo de valorização ou releitura da nossa história e do nosso espírito.

De qualquer forma, recomendo Independência ou Mortos com toda força. Morando no Canadá há uma década ou nunca tendo pisado fora de São Paulo, acho que todos nós poderíamos apreciar um pouquinho mais o que vem da nossa terra, em vez de fazer como os brasileiros de 200 anos atrás e consumir apenas o que a metrópole cultural (no caso atual, os EUA) manda pra gente.

E neste caso, vale valorizar tanto o esforço artístico nacional (ainda mais um com tamanha qualidade técnica), quanto o conteúdo que brinca com a nossa História Nacional. Prestigie esses empreendedores nerds que falam nossa língua, leia Independência ou Mortos imediatamente.

Eis o link pra comprar.

(Tentei não tietar tanto e escrever uma resenha honesta, o que é difícil porque acompanho o Jovem Nerd desde o começo do site, e eu era fanzíssimo do trabalho do Yabu na época do saudoso PutaQuePariu.com)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

27 comments

  1. Graphic Novel espetacular! O mais gostoso é de reler 3, 4 vezes e ficar captando piadinhas (visuais ou não) que colocaram ali no meio e se surpreender cada vez. É de uma qualidade impecável, tanto a história como as ilustrações. Espetacular pra mim, 11/10

  2. “Há pelo menos novelas recentes que falem sobre um período brasileiro equivalente?”

    A novela das 18h de agora contou a história da Revolta da Chibata. Falando em Revolta da Chibata, há a excelente HQ “Chibata!”, que conta (preocupada com precisão histórica) a história da revolta liderada pelo Almirante Negro. Recomendo muito!

    1. Realmente, praticamente toda novela das 18h retratam alguma época da história brasileira, trazem as melosas historinhas românticas com o pano de fundo de algum momento, seja Sinhá Moça e a escravidão, seja a de agora e falando dos problemas no Rio de Janeiro no início do século XX (revolta da vacina, etc.)

  3. “Há pelo menos novelas recentes que falem sobre um período brasileiro equivalente?”
    Um que eu me lembro agora de bate-pronto é o seriado “A Casa das Sete Mulheres” que retrata a Revolução Farroupilha. Achei muito bom, só as cenas de batalhas que eu achei muito fracas, mas a história é bem interessante.

  4. “Ficar bolado” tem mais o sentido de “ficar chateado”, enquanto achar alguma coisa “bolada” é achar tal coisa algo foda.
    De qualquer maneira, ótima resenha, Quide.Também sou fã do Jovem Nerd, apesar de ainda não ter lido a HQ, e isso só me fez ter mais vontade de comprar.

  5. Tô esperando sair alguma promoção para comprar esse quadrinho, pelo menos um frete grátis.. achei que fosse rolar algo na black friday mas nem teve.

    fiquei mais ansioso ainda, boa resenha, Quide.

    1. então, a promoção na verdade já teve, e foi no Halloween…todas as coisas, tanto livros como camisetas entraram em promoção e ficaram uma semana assim..

  6. Achei engraçado você falar de Assassin’s Creed como exemplo de americanos glorificando a sua história, pois a Ubisoft é francesa, o jogo foi feito na filial de Montreal, Canadá e o jogo em si é razoavelmente crítico da história americana. Questiona o fato de George Washington ser tão a favor da liberdade e da democracia e ao mesmo tempo um fazendeiro dono de escravos, por exemplo.

    1. Me expressei mal. Não quis dizer que Assassins Creed foi feito por americanos, mas sim que a historia americana costuma ser mais abordada em mídias de entretenimento. Só que por não ter sido feio por americanos, talvez não seja o melhor exemplo.

    1. Pois é, ia comentar o mesmo. Até tenho as revistas em quadrinhos, pena que o projeto não vingou, achava bem interessante essa ideia dele de “abrasileirar” essa cultura japonesa!!

  7. Ao comećar a ler o post já pensei: “puta que o pariu, “cópia” da idéia (idiota) do Lincoln Vampire Hunter”. No fim das contas, parece ser isso mesmo … só mude “vampiros” pra “zumbis”.
    Acho que teríamos personagens mais dignos de uma HQ do que o DP-I… Na verdade, poderiam ter feito algo com o DP-II, que foi um cara muito esclarecido e fomentava o desenlvolvimento da ciência e também saiu vitorioso de três guerras, sendo uma delas a Guerra do Paraguai, o maior conflito armado da América do Sul e um dos maiores da época.
    Em suma, creio que a tal HQ fala em resgatar a nossa memória … comećando por colocar zumbi na história … se fossem lobisomens pelo menos …

    1. Então, levando em conta que essa HQ começou a ser feita há uns 2 anos atrás, não creio que ela seja uma “cópia” do Lincoln -- Vampire Hunter

  8. Izzy, bem off topic, mas quem é o cidadão mais famoso de Calgary ?
    Pois meio que involuntariamente acabei descobrindo que James Gosling, inventor da linguagem de programação Java e consequentemente da plataforma Java(que roda em mais de 1 bilhão de devices), é cria de Calgary. Por acaso tem alguma menção ao Java na cidade ?

  9. Eu achei que tinha muitos erros de português, o que me incomodou bastante. Afinal, membros da alta sociedade (do século XIX, pelo menos) têm que saber falar corretamente.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *