Tentando arrumar comida no Natal — uma saga canadense

fome

Então é (ou melhor, era) Natal, amigos! Natal! O aniversário de Jesus Cristo, um judeu que nasceu há mais ou menos dois mil anos atrás e que, de acordo com uns amigos próximos, fazia altas mágicas e tentou deixar uma mensagem de amor ao próximo (que seus fanboys seguintes de alguma forma transformaram numa estranha obsessão com a sexualidade alheia).

Você já parou pra pensar que se Deus é Pai, e criou tanto Jesus quando o Diabo… Satanás é irmão de Jesus? É assim que funciona, não é? Satanés seria então o irmão vagabundo, marginal, que tira nota baixa na escola, que deixa o cabelo crescer a contragosto do avô, que usa o gelo e não enche a forminha de volta.

Voltando à minha aventura natalina. Troquei os presentes com a Bebbinha, mandei SMSs para pessoas importantes e algumas não tão importantes assim mas que os contratos sociais obrigam a troca de mensagens de felicitações natalinas, e fui pra casa do meu pai tomar café da manhã. Chegando lá gravei esse videozinho com o Kevin, meu meio-irmão.

(Como SEMPRE tem alguém pra perguntar o que isso significa — é o filho do segundo casamento do meu pai)

VIRA BAIXO PARA QUE

Um vídeo muito excelente publicado pelo Izzy Nobre (@izzynobre) em

Depois disso voltei para casa com a patroa para uma noite de preguiça no sofá assistindo filmes natalinos (Duro de Matar ou Esqueceram de Mim, faltava decidir qual — embora, se tu parar pra pensar, são BASICAMENTE a mesma história: um herói inesperado e em desvantagem numérica combate bandidos e prepara armadilhas, pulando de esconderijo a esconderijo).

Só que não é uma boa noite de preguiça no sofá assistindo filmes sem COMIDINHAS, como diríamos no 99 Vidas. Vou investigar a geladeira e encontro-a completamente deserta. Se isso fosse uma cena de filme, eu teria ouvido o barulho de um grilo montado numa bola de feno.

Essa aí ainda tá em melhor condição. Eu acho que a minha geladeira tá até sem a lâmpada.

Não há problema“, pensei burramente, que é uma tendência comum aos meus pensamentos, “vou pedir um deliveryzim esperto“.

Após ligar pra 3 pizzarias diferentes — em ordem de preferência, claro –, a ficha caiu de que sendo apenas o MAIOR feriado do ano, eu não encontraria delivery funcionando. A mulher começa a lamentar-se da fome, mas ainda não há problema: existem 1,3 bilhão de pessoas que contribuem com a cultura mundial com sua culinária e que convenientemente não celebram Natal: os chineses!

Agora, eu não gosto muito de comida chinesa. A única comida chinesa que eu como nesses restaurantes é chicken balls, que sequer é genuinamente chinesa. Tal qual o Bear Grylls, que bebe urina para sobreviver, terei que me sujeitar a ingerir algo que não gosto para me manter vivo. Um Bear Grylls cearense.

Ligo para os seis restaurantes próximos (é o que acontece quando você mora perto da Chinatown de Calgary) e nenhum faz delivery. Primeiro os chineses se escravizam uns aos outros em fábricas de iPhones, e agora isso? Começo a me decepcionar com a nação asiática.

A mulher começa a ficar impaciente. Começa a ficar claro que

1) Eu deveria ter feito compras antes do Natal;

2) É possível que eu vá dormir com fome como meus tataravós retirantes o fizeram muitas vezes em seu êxodo de Quixadá pra Fortaleza décadas atrás.

Tal qual Desmond Miles, eu aceito as responsabilidades de reviver as experiências de meus antepassados, mas deixar minha pobre esposa com fome? Por mais que a essa altura ela seja praticamente uma cearense honorária, eu não posso permitir que ela passe fome. Então me resigno ao inevitável: terei que me arrumar pra sair e procurar comida.

É incrível como eu sou retardado o bastante pra fantasiar sobre as situações mais triviais. Enquanto pegava as chaves e me agasalhava pra enfrentar o inverno canadense (que tá até bem tranquilo esse ano, aliás), eu me imaginava um membro de um “away team”, sabe coé? Aquela turma do Star Trek que entra nas navinhas pra ir consertar a Enterprise ou explorar a superfície de um planeta, entende? Eu estaria igualmente abandonando a segurança da minha casa quentinha pra sair na rua procurando mantimentos.

Chego no carro, dou a partida, luzinhas acendem, barulhos apitam. O painel do carro me dá diagnósticos do status da máquina — nível do óleo indica que não preciso troca-lo por mais dois meses, o indicador de combustível mostra que posso correr outros 200km antes de precisar encher o tanque, e um embrulho de chocolate do lado direito informa que preciso limpar meu carro com mais frequência.

Engato a ré e tiro o carro da vaga com o mesmo cuidado que um piloto espacial sairia da landing bay da Enterprise, rumo ao restaurante mais próximo que ainda esteja aberto.

Eu tirando o carro da vaga

É por isso que eu não posso assistir filmes de ficção científica sem passar os próximos dias vendo tudo ao meu redor como um análogo dos equipamentos espaciais do filme. Depois que assisti Interstellar, passei umas duas semanas achando que estava ativando retrofoguetes ao ligar o aquecedor do carro, ou imaginando uma docking sequence ao parar o carro no estacionamento do hospital onde trabalho.

Outro dia reassisti Apolo 13 e sempre que estou numa situação em que a bateria do celular está acabando e não terei uma chance de recarrega-la em breve, saiu desligando features do celular pra economizar energia me imaginando como os astronautas do filme.

É foda.

Então. Meu primeiro destino foi o Chicken on the Way. Isso aí:

Não parece grandes coisas, correto? Entretanto, você estaria julgando o livro pela capa se pensasse isso. O Chicken on the Way é o provedor da mais suculento frango frito que eu já comi na minha vida, com perfeitos temperos e crocância ímpar. Confie em mim, como gordo profissional eu entendo dessas coisas.

Uma vez que você comeu Chicken on the Way, nenhum outro frango jamais te satisfará, e isto não é um exagero ou tentativa de piadinha. Não desconsidero a possibilidade de que estão colocando crack na receita.

CotW inclusive tem uma mega fama na minha cidade. Tente ir lá num fim de semana e a fila sai da loja e passa da calçada. Pra colocar em outros termos, CotW faz KFC parecer um balde de vômito com pedacinhos de câncer estomacal flutuanto entre aglomerados de muco.

Dirijo animado em direção ao Chicken on the Way, mas a vida mais uma vez me decepciona — aquela plaquinha de neon “Open” está claramente apagada, assim como as luzes dentro do estabelecimento. Estaciono na frente do restaurante de qualquer forma, incrédulo, sem saber o que fazer em seguida. Engulo frustrado a saliva que minhas glândulas estavam produzindo em overtime desde que decidi passar no CotW.

Desanimado com minha própria existência e novamente indagado se existe de fato um deus justo neste universo, me resignei a ir ao Subway próximo. Que estava igualmente fechado. O McDonalds da esquina? Também fechado. Dois restaurantes no meio do caminho? TUDO FECHADO ESSAS PORRAS.

Meu raio de atividade na missão era de apenas NO MÁXIMO 5km da minha casa. Decidi contrariar os parâmetros e acelerei, rumo a um McDonalds que eu SABIA que estaria aberto.

Cheguei lá e pelo jeito aquele restaurante estava absorvendo todos os outros andarilhos esfomeados, porque tinha — sem putaria — uns 10 carros em fila no drive through. A fila saia da área normalmente designada ao drive through e chegava à avenida; na prática, uma das faixas da avenida era uma extensão do drive through a porra do restaurante.

Quase meia hora depois finalmente consigo comprar a comida. Volto pra casa alegremente, enfiando batatas fritas na boca enquanto dirijo, e noto que, assim como Interstellar, o final dessa minha aventura deixou um pouco a desejar.

Mas o vídeo do autorama lá em cima valeu a pena, diz aí.

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comments

15 comments

    1. Não mas é costume usar calças pretas com camisas xadrez vermelho e preto com suspensórios e cortar árvores alegremente com machados afiadíssimos. 🙂

  1. Eu ja fui nesse chicken on the way de kensington e sinceramente nao gostei. Nao sou tao fa assim de frango frito, e ainda o negocio era tao oleoso que ate eu fiquei ensebado so de ficar la 5 minutos esperando.

  2. Desfecho da aventura: 7/10
    Vídeo com o Kevin: 13/10

    Overall: valeu a pena.

    Quando é que você vai lançar seu livro de saga espacial Izzy Noblesky?

  3. Izzy, esse lance de post novo todo dia as 11:00 tá meio esquecido né! Esperando um novo post! não me leve a mal, veja pelo lado bom, só quero ler mais conteúdo que você escreve!

  4. Um conhecido me apontou para a sua página. Devo dizer que as suas estórias, em ora inverossímiles, são espirtuosas.

    Espero que consiga encontrar um jornal interessado em publicá-las como uma coluna.

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