Revolta seletiva: quando proteger mulheres fictícias é mais importante

Eu fiz uma constatação curiosa nesta semana, e me perguntei o que vocês achariam disso.

Vejamos.

Como sabemos, recentemente houve a “polêmica” de bonecos da Rey aparentemente não existindo. No caso, estes:

Você deve ter ouvido falar disso, tenho certeza. Enquanto a internet reclamava disso aí, sairam notícias bombásticas sobre a epidemia de assédio sexuais e estupros na Europa, em decorrência da presença de refugiados/imigrantes árabes. Tem inúmeras histórias sobre, mas curiosamente o pessoal que é super politizado e ativista só se incomoda o bastante pra redigir TCCs no Facebook quando a cultura de estupro vitimiza mulheres fictícias.

Talvez você soube também da polêmica causada pela omissão da Rey no tabuleiro de Banco Imobiliário. A internet ficou em polvorosa porque, afinal de contas, a falta de uma pecinha de plástico de 2 centímetros é literalmente a pior ofensa que uma mulher pode sofrer.

Fig1: Gravíssima cultura de estupro

Afinal de contas, como é que mulheres poderiam curtir esse jogo a menos que haja uma boneca nele?! Você não entende que mulheres precisam de bonecas pra brincar? O que você sugere, que elas brinquem com… com BONECOS?! Tá errado.

Enquanto a internet esmirilhava teclados reclamando disso aí, você talvez não tenha ouvido falar que a polícia sueca admitiu recentemente ter acobertado casos de estupros cometidos por refugiados porque “pegaria mal, politicamente falando” acusa-los de crimes. Eles tinham medo que a direita européia se pronunciasse a respeito, e como nada é pior do que a direita tendo razão sobre alguma coisa, é melhor que essas minas aí se fodam.

É uma pena que essas mulheres estupradas não são feitas de polígonos — porque quando mulheres virtuais são feitas de objeto sexual, meu amigo, a internet não poupa esforços pra se ofender por elas. Por exemplo: você deve ter ouvido falar da personagem Laura, a brasileira de Street Fighter. Uma das roupas alternativas dela no jogo é essa:

Certamente você ouviu falar disso, já que é a pauta de hoje da internet.

Obviamente, como é costumeiro, os usual suspects se espevitaram com essa imoralidade, e aqui está um dos muitos escritos condenando a indumentária. O mundo ideal pra essa galera seria um em que não exista nenhuma imagem sexualmente provocadora, porque naturalmente sexo é feio, errado e vergonhoso.

Enquanto alguns se revoltavam com uma garota de mentirinha usando um short, na Noruega 3 refugiados estupraram uma garota de 14 anos com tamanho grau de violência que a garota contou ter tido vontade de se matar pra acabar logo com o sofrimento. Me dá até um embrulho no estômago digitar isso.

A parada tá tão tensa por lá que a Suécia começa a mudar de opinião sobre refugiados. Alguns não vão te contar isso, porque é melhor pra narrativa fingir que tudo tá uma beleza lá fora, e que VOCÊ que é um racista de merda por achar que injetar na Europa milhares de pessoas que vem de uma cultura em que mulheres (as DE VERDADE, lembrem-se) são objetos criados para servir os desejos carnais masculinos não daria nenhum problema.

Eu já tô escolado de tentar mostrar esse tipo de notícia pra essa turma, questionando-os sobre sua estranha e seletiva indignação. A resposta que geralmente recebo é “ahhh mas isso aí é um jornal de direita”, ou “ahhh sei não viu, não acredito”.

O que evidencia novamente um ceticismo seletivo. Nesta semana, uma fonte anônima sem provas de coisa alguma falou que a Disney não queria brinquedos da Rey mesmo e pronto.

Apesar da constatação da óbvio (há brinquedos da Rey, muitos aliás), e do fato de que as declarações de uma fonte anônima sem prova alguma não tem muito valor, quando é algo que confirma a narrativa, acreditam de imediato e sem qualquer questionamento.

E aí eu te faço a pergunta — por que a “cultura de estupro” de HQs, videogames, bonequinhos de plástico e adjacentes são tão nocivos, uma ameaça tão grave, necessitando textos quilométricos de repúdio, mas uma cultura que vitimiza mulheres DE VERDADE não rende o mesmo olhar crítico? Pelo contrário, quem ousa criticar as facetas culturais/religiosas que explicam o que tá rolando na Europa é condenado POR ESSA MESMA GALERA que tende a reclamar da falta de bonequinhos da Rey.

Quem me dera que os justiceiros de internet se preocupassem tanto com as mulheres de verdade, quanto se preocupam com as de plástico e pixels.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

22 comments

  1. A resposta não estaria no seu último parágrafo? Sei lá, de que forma reclamar de estupros cometidos na Europa usando o facebook poderia ajudar? Por outro lado, reprovar uma empresa na internet faz algum sentido, a empresa vive de sua deputação.

      1. Cara, é a literatura que espalha a cultura. Todos os movimentos de grupos começaram na literatura, passando a ideia, e agrupando as pessoas favoraveis e disseminando a ideia.
        Até mesmo a cultura PUNK, que muitos veem como uma simples bagunça teve seu inicio em lovros como “admiravel mundo novo”, que era uma crítica à sociedade vigente, e os inuneros fanzines da época.
        Ficar usando esses argumentos superficiais só mostra que a galera realmente não está preparada para uma harmonia maior. Homens e mulheres podem ter is seus papeis distintos, mas podem tbm trocar, ou burlar regras impostas. E cortar a personagem principal de um jogo é não é nem uma forma de machismo, é pior: é entender que ele existe e que qualquer luta contra ele da prejuizo financeiro. E aí tudo entra num ciclo de vendas e manutrnção do status quo. Vamos parar com isso!!!

      2. Acho que a cultura islâmica ainda tem privilégios justamente por ser cultura, Izzy. Muita gente acha que cultura merece respeito, que não se deve encrencar com cultura alheia porque seria “preconceito colonialista”, mesmo que essa cultura tenha alguma prática bárbara como tradição. E as pessoas tendem a ser mais relaxadas quando as tradições culturais prejudicam mulheres. Até hoje, na África, Arábia, Irã e em outros países meninas ainda tem a genitália mutilada, não se fala quase nada sobre o assunto e as campanhas contra essa prática se arrastam a passo de tartaruga; mas proponha castração química geral pra estupradores e encha uma Cantareira com o chororô dos defensores de direitos humanos. O machismo mais perigoso é justamente o que se disfarça de cultura pra ganhar invulnerabilidade.

        Quanto ao brinquedo da Rey, aqui no Brasil ainda não vi nenhum. Imagino que as pessoas queiram o brinquedo da Rey porque representatividade na mídia costuma ser importante pras crianças. Whoopi Goldberg contou numa entrevista que decidiu lutar pra seguir carreira de atriz quando assistiu Star Trek e conheceu a personagem Uhura, a primeira mulher negra que ela via na TV que não interpretava uma empregada ou uma escrava, e percebeu que poderia fazer o que quisesse. Whoopi não teria seguido a carreira de atriz se não tivesse conhecido Uhura. Há alguns dias saiu um vídeo de um menininho negro com o boneco do Fin todo feliz dizendo “Parece comigo”. Pra quantas meninas a Rey seria importante? Não sei, mas pela alegria do menininho só por ter um brinquedo parecido com ele e pelo depoimento da Whoopi, acho que muitas meninas se beneficiariam muito mais da Rey do que de todas as estúpidas princesas Disney juntas.

  2. Perfeito o texto. Resumiu essa turminha xarope de internet, que alguns anos atrás eram do “humor negro” e agora pagam de “mudados” e “esclarecidos”.

    Essa questão dos refugiados na Europa deu uma tela azul imensa nessa galera. Parece que deu empate no Super Trunfo da opressão (mulheres x islâmicos) então o modus operandi tem sido calar sobre o assunto.

    Parabéns pelo texto.

    1. Realmente isso criou um dilema. A comunidade européia não pode recusar os refugiados fugindo de uma guerra, mas ao mesmo tempo não pode permitir essa manifestação de uma cultura que inferioriza os outros (no caso, as mulheres)

  3. Só eu não entendi muito bem qual a relação com a representação da Rey nos brinquedos, no qual já admitiram abertamente que não representaram ela propositalmente, com a crise refugiados? Eu sei que ambos são um problema mas, desde quando uma coisa anula a outra? Ou melhor, desde quando protestar contra um significa que você não protesta contra o outro? Isto é exatamente oque você falou no seu louvável vídeo sobre “Mariana vs Paris”, Izzy. Por favor, me corrijam caso eu estiver errado e não me entendam mal, mas com todo o respeito isso me soou como uma mera “briguinha de internet”.

  4. Acabei de ler tudo o que eu (e com certeza muita gente por aí) penso a respeito de pessoas que defecam no teclado sobre política e feminismo. Ótimo texto.

  5. Uma coisa não elimina a outra. Representatividade na cultura pop é importante também, assim como prevenir estupros é importante (em graus e urgencias diferentes). Ver mulheres bem representadas na cultura pop faz os meninos e homens verem as mulheres como serem completos, não como objetos ao seu dispor, o que de uma forma mais extrema alimenta a cultura do estupro. Uma mulher que é um objeto no videogame ou no cinema também é um objeto quando está na rua.
    Além disso, eu acho que a sua timeline que só tem esse tipo de reclamação, porque na minha tem bastante coisa sobre a violência real que as mulheres sofrem, inclusive aqui no Brasil mesmo. Até pq se preocupar tanto com o que acontece na Europa (q é grave sim) e não ver o que acontece aqui mesmo também me parece revolta seletiva.

  6. “Uma cultura em que mulheres (as DE VERDADE, lembrem-se) são objetos criados para servir os desejos carnais masculinos não daria nenhum problema”

    Se eu lesse isso fora de contexto, acharia que você está falando sobre qualquer cultura ocidental ordinária.
    Acho que seu texto serve tanto para criticar a grande preferência que as redes sociais dão à proteção de mulheres fictícias, quanto para criticar o fato de que algumas pessoas só estão começando a dar atenção ao fato de que mulheres sofrem abuso sexual e outras violências brutais (ou à cultura do estupro) agora que temos uma etnia a quem culpar.
    Vide o caso da Suécia. Lá, a violência contra a mulher sempre foi um problema tão grande que recentemente o governo resolveu contar, em seus levantamentos sobre crime, cada estupro como sendo um acontecimento individual -- ao contrário de quando eles contavam todos os estupros que uma mulher sofreu de um homem específico como um estupro só. E agora eles têm a quem culpar. E o mundo todo de repente começou a dar atenção para a violência contra a mulher na Suécia, crentes de que certamente isso não é uma cultura do país e só pode ser um crime importado.
    Também sou defensor de que abrir as fronteiras sem critério algum permitindo um fluxo incontrolável de refugiados é algo que naturalmente causará problemas sociais diversos. Só que usar uma cultura inteira como bode expiatório das fragilidades de uma sociedade e de um Estado é algo com o qual nunca irei concordar.

    1. >Se eu lesse isso fora de contexto, acharia que você está falando sobre qualquer cultura ocidental ordinária.

      Você é maluco se acha de fato que mulheres tem os mesmos direitos no mundo islâmico que no mundo ocidental.

      1. Falei especificamente sobre cultura, não sistema legal.
        O sistema legal deles, subordinado à sharia, se encontra na posição em que sistemas legais no ocidente só abandonaram totalmente há 50 anos atrás. E considere que cada país ou comunidade islâmica adota um nível diferente da sharia, dependendo da escola de jurisprudência. Como não existe um Califado, cada comunidade islâmica acaba sendo única.
        Estou falando sobre cultura. E poderia agora colocar diversos dados só aqui do Brasil que mostram que nossa cultura ainda acha que mulheres são inferiores, que homens são donos de mulheres, que mulheres são objetos sexuais, que mulheres não devem ter alguns direitos que os homens têm, etc. Isso tudo apesar de, legalmente, nossas mulheres terem conquistado muita coisa no fim dos anos 60. Mas assumirei que você já sabe de tudo isso, então usarei apenas um exemplo oportuno: aquele onde cinco soldados americanos estupraram uma iraquiana de 14 anos e mataram toda sua família, em Al-Mahmudiyah.
        Concordo com você em tudo o que você diz sobre a necessidade de “awareness” pro atraso do sistema legal deles e para a situação das mulheres no mundo islâmico. Mas o ocidente está aproveitando pra sentar-se sobre o próprio rabo agora que tem um bode expiatório pra problemas que também estão incrustados na nossa cultura.
        Toda sociedade precisa de um monstro. Sempre foi assim. E os monstros da vez parecem ser os muçulmanos.

        “- MOACIR, tô vendo aqui que mudamos nossa forma de contabilizar estupros, mas agora ficamos com fama de país com maior número de estupros contra mulheres na Europa! Quero uma solução na minha mesa até as 18h!
        -- Dá nada não chefe. É só falar que foram os refugiados!”

  7. Será que isso não é uma jogada de marketing, criar uma estorinha dizendo que boneca da Rey não está sendo vendida, pro consumidor otário e sugestionável ir lá nas loja encomendar e comprar pra mostrar na internets que tem sim?

    Tem que ver quem foi o primeiro a postar o textão, se é uma pessoa real, ou só um fake usado pra viralizar seu produto. Lembra das “fãs” histéricas dos Beatles, atrizes contratadas pra influenciar a manada adorar o grupo? É isso.

  8. Cara, é a literatura que espalha a cultura. Todos os movimentos de grupos começaram na literatura, passando a ideia, e agrupando as pessoas favoraveis e disseminando a ideia.
    Até mesmo a cultura PUNK, que muitos veem como uma simples bagunça teve seu inicio em lovros como “admiravel mundo novo”, que era uma crítica à sociedade vigente, e os inuneros fanzines da época.
    Ficar usando esses argumentos superficiais só mostra que a galera realmente não está preparada para uma harmonia maior. Homens e mulheres podem ter is seus papeis distintos, mas podem tbm trocar, ou burlar regras impostas. E cortar a personagem principal de um jogo é não é nem uma forma de machismo, é pior: é entender que ele existe e que qualquer luta contra ele da prejuizo financeiro. E aí tudo entra num ciclo de vendas e manutrnção do status quo. Vamos parar com isso!!!

  9. Izzy, acho que você foi hipócrita nesse texto, fazendo exatamente aquilo que condenou em um post recente. Veja como os “argumentos” se parecem: “não é justo comemorar uma conquista de uma minoria oprimida enquanto tem crianças passando fome na África” / “não é justo reclamar da sexualização/não representatividade feminina na cultura pop enquanto tem mulheres sendo estupradas na Europa”. Você está querendo fazer uma competição de problemas para justificar seja lá o que for, sem efeito prático nenhum em relação ao problema. Como você mesmo disse naquele post, é um argumento ideológico mesquinho: não falemos desse problema enquanto não resolvermos o outro que é mais urgente. Mandou mal.

    1. Essa comparação não tem sentido. A mudança de um avatar no Facebook é uma CELEBRAÇÃO, dizer que não se pode celebrar nada enquanto todos os problemas do mundo forem resolvidos é um non sequitur sem sentido.

      Por outro lado, é contraditório se opor taaaaanto à tal “cultura do estupro”… mas só nos videogames/quadrinhos/piadas. A cultura que realmente comete abusos endêmicos contra mulheres segue totalmente sem críticas vindas dessa mesma galera, porque embora se proponham a criticar culturas, ao mesmo tempo insistem que certas culturas não podem ser criticadas.

  10. Pq vc não faz algo positivo simplesmente por ser o certo a se fazer? Pq só resolve manifestar preocupação sobre algo que não te afeta diretamente quando é conveniente pra provar algum ponto e criticar quem te incomoda?

    Sabe quando nossa cultura do estupro vai mudar sem um posicionamento? Nunca. Estupro não é feito por um pinto flutuante nem por um monstro imaginário em forma de homem. Quem estupra é o próprio HOMEM que tá inserido numa cultura que trata mulher que nem bosta. Pode ser do outro lado do planeta, mas tb pode ser seu amigo ou seu pai que cresceram achando que mulher é isso aí. Não se trata de sexo, se trata reduzir mulheres. Isso é demonstração de poder. E sabe o que homens fazem com poder sobre as mulheres? Poisé. E acontece o tempo inteiro. Com pessoas a sua volta. Acontece com a gente que tá reclamando disso. É por isso que é importante. Vivemos constantemente com medo e é beeem prepotente da sua parte dizer se devemos ou não nos incomodar com isso.

  11. Primeiramente, Izzy: note que no caso das mulheres fictícias, existe uma resposta “certa” para quem é de esquerda. “Tá errado isso”, “opressão machista”, etc. Já no segundo caso… Não. Tem gente se fodendo, mas é por causa dos refugiados. E aí? O que o colega de esquerda vai comentar sobre o assunto? se disser que abrigar refugiados demais com cultura diferente é ruim vai se queimar com os amigos. E se aceitar que isso é consequência razoável para um “bem maior” (salvar os pobrezinhos) também vai se queimar, então… é melhor fingir que não tá acontecendo nada.

    Além disso, a roupa da Laura está completamente compatível com a vestimenta padrão no Brasil. Algumas colegas de trabalho vestem menos e desrespeitá-las pela escolha delas de vestimenta é machismo.

  12. O Cardoso já disse isso também num post dele sobre a guerra no Iemen que é tão brutal quanto a guerra na Síria mas aparentemente ninguém liga. A real é que ninguém se importa com isso e só quer transparecer ao círculo social próximo que é politizado, cool, intelectual e altruísta.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *