“Todo dia tem uma merda”: uma filosofia de vida

Não sei se vocês sabem, mas eu cursei dois anos de faculdade. Bacharelado em Física, veja que merda. Eu tenho vários físicos na minha família, e sempre fui daquele tipo de nerd que adorava ciências. Sendo Física a disciplina com maiores chances de me capacitar para construir uma máquina do tempo e/ou um raio encolhedor — e você aí achando que filmes não influenciam as criancinhas –, decidi quando pequeno que essa era a ciência a qual eu me dedicaria.

No primeiro semestre, tínhamos uma professora de Metodologia Científica. A coitada, que ensinava o que era praticamente filosofia pra uma cambada de nerds de ciências exatas, tinha um trabalho meio ingrato. Lembro de pouquíssimo que ela me ensinou, com exceção de algo que ela alegava com um estranho orgulho:

“Não existe verdade absoluta”, dizia a mulher dogmaticamente — o que é uma ironia do caralho se você parar pra pensar.

“Existe uma chance de que tudo que achamos que sabemos sobre o mundo esteja errado”, continuava a mestra. “Nisto reside o princípio da falseabilidade, de que o conhecimento científico pode ser desafiado. Portanto, nada é escrito em pedra, e nada é uma certeza absoluta” concluia a mulher, que agora que paro pra pensar acho que se chamava Patrícia. Ou Renata. Era um desses dois, tenho quase certeza absol…

Na época, como eu era um mísero calouro deslumbrado com os novos horizontes intelectuais que o recém-ingresso acadêmico significava, anotava as palavras da professora Fernanda (talvez fosse Fernanda) com vontade. “Não existe verdade absoluta! Que genial!”, eu pensava.

Quer dizer, o resto do que ela ensinava era punhetinha mental mamão-com-açúcar pra relaxar a galera entre uma aula de Cálculo Diferencial e outra de Cálculo Vetorial, mas esse negócio do “não existe verdade absoluta” eu achei foda. Como um adolescente que começava a rejeitar a doutrinação religiosa em casa, essa máxima coube como uma luva.

Entretanto, as circunstâncias e as vissicitudes da vida roubaram não apenas a minha alegria de viver e meu espírito, mas também aquela pequena pepita de sabedoria. Pois, em verdade em verdade vos digo (quem falava assim era Jesus, sabia?) que existe sim uma verdade universal.

Ei-la aqui, condensada à sua expressão mais concisa por ninguém menos que o poeta e um profeta moderno Alborghetti:

TODO DIA TEM UMA MERDA. Todo dia, inequivocadamente, inexoravelmente, sem ressalva e sem corolário, tem uma merda. Sugiro a adoção da singela sigla TDTUM para que identifiquemos-nos como fiéis deste dogma sagrado.

Pare e olhe para sua própria vida. Em algum momento existiu um dia em que não houve a profetizada merda? Pense com atenção, olhando para o teto com os olhos levementes cerrados e apalpando a barba que você sem dúvida não tem pois não é macho o suficiente.

Houve algum dia em que não rolou um stress no trabalho? Ou que sua namorada ou parceira romântica/sexual equivalente não deu um chilique desmerecido? Ou que você não “acidentalmente” atravessou um sinal vermelho — essa aí aconteceu comigo ontem e “acidentalmente” é minha versão oficial –?

A melhor metáfora para descrever nossa existência é a seguinte — imagine que você é um amendoin. Um amendoin que alguém colocou num liquidificador, para fazer um milkshake. Sim, milkshake com amendoin. O milkshake é meu e eu boto o que eu quiser, porra. Não enche senão eu me atrapalho na comparação.

Então, liquidificador, amendoin, milkshake. Só que aí aparece um patife da pior espécie e joga um pedaço de cocô dentro do liquidificador. As chances de que a merda não bata em você, o amendoin, tendem a zero. Neste cenário, ser atingido pela merda (ipso fato, “todo dia tem uma merda”) é em essência uma prática inevitabilidade.

Trocando em miúdos pra que você entenda logo essa porra e possa fechar o site e continuar não trabalhando aí: a vida já é uma complicação maldita dos demônios, com “lâminas” rodopiando vertiginosamente e você escapando delas por um triz, ciente de que é apenas uma questão de tempo até que uma te acerte e adeus.

Nesse giro maluco, com tantos outros “amendoins” esbarrando em você e atrapalhando seu percurso — entra aqui outra filosofia que abordaremos outro dia: ESTOU CERCADO DE FILHOS DA PUTA –, do NADA aparece uma merda gigante e te acerta no meio da cara com intensidade de um caminhão da Petrobrás acertando uma criança num patinete a 180 quilômetros por hora.

Essa é a minha filosofia. Todo dia, sem falta, tem uma merda. Todo dia, independente do que você faça ou deixe de fazer, tem uma merda. Essa máxima pode parecer meio juvenil por causa do palavreado de baixo calão, mas é na realidade o ensinamento mais zen que você aprenderá hoje.

Todo dia tem uma merda. Portanto, relaxe. Aceite a bosta espatifando-se contra a sua cara; afinal, não há como lutar contra uma verdade absoluta como esta.

A professora Roberta tava errada mesmo.

De agora em diante, quando você quiser expressar nas redes sociais uma insatisfação com uma pequena desgraça contemporânea que aconteceu com você, use a hashtag #TDTUM. Assim poderemos identificar facilmente os membros da nossa fé e oferecer apoio e carinho fraternal (ou seja, rir da cara deles).

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comments

52 comments

  1. Concordo, cara. A minha de hj foi a minha carona pro trabalho me esquecer e eu chegar aqui com uma hora de atraso…

  2. Eu tenho uma merda constante que é minha hérnia de disco.
    Sugiro que você diga a seus seguidores no Twitter que a cada vez que acontecer uma merda eles twitarem o #TDTUM, se possível, descrevendo a do dia.

    Só pra ser chato: é amendoiM e Petrobras, sem acento mesmo (tem até briga com sindicato por causa disso).

    1. Vai ver ela tava a 180km/h na direção do caminhão =D

      Ou, era o caminhão que estava a 180km/h.

      Prefiro a primeira alternativa, faz menos sentido.

      1. A frase, da forma que foi escrita, acarreta dupla interpretação, o que seria facilmente corrigido se alterássemos a colocação (e somente isto) de parte da frase, puxando-a para perto do sujeito, desta forma:

        “um caminhão da Petrobrás a 180 quilômetros por hora acertando uma criança num patinete”.

        Simples assim, Kid.
        (Vc escreve melhor em inglês do que em português).

  3. Tive uns dias bons sim viu, acho que tudo é como você leva a vida, a analogia das lâminas é um tanto quanto dramática.

  4. Izzy, fugindo um pouco do assunto do tópico, você viu no ultimo episodio de House M.D o dr. Chase fazendo penspinning, por sua causa agora fico reparando nessas merdas…
    Abraços!

  5. Meu liquidificador tem merda até a tampa e um monte de amendoim estragado daqueles que tem um fungo capaz de matar por intoxicação alimentar.Minha vida não tem a merda,a merda tem minha vida.

  6. Porra, também acho que todo dia acontece uma merda com a gente, mas isso tá sendo muito recorrente pra mim ultimamente, só pra citar 3: namorada de 2 anos de namoro termina tudo, não passei na OAB e celular cai no chão e pára de funcionar!
    Acho que preciso me benzer… rs

  7. Hahaha, pqp Kid, expandiu todos os meus horizontes agora.

    Tentando debater comigo mesmo enquanto lia, pensando tipo “Mas aquele dia não teve merd… ah, espera teve X” “Tá, mas terça não… ah merda, teve y”.

    Texto maravilhosamente bem escrito e verdadeiro.

  8. ESTOU CERCADO DE FILHOS DA PUTA

    Kid, pelo amor de deus! Faça um Post disso!

    Todos querem te ver pra baixo.
    Se você está estudando, vem um filho da puta e fala “mas você não trabalha?”

    Se você está focado em um objetivo, vem um filho da puta desmerecer.

    Se você está solteiro curtindo a vida, vem aquele tio divorciado que namora uma mãe solteira todo fudido de pensão e pobre, com mil contas pra pagar e coisas pra se preocupar e fala “e aí, não vai arrumar uma namorada não?”

    você passa em um concurso e falam “estudando o dia inteiro sem fazer nada ATÉ EU”

    você entra num trampo foda e falam “porra, ja tava na hora ein”

    a sabotagem social consiste em desmerecer teus ganhos (por mais que o desmerecedor seja um merda) para que você fique sempre pra baixo e não consiga alavancar teu status perante os outros. só tem filho da puta!

  9. kid, cadê a opção de comentar pelo FB? coloca de novo ai.

    a propósito, concordo com tudo. inclusive a merda do meu dia já ocorreu.

  10. Verdade absoluta mesmo.

    Todo dia tem uma merda, seja grande ou marota.

    O texto ficou muito bom Kid, mas queria mais exemplos e/ou divagações sobre as merdas que acontecem com você diariamente. Just for fun.

  11. Concordo parcialmente, posso afirmar que já tive RARÍSSIMOS dias os quais nenhuma merda aconteceu. Mas na maioria dos dias, alguma merda acontece. As vezes coisas impactantes e n’outras, coisas insignificantes que mal podem ser consideradas merdas. Mas é uma analogia bem interessante essa das lâminas.

  12. Ontem eu falei contigo no Twitter sobre os textos mais engraçados de antigamente e os mais sérios recentes. Esse é um exemplo dos recentes não tão engraçados quanto os antigos que ficam muito bons, porque tu tá escrevendo bem pra caralho. Continua assim.

  13. “Só que aí aparece um patife da pior espécie e joga um pedaço de cocô dentro do liquidificador.”

    caralho, MUITO tempo que não rio tão forte de uma frase sua como essa, caro quide.

  14. Colocando em pauta minhas nerdisses filosóficas sem medo de ser julgado o próprio fato de colocar como verdade absoluta que não existe verdade absoluta já não desmerece a existência dessa verdade?

  15. Acredito que a professora estava certa, ao dizer que “Não existe verdade absoluta”. E se um mesmo dia tiver DUAS merdas?

    “Todo dia tem uma merda” já não seria uma verdade tão absoluta assim (ao menos em parte)

  16. Só eu vi a comparação falar em amendoim e pensei imadiatamente em peanuts e charlie brown?

    Talvez esse ensinamento sagrado estivesse à nossa frente por anos e apenas deixamos de percebê-lo.

  17. Afirmar que não existe verdade absoluta é um erro muito trivial de lógica. Ela é falsa em si mesma, não segue o próprio critério.

    Não existe uma verdade absoluta. (nem mesmo essa?)

    Mas isso você bem notou.
    Até agora não aconteceu nenhuma merda por aqui, mas é raro.

  18. Caralho, e não é que depois que eu comecei a pensar nisso meus dias deram uma ligeira melhorada?
    Aparentemente esse tal acknowledgement da lei universal te deixa de fato menos puto com as merdas. Quem ainda não aderiu: tente ao menos uma vez ao dia lembrar da metáfora GENIAL do liquidificador e do Alborghetti pronunciando a máxima, e observe o resultado.
    TDTUM

  19. Uma amiga minha me enviou esse texto dizendo que ele lembrava das histórias do meu dia-a-dia que conto lá no meu blog. Lembra mesmo.
    A única verdade realmente absoluta é a tal do Murphy: se algo pode dar errado vai dar errado. Basicamente isso. haha
    Então que se dane tudo. É a vida. Estamos todos ferrados mesmo, mas vamos nos ferrar da melhor forma possível. 😉

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