Olha, eu ACABEI de fazer um vídeo criticando o movimento feminista, e geralmente não gosto de me ocupar repetidamente com a mesma pauta pra não acharem que estou perseguindo o alvo da crítica… mas eu não tenho culpa se essa galera apronta duas dessas na mesma semana.

ABRE PARÊNTESE

E sim, estou ciente de que o Joss Whedon declarou não ter saído do tuiter por causa dos ataques estridentes das extremistas que o ameaçaram com violência física. Acredito que você possa ver claramente no vídeo que o cerne do argumento não é o tuitercídio dele, e sim os ataques que ele sofreu e a retórica militante de analisar trivialidades da cultura pop a um extremo doentio, impossível de satisfazer, num transparente esforço de censura por meio de coerção ideológica.

Se ele NÃO tivesse deletado a conta no site de microblogging, minha análise da obsessão militante em magnificar minúncias procurando um pequeno átomo de ofensa — pra responder então com a boca espumando de ódio — ainda estaria valendo.

Vocês que VOARAM nas minhas mentions, comentários do youtube e caixa de email pra explicar que meu vídeo foi “inútil” porque eu errei sobre a justificativa do cara pra sair do Twitter pelo jeito precisam reassisti-lo, porque esse não era o argumento central do que eu falei. Isso pra não entrar no assunto de que eu questiono bastante a sinceridade dele nessa declaração panos-quentes, e suspeito que ele prefere é não atrair mais fúria do movimento.

FECHA PARÊNTESE

Ok, vamos a história da Luisa/Helena/Heloisa/Luis. Com a palavra, Lua Sophie, que escreveu o textão abaixo. É um texto longo, e meio confuso, então vou oferecer uma interpretação resumida no final.

Caso o tamanho do texto te desmotive, eu clamo a você, leia até o final. Em 2015 faz 20 anos que estou usando a internet — porra mano, como eu tô velho! — e esse talvez seja o relato mais hilariantemente inacreditável que eu já li em toda a minha vida de internauta.

Vamos à história.

LESBOFOBIA E SILENCIAMENTO DE MULHERES NO EME.
Algumas moças já fizeram relatos ao voltarem do EME ontem a noite, eu cheguei tão exausta psicologicamente que não consegui escrever sobre, mas vamos lá.

O EME deveria ser um espaço acolhedor e seguro para as mulheres que lá estavam presentes, eu imaginei que seria um espaço trans-inclusivo, e foi.

Havia um homem, que vive como homem, que é lido como homem socialmente, e que usava barba até chegar no evento, e que decidiu, após chegar no evento que era mulher-trans e lésbica. Quando eu cheguei ao evento, eu não vi essa pessoa, algumas mulheres me procuraram dizendo “tem um homem aqui! isso é absurdo” até que eu o vi.

Ao chegar lá, ele tirou a barba, e decidiu que o nome dele era Helena, depois parece que ele não gostou do nome e mudou o nome pra Luisa, depois pra Heloisa, e enfim, as amigas dele o chamavam de Luis. Muitas mulheres lésbicas que estavam comigo estavam desconfortáveis com a situação, depois descobrimos que a saia que ele usava era de uma moça do próprio alojamento que havia emprestado, pois fora dali, Luisa/Helena/Heloisa/Luis não usava saia, nem batom, fora dali Luisa/Helena/Heloisa/Luis era um homem branco, classe média, universitário que namorava uma menina, que estava presente no evento, porem até então não sabiamos que esse homem se dizia lésbica, as coisas foram aparecendo conforme o tempo foi passando la dentro.

Muitas mulheres com que eu tive contato lá dentro, expuseram seu desconforto, mas tinham MEDO de falarem qualquer coisa e parecerem preconceituosas, algumas se sentiram culpadas por se sentirem desconfortáveis dentro do banheiro aonde 1.000 mulheres tomavam banho e trocavam de roupa e deveriam se sentir seguras, porque Luisa/Helena/Heloisa/Luis estava lá dentro, tomando banho com elas, trocando de roupa com elas. Mulheres heterossexuais também se sentiram invadidas e expostas, mulheres lésbicas se sentiram coagidas, e ridicularizadas com aquela situação.

Durante o evento eu e algumas feministas radicais discutimos o quão problemático era aquilo.

Eu queria ressaltar, que ao chegarmos no evento, eu e minha noiva estávamos arrumando nossas coisas, e uma moça da organização do EME veio até ela, supondo que ela era trans – o que eu achei absurdo, ela não é obrigada a performar feminilidade, ela é lésbica, ela NÃO é trans- e disse que havia um banheiro EXCLUSIVO para trans, e explicou pra ela como ela faria pra usa-lo. Haviam cerca de 10 pessoas trans no evento, inclusive um “homem-trans” que nasceu como mulher, foi socializado como mulher, e corria risco de ser estuprada tanto quanto as outras mulheres do evento, e essas pessoas usaram o banheiro exclusivo para elas, pessoas aparentemente transicionadas, enquanto Luisa/Helena/Luis o homem que estava com uma saia emprestada de uma das companheiras do evento, e que fez a barba somente ao chegar ao evento, insistia em usar o mesmo banheiro e alojamento que as outras mulheres do evento (por que será né?) enfim.

Ouve um sarau na noite de sabado 2/05/2015 aonde esse homem estava presente, e de repente quando vimos ele estava beijando uma mulher lá dentro, não foi um selinho, não foi um simples beijo, ele estava beijando ela loucamente, aquilo foi desesperador para A MAIORIA DAS MULHERES, mulheres que eu nem conhecia se revoltaram, mulheres que estavam no mesmo alojamento, que trocaram de roupa na frente desse homem, se sentiram invadidas, nós lésbicas, e feministas radicais tentamos intervir de forma pacífica, cantando alto, pra que todas soubessem que aquilo não iria passar em branco, e Luisa/Helena/Heloisa/Luis, RIU da nossa cara, quando isso aconteceu, rolou um conflito, e algumas moças vieram conversar conosco, não quiseram nos ouvir, disseram que ele sofria mais que todas nós, que ele era “lesbica” e que a gente devia parar com o preconteito e transfobia, mulheres lésbicas se desesperaram, choraram, gritaram com toda força que aquilo ali era lesbofobia, que dizer que existe falo-lésbico é cultura de estupro, é discurso que propaga a violência, que estavamos nos sentindo com medo, coagidas, não quiseram ouvir, não quiseram ouvir !!! Afinal, um homem que decidiu se identificar como mulher dentro do evento, sofria mais que todas nós.

Durante esse conflito dentro do Sarau, VARIAS, VARIAS, VARIAS mulheres vieram até nós, lésbicas,feministas radicais, feministas partidárias, feministas anarquistas, feministas que seguem correntes divergentes ao feminismo radical prestar apoio, dizer que tambem não concordavam com aquilo,, e quando vimos eramos cerca de 50 mulheres expondo o medo e o desconforto com esse homem. 50 mulheres mostraram sua indignação com aquilo, a maioria era lésbica, 50 MULHERES FORAM IGNORADAS E SILENCIADAS.

Uma moça foi ameaçada no banheiro, por outra mulher que estava defendendo Luisa/Helena/Heloisa/Luis. Uma mulher negra e lésbica foi chamada de desumana. Mandaram eu, e mais algumas compas lésbicas “irmos tomar no cú”.

Conseguimos nos organizar politicamente, fomos pra fora do sarau, e fizemos uma plenária, expomos o quanto estávamos coagidas ali dentro, expomos que nos sentimos invadidas e decidimos que faríamos uma intervenção no dia seguinte, domingo 03/05/2015. Chamamos a organização do evento, e uma das organizadoras nos disse que teríamos um espaço pra falar, que queria por escrito um texto, pautando o desconforto daquelas mulheres, para que ela pudesse levar pra mesa do EME, e que nós teríamos local de fala.

Nós ficamos a madrugada inteira discutindo, e tendo cuidado em como elaboraríamos esse texto, durante a madrugada algumas meninas foram dormir, eu, Andressa e Fernanda ficamos até as 7 da manhã concluindo os textos, fizemos um texto geral, que englobava todas as mulheres, e fizemos um texto falando sobre a lesbofobia e a cultura de estupro que tava rolando. Nós não dormimos, nós estávamos exaustas, mas não podíamos deixar que aquilo passasse em branco, que mais uma vez lésbicas fossem silenciadas e agredidas num espaço que deveria ser feminista.

De manhã, todas nós nos reunimos de novo, revisamos os textos de forma coletiva, procuramos a organização pra mostrar, conforme o combinado, e mais uma vez prometeram um local de fala para nós.

Depois de toda a organização ler os textos, decidiram que supostamente não teria mais plenária, os ônibus das companheiras envolvidas na nossa auto-organização, decidiram sair mais cedo. Fomos silenciadas, mais uma vez.

50 mulheres que tiveram coragem de expor seu medo, foram silenciadas, sendo a maioria lésbica, eu tenho certeza que haviam mais mulheres desconfortáveis e não tinham coragem de falar. Chegaram relatos até nós de mulheres que não estavam conosco, mas que pediram “pelo amor de deus” pra que não falássemos nada, porque não queriam ser vistas como preconceituosas.

O medo é a arma do patriarcado, UM homem, silenciou 50 mulheres, precisou de UM homem, pra que 50 mulheres, a maioria sendo lésbica se sentisse com medo, e tivesse a necessidade de nos organizarmos num evento para que ele fosse retirado de lá, 50 mulheres unidas, não conseguiram tirar UM HOMEM de um espaço FEMINISTA. UM homem, colocou a vida e a segurança de 1.000 mulheres em risco.

Se você não entendeu, eu explico melhor. Eu não te culpo — eu tive que ler o relato TRÊS VEZES pra conseguir finalmente digerir a figura geral do acontecido.

É o seguinte. Aconteceu em Curitiba no fim de semana passado o 6o Encontro de Mulheres Estudantes, daqui em diante referido como EME. Aqui há um texto bastante completo sobre o que rolou no evento — os Grupos de Discussão, as exibições de artes, o sarau, etc. Tive que googlear o que diabo é um sarau porque o tempo inteiro eu li o texto interpretando o verbete erroneamente como “CURAU” e fiquei me perguntando o que uma comida feita de carne salgada com farinha de mandioca teria a ver com feminismo.

Minha análise rápida de um evento com esse escopo — acho completamente democrático e válido um grupo (qualquer grupo) se reunir pacificamente para debater assuntos que julguem relevantes para suas causas ideológicas. Entretanto, ao ver o tipo de pauta que essa galera debate, não é a toa que cultivem um sentimento revanchista contra seus aparentes opressores:

Que tipo de mentalidade se imbui num grupo quando o evento de suposta empoderação serve pra martelar, ad nauseum, o dogma de que são oprimidas e inferiores em TODAS AS ESFERAS DE EXISTÊNCIA?

Não é a toa que essa gente vê opressão em TUDO — seu movimento existe numa câmara de eco onde a única narrativa é “somos vítimas. De tudo. De todos. Sempre”. Como você pode sair de lá SEM trajar, digamos, uma camiseta que diz “ODEIE TODOS OS HOMENS”?

O movimento condiciona os membros a dar uma das duas (às vezes ambas) justificativas pra esse tipo de incitação de ódio: 1) “É só ironia”, e/ou 2) “Mas mulheres são mais oprimidas, pare de reclamar!”

Você acha que se uma garota se levanta num desses grupos de “discussão” (o termo está sendo usado aqui de forma flexível) e diz “olha eu ouvi uma música no rádio outro dia e se você reorganizar as letras da canção, dá pra montar a frase ‘abaixo as mulheres’, precisamos lutar contra a misoginia na indústria musical!”, alguém dirá “pera companheira, talvez você esteja vendo pelo em ovo?”

Porra nenhuma. Nenhuma acusação é fantasiosa demais se o alvo é o bicho papão do Patriarcado. O movimento se alimenta da indignação perante qualquer coisa que se interprete como machismo; se um exagero interpretativo aqui ou ali “conscientiza” sobre o “problema maior” da sistemática opressão das mulheres, e daí se ocorre uma forçada de barra aqui ou ali…? Meios para um fim.

Afinal de contas, um grupo pregando ideologia superior mesclada com retórica de ódio histérico NUNCA causou problemas na história da humanidade.

Voltando ao assunto. Curiosamente, o artigo falando sobre o evento faz aparentemente uma breve menção ao incidente reportado pela Lua — embora tenha tomado uma postura contrária a da autora do post do Facebook:

PORRA IZZY PARA DE ENROLAR O QUE ACONTECEU NESSE EVENTO?!?!?!?!

Foi o seguinte. Um sujeito que nasceu com cromossomos Y compareceu ao tal EME. Não é como eu gostaria de passar meu fim de semana, mas não estou aqui para julgar os hobbies de ninguém.

Algumas das ativistas se incomodaram com a invasão masculina no ambiente, mas ele tinha uma boa justificativa — ele é na verdade ELA. Nascido Luis, hoje ele se apresenta como “Luisa”, ou “Helena”, ou “Heloisa”. A autora do post diz que o rapaz oscilava entre as alcunhas, mas aparentemente já se decidiu “Luisa” mesmo.

helena

É estranho que alguém que participe dum movimento que celebre a pluraridades de expressões de gênero, que declare que tal coisa “é simplesmente construção social, sexo é fluido!” se reduza instantaneamente a um discurso Bolsonarístico de “ELE DECIDIU QUE É MULHER, ASSIM DO NADA, E A GENTE TEM QUE ACEITAR ESSA PALHAÇADA!” quando o beneficiado pelo argumento não é conveniente.

A autora do textão continua insistindo que “mas ele é homem, barbado, se veste como homem, não usa batom, gosta de mulheres, É HOMEM!!!” — ou seja, validando papéis de gênero e orientação sexual que seu movimento alega ter como alvo derrubar.

Ontem a indústria cosmética e de moda impunham valores de beleza impossíveis de obter. Hoje? Batom é pre-requisito para ser mulher.

Deixar o suvaco peludo é se manifestar contra a ditadura da beleza feminina, é abraçar a forma feminina em todo o seu esplendor… mas pelo no ROSTO?!?!?!?!?!? PERAÊ PORRA ISSO É COISA DE HOMEM.

Atenção mulheres com buço, que gostam de mulheres, que se vestem “como homens” e que não usam batom: vocês são homens. Assinado: Lua Sophie, feminista.

Manja essa reclamação de “ele tava vestido como homem e pegou uma saia emprestada de alguém no evento!”? Além de reforçar a idéia nada feminista de que “tem roupa pra mulher e roupa pra homem, ora mais!”, esse argumento revela que não passou pela cabeça da Lua que o rapaz é DE FATO uma trans, que pela primeira vez se viu acolhido num meio que a entende e aceita. A possibilidade de que Luísa se viu finalmente na liberdade de se vestir da forma que quer não foi considerada nem por um segundo.

Em vez disso, Lua e as companheiras de luta que  deram like em seu relato imediatamente decidiram que isso é “cara de pau” do rapaz, é uma escolha dele. É o tipo de coisa que, digamos, o Feliciano ou Malafaia diriam espumando pela boca.

A cereja no topo deste bolo de ironia vem na forma de um “muitas mulheres com que eu tive contato lá dentro, expuseram seu desconforto, mas tinham MEDO de falarem qualquer coisa e parecerem preconceituosas“, que nada mais é que uma forma velada de criticar o “ambiente politicamente correto de hoje em dia” que impede alguém de manifestar uma crítica.

Reclamar que “olha que absurdo, não podemos nem falar mais nada e vão nos acusar de homo/trans/mulherfobia” chega a ser inacreditável vindo de uma feminista. Literalmente inacreditável.

Foi nessa parte do texto que eu achei estar lendo uma obra de sátira como o Zambininha, um blog que ironiza esse tipo de militância. Parei de ler nessa parte e desci pros comentários pra ver se alguém revelava a pegadinha.

Nope. Era autêntico. Uma feminista reclamou que o “politicamente correto” está a obrigando a aceitar a orientação de gênero alheia sem reclamar.

A ouroboros começou a comer o próprio rabo. Ativistas do politicamente correto estão oficialmente reclamando que não podem mais reclamar das coisas porque serão tachadas de preconceituosas.

Como se a coisa não pudesse ficar ainda MAIS maluca, a suposta garota trans (eu REALMENTE não sei se a menina é autenticamente trans, ou um troll de nível nunca antes visto pela internet brasileira; seu Facebook parece indicar a primeira opção) tomou banho com as outras participantes do evento nos chuveiros comunitários e PEGOU MULHER DENTRO DO EVENTO.

Vou repetir.

Um rapaz, que aparentemente se apresenta socialmente como homem, mas alegando ser uma mulher trans, e lésbica, tomou banho num chuveiro coletivo cheio de mulheres. E algumas viram problemas com isso, mas não puderam falar nada porque se afiliam a um movimento que tem como cartilha a aceitação de qualquer orientação sexual/de gênero — sobrando a elas apenas se lamentar com “esse politicamente correto de hoje em dia”.

E achando não ter feito o bastante, x meninx em questão PEGOU UMA DAS PARTICIPANTES DO EVENTO.

Ah, e esqueci de um detalhe: como raça é também apenas um “construto social”, diz o movimento, o rapaz (claramente caucasiano) se declarou negra. Ou seja, Luisa é mulher, trans, negra, lésbica — no self service da opressão ela encheu o prato.

Só posso cogitar que elx parou antes de se identificar também como judia, índia pataxó e cadeirante porque ficaria meio exagerado.

Aparentemente o cara descobriu o KONAMI CODE pra desmontar esse tipo de ativismo — identifique-se como mulher trans negra lésbica. Pronto. O dogma dessa turma considera qualquer crítica a grupos oprimidos como anátema, e mulher trans negra lésbica acerta todos os pontos no Super Trunfo da Opressão. Um verdadeiro Exódia do Vitimismo; carte blanche pra fazer qualquer coisa. Tudo que você fale está automaticamente certo, e qualquer um que se oponha a você está automaticamente errado.

Graças a essa mentalidade, um cara foi num evento feminista, tomou banho em chuveiro comunitário com as meninas, e ainda pegou uma das participante.

E pior, o movimento tá dividido por causa dele. A indagação da militância é “validamos a identidade da pessoa, assim mantendo nosso discurso coerente, ou expomos um farsante usando nossa própria cartilha pra minar nossa luta?” Vi inúmeros textões defendendo ambos os pontos. Tal qual Gavrilo Princip dando o tiro que iniciou a Primeira Guerra, Luisa pode ter deflagrado um disparo que vai repercutir e forma irreversível no movimento.

Em outras palavras: tenho a impressão que ele não será o último a usar esse cheat code pra tomar banho com um monte de mulher.

Sabe, eu posso estar 100% errado sobre o feminismo. Sou mesmo um homem branco, privilegiado, cisgênero, hétero, e é capaz de que TODAS as reivindicações das feministas estejam moralmente corretas e que eu critico e discuto porque sou um pouquinho reacionário mesmo, por culpa dos meus privilégios.

MESMO CONSIDERANDO ESSA POSSIBILIDADE, a Irônica Epopéia de Luisa me faz rir pra caralho. É inacreditavelmente surreal ver alguém usar um Game Shark social dessa forma. Foi um golpe de judô ideológico nunca antes visto na minha VIDA.

A propósito: supostamente o cara teria dado num post do FB argumentos relativizando a exploração sexual de menores no funk, a la MC Melody, que não é o tipo de coisa que se faça ou se defenda. Não vão inventar de glorificar o cara, ein?

Há algum tempo eu venho dizendo que a máxima “Todo Dia Tem Uma Merda” (o título do meu livro e um ditado popular que prega que ninguém escapa um dia inteiro sem alguma pedra no meio do caminho) precisa ser adaptada para a era do ativismo online. Com tanta gente “conscientizada” hoje em dia, estamos presenciando o fenômeno da proliferação dos chamados “textões de Facebook” — isso é, mini teses de conclusão de curso que almejam educar o cego e ignorante populacho sobre alguma grande injustiça ocorrendo diante de seus olhos.

E assim como Todo Dia Tem Uma Merda, está provando-se igualmente inevitável que Todo Dia Tem Um Textão.

Nesta nova coluna, proponho debater o textão du jour que circula nos nossos Facebooks.

turbant

Eu teria levado o argumento um POUCO mais a sério se a ilustração não tivesse sido feita no Paint.

O textão a seguir veio até nós por cortesia da página Mulher Negra – Voz, um grupo relativo pequeno com apenas 225 membros. Neste caso em particular, a baixa taxa de adesão do grupo não pode ser usado para argumentar que o textão vem de um núcleo marginalizado dentro do ativismo online: já vi argumentos semelhantes, senão idênticos, sendo usados pelos segmentos mais mainstream da luta virtual.

Segue o textão:

Precisamos falar sobre algo urgente – Apropriação Cultural 2!

Turbante não é moda!

O uso do turbante é bem mais que simples pano enrolado na cabeça, é resistência, é luta e consciência da nossa ancestralidade e identidade negra.

No período da escravidão o turbante era usado para diferenciar os grupos africanos, de onde vieram, não só pelo o enrolar do turbante, mas toda a vestimenta. Entre as nagôs, o ojá era amarrado com várias voltas ao redor da cabeça, usavam também para amarrar bebês na cintura, nas costas cabelos e no busto para roupa de algum orixá.

Os negros dobravam o tecido em formato triangular, com a ponta para trás, esmerava os mais belos bordados e muitas anáguas. Além disso, tinha como objetivo de proteger a filha de santo que terminava sua iniciação que normalmente estava com a cabeça raspada.

Se a Europa tem sua cota de participação no figurino dos descendentes de africanos no Brasil, também é grande a herança árabe-islâmica. “O turbante é reconhecidamente de influência mulçumana, que chegou ao Brasil provavelmente através dos escravos islamizados, durante o Ciclo da Baía do Benin no século XIX, e também pelos portugueses”, afirmam as pesquisadoras Juliana Monteiro e Luzia Gomes Ferreira.

Após esse período o uso do turbante continuou ativo, os negros usam na contemporaneidade não só como símbolo ou memoria, mas como resistência, identidade e religião (Candomblé).

Atualmente podemos notar que o turbante está bem popularizado entre nós irmãos e irmãs de cor e isso é algo que devemos comemorar e muito, pois é sinal de que cada vez mais nós estamos afirmando nossas raízes e nos colocando pra sociedade quanto negros e negras que sabem de sua história e que exigem respeito!

Que respeitem nossa cor, nossos valores, nossa cultura!

Herdamos o não calar de nossos e nossas ancestrais que nunca ficaram caladxs diante da opressão que sofreram. É motivo de felicidade nos vermos por aí, por todos os cantos com nossos turbantes pois nosso corpo todo fala, inclusive nossa cabeça, o turbante é mais uma maneira de gritar contra o racismo sistemático, estrutural e institucional que sofremos. Nosso turbante é sinal de empoderamento, de termos ciência de que não podemos em nenhum momento baixar a cabeça pra essa sociedade capitalista que nos oprime de tantas e tantas maneiras.

Até então falamos de nós usarmos nosso turbantes o que como já disse é algo de encher o coração e a alma de esperança, sinal de que a luta de nossos ancestrais não foi em vão, pois nós continuamos na resistência!

Mas é preciso lembrar que uso do turbante não é algo estético pra gente, é luta!

É extremamente ofensivo a nossa história se você, brancx usa turbante. É interessante que vocês se reconheçam quanto seres privilegiados, vocês não sofrem com o preconceito e o racismo.

É apropriação cultural quando a mídia, esta mídia Brasileira que é controlada por apenas 6 grandes famílias elitistas que disseminam racismo em todos os horários de todos os programas de sua programação e coloca diversas atrizes brancas para posarem usando turbante como se fosse algo que está na moda, precisamos democratizar essa mídia!

É apropriação cultural quando você companheira ou companheiro que é branco usa turbante e não sabe a história que ele carrega, o que ele representa pra nós e ainda por cima segue reproduzindo racismo por aí… usando uma de nossas armas contra o mesmo!

É apropriação cultural quando você brancx usa turbante, pois tudo historicamente nessa sociedade se torna mais aceito, mais bonito, tudo se torna bom…Quando é embranquecido!

E se tem uma coisa que nós não deixaremos fazer, é que embranqueçam nossa história, embranqueçam nossa coroa de reis e rainhas sem súditos. De reis e rainhas que lutam pela liberdade no seu sentido transcendente.

Quando falamos que o turbante é uma arma de combate ao racismo entendamos que aqui no Brasil é impossível falarmos de racismo sem falarmos da questão de classes e vice e versa, logo tudo que trazemos é com o recorte de classe pois para nós negrxs pobres é mais difícil ainda lutarmos e exigirmos nossos direitos, e incomodamos muito quando estamos assim: EMPODERADXS.

Queríamos incomodar apenas aos nossos inimigos, mas infelizmente incomodamos também até mesmo os companheiros de militância que não entendem nossas armas de combate, que acabam reproduzindo falas e atitudes racistas…que acabam negligenciando o debate daquela coisa que vai nos matando, nos anulando, nos inferiorizado diariamente de diversas maneiras, essa coisa é a apropriação cultural!

Então dizemos a todas e todos em um papo bem direto e afim de despertar a elevação de consciência que o debate de apropriação cultural é tão urgente quanto o debate de classes (inclusive, os debates devem se entrelaçar e não serem segregados), quanto o debate de genocídio de nossa juventude… precisamos explanar e denunciar toda e qualquer forma de racismo.

Por fim companheiras e companheiros, a apropriação cultural começa quando sua desconstrução do racismo é feita apenas em falas nos espaços, plenárias e etc, entendamos que a apropriação cultural é uma das maneiras do racismo matar nossa identidade ‘’silenciosamente’’, logo PRECISAMOS falar e combater a apropriação cultural!

Por: Amanda Maia S, Jaqueline Santos, Lu Mota e Rebeca Azevedo, mulheres negras na luta pela emancipação humana e transformação da sociedade!

Vamos lá.

Antes de mais nada, eu preciso deixar claro que sou fundamentalmente contra a idéia de “apropriação cultural” conforme definida por alguns ativistas. A lógica é que usar um adereço étnico sem pertencer àquela etnia, ou sem compreender, reconhecer e apoiar suas lutas, significa um indiscutível desrespeito para com a herança histórica de um grupo ofendido e tal.

Os ativistas geralmente não elaboram o que exatamente seria o “compreender, reconhecer e apoiar suas lutas” que te daria passe livre a usar o turbante, no caso. Uma carteirinha emitida por alguma autoridade ativista, com os devidos carimbos em dia…? Talvez por essa impossibilidade de fiscalização é que alguns simplificam e dizem que por mais empatia que você tenha com a causa de uma etnia, se a sua foto do perfil do Facebook não bater com o que eles esperam ver, você não pode usar o turbante e acabou. Simplifica mais as coisas, e eu certamente consigo ver elegância numa metodologia simples.

O principal problema desse conceito de “apropriação cultural” é que ele almeja objetivos indistinguíveis daqueles defendidos pelo apartheid sulafricano, pela sociedade branca do Alabama nos anos 50, pelo Ku Klux Klan, ou por movimentos de nacionalismo branco. Primeiro, ele reforça a idéia de que há “coisas de brancos” e “coisas de negros” (duas construções sociais que vão a 100km/h na direção contrária à união racial).

Como se isso não fosse o bastante, esse ativismo prega que as tais “coisas de brancos” e “coisas de negros” não se devem se misturar. Parafraseando Jesus, “dai aos negros o que é dos negros e dai aos brancos o que é dos brancos” é basicamente o que está sendo defendido nesse textão.

Eu entendo que a intenção por trás desse discurso é certamente positiva. Eu estaria sendo absurdamente leviano, e maldoso, se estivesse de fato comparando as pessoas bem-intencionadas do Mulher Negra – Voz com membros do KKK. Esse tipo de demonização do “outro lado” é um recurso retórico infelizmente muito comum, e você não verá isso aqui.

Acontece que eu sou, acima de tudo, um pragmático. Suas intenções não são mais importantes que os seus resultados; e quando os resultados que você almeja se alinham com os de racistas declarados, talvez seja questão de perguntar a si mesmo: é isso mesmo que queremos alcançar? Algo que faria um neonazista dizer “É isso aí! Vamos parar com esse negócio de arianos usando itens étnicos africanos!

Eu não estou dizendo que sua luta é inválida. Eu não estou dizendo que eu, um homem branco cis hétero, entendo mais da sua própria cultura do que você, ou que estou em posição de te dizer o que deve ou não deve te ofender. Eu certamente não estou dizendo que “hahah foda-se vou usar turbante só pra provocar então“. O que eu estou dizendo é que o que você defende como ideias de respeito racial serve mais pra nos separar, do que pra nos unir.

Há um motivo pelo qual grandes personalidades dos movimentos de direitos negros (Matin Luther King Jr, Malcolm X, Rosa Parks, entre outros) não estavam se preocupando em definir o que é apropriado para brancos e o que é apropriado para negros; muito pelo contrário.

rosa parks

Ela rejeitou TANTO a idéia de “coisa pra brancos” e “coisa pra negros” que estava disposta a ser presa por isso

Karl Marx famosamente disse que “o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções“. Isso significa que a melhor das intenções, por si só, não abona completamente um gesto ou uma ideologia — os resultados que ela causa são igualmente ou mais importante que as intenções. E o que estou questionando aqui não é a sua intenção, ativista negro contra a apropriação cultural, mas sim seus possíveis resultados.

Vou dar um exemplo prático. Eis um tópico do infame fórum racista Stormfront que debate se brancos deveriam ou não usar dreadlocks. Existem, como você pode imaginar, ativistas que se posicionam contra brancos usando dreadlocks. As intenções de ativistas são inequivocadamente mais benéficas, mas quando o resultado bate perfeitamente com o que turma do Stormfront também quer…

Se você conseguiu chegar até aqui controlando a vontade de pular pros comentários e dizer “mas você é branco e por isso não pode opinar”, eis a opinião de um negro sobre o assunto.

(Spoiler: eu e ele temos exatamente a mesma opinião)

É possível que você se sinta tentado(a) a dizer “mas você é homem branco hétero cis, é CLARO que vai chiar contra a tentativa de empoderamento de uma mulher negra oprimida”. Eu entendo o que você quer dizer, mas eu preciso te explicar que não é só porque eu nasci com um cromossomo Y que meu sangue está saturado de reacionalina. Pra que você entenda um pouco sobre mim (e não me ataque imediatamente por causa da minha cor, orientação sexual ou identidade de gênero), talvez seja necessário te dar um pouco de backstory.

Eu nasci em um lar cristão. Desde os meus 5 ou 6 anos de idade, eu frequentei escolas cristãs com foco declarado em ensino religioso. Uma dessas escolas se chamava literalmente COLÉGIO EVANGÉLICO, em Fortaleza. Aqui estou eu, com 6 anos, usando o uniforme do tal colégio:

Photo 2015-02-16, 11 13 09 AM

A foto é meio borrada como quase todas as fotos daquela época (autofoco dos smartphones me deixaram muito mal acostumado…), mas repare a imagem na minha camiseta. Um bonequinho sendo tocado pelo “fogo do Espírito Santo” (um simbolismo clássico na cultura evangélica), diante de uma bíblia.

Essa era a minha realidade. Lia a bíblia em casa, na escola, na igreja (que eu, na adolescência, frequentava 3 vezes por semana). Orava constantemente, participava de eventos cristãos como retiros espirituais e confraternizações da igreja. Me rodeava apenas com pessoas que acreditavam no mesmo que eu. Toda a minha família acreditava no mesmo que eu.

Só que eu comecei um dia a não aceitar tudo aquilo. Os argumentos que eu ouvia não me convenciam, eu não me sentia mais tão à vontade naquele sistema de crença. Mesmo sabendo que a sentença para o questionamento da fé era literalmente a pior punição imaginável — uma eternidade no inferno do lado de Hitler e dessa galera que ouve funk no ônibus sem fone de ouvido — eu fui completamente incapaz de aceitar aquilo que me diziam pra aceitar porque “é o lado certo e pronto“.

Agora que você sabe um pouco melhor sobre quem eu sou, o que eu peço é que não desconsidere imediatemente o meu argumento com um “ahhhh, claro que ele não quer nos ouvir, ele é um homem branco cis hétero, ele jamais abriria mão de seus privilégios, ele é um reaça“. Essa é uma análise de MUITA má vontade para com alguém que você mal conhece.

Eu questiono porque é da minha natureza questionar, mesmo quando a punição para isso é severíssima; mesmo quando literalmente todo o pequeno universo ao meu redor (família, amigos, escola, igreja, líderes religiosos, namorada) estão me dizendo com plena convicção que X é o caminho correto e que eu sou uma pessoa má por discutir isso.

Nem AQUILO, uma pressão inimaginavelmente maior pra aceitar um ponto de vista/ideologia/sistema de crença, foi capaz de me manter calado e conivente e aceitar algo no qual eu não acreditava.

Não é então um um grupo de Facebook com 225 membros que vai conseguir.

Ah, e quase esqueço: o turbante sequer veio da África então todo o ponto do textão meio que vai por água abaixo.

E que fique claro: adoção de características raciais pra fins de paródia ou zuera (blackface e similares) são inegavelmente negativos, mesmo considerando que blackface não teve o mesmo histórico no Brasil que, digamos, nos EUA. Usar um turbante por gostar do visual, por outro lado, não é a mesma coisa que um branco pintar o rosto de tinta preta, colocar batom exagerado pra realçar os lábios, pra poder fazer o papel de negro em tom vexatório num palco em que um real negro não tinha o direito de subir.

E finalmente: se você, ativista negro(a), se incomoda com apropriação cultural E quer me oferecer seus um argumento melhor, sinta-se a vontade pra usar os comentários abaixo. Eu garanto a você que no espaço abaixo você não vai ser escrotizado.

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