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Costuma-se dizer que nós latinos fazemos tudo intensamente. Aliás, brasileiros são latinos ou não? Já vi argumentos acirrados defendendo os dois lados da discussão. Uns dizem que não porque (motivos pelos quais não me importo), já outros insistem categoricamente que sim porque (não faço a menor idéia, eu joguei a pergunta no Twitter e fui jogar Mortal Kombat 2).

Enfim. Essa intensividade latina se manifesta de várias maneiras; no que diz respeito a brasileiros e sua identidade nacional, é 8 ou 80 — temos os brasileiros ultra-ufanistas que vociferam que americanos são imperialistas invasores culturais (obrigado, décadas de história e geografia sendo ensinadas por esquerdistas!), e temos os brasileiros que se auto-odeiam e veneram qualquer coisa de fora (obrigado, Plano Real e o êxodo turístico da classe média em direção à Flórida nos anos 90). Vai me falar que você não teve um parente que passou duas semanas em Orlando naquele itinerário clichê de outlet-parque de diversão e voltou torcendo o nariz pra TUDO no nosso país? Então.

Se você interage bastante com a galera nesse segundo grupo, você certamente terá a impressão de que o Brasil é o país mais fodido DO MUNDO. Entretanto, existem inúmeros países que fazem o Brasil parecer a Suécia do Hemisfério Sul. Por exemplo…

Eritrea

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Começo logo com o país mais enigmático da lista. Eu seria capaz de apostar que você nunca ouviu falar da Eritrea na vida, e é assim mesmo que eles querem — não existe nenhuma rede de mídia privada lá, é tudo controlado pelo governo. A Eritrea chega a ser pior que a Coréia do Norte no contexto de liberdade jornalística; não existe literalmente nenhum correspondente de nenhuma emissora lá. Uma total catástrofe social pode estar acontecendo lá neste exato momento, e jamais saberíamos.

Pra você ter uma noção da miséria que é o país, 32% do produto interno bruto é composto de dinheiro que imigrantes mandam de volta pra alimentar suas famílias lá.

Somália

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Sabe aquele seu amigo da universidade metido a intelectual de YouTube que juuuuuuuuuuuuura que todos estaríamos em situação melhor se não existisse governo algum? Não que o maluco esteja inteiramente errado em pôr grande parte da culpa dos problemas sociais no Estado, mas a fé de que uma anarquia completa resolveria a situação é mais fantasiosa que o credo socialista.

Então, você poderia convidar este seu amigo a se mudar pra Somália! Virtualmente sem governo desde 1991, o país africano vive em quase completa anarquia — não existe nenhuma regulação de comércio ou indústrias, por exemplo. Não existe nenhum tipo de licenciamento ou fiscalização para indivíduos que exercem profissões formais, também. Se você precisar de uma cirurgia ou de uma viagem de avião na Somália, tudo que eu posso te dizer é “boa sorte”.

A propósito, a expectativa de vida na Somália é 50 anos. E apenas 24% da população adulta é alfabetizada.

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A meritocracia plena em ação

E as armas que os anarcocapitalistas amam? Tem bastante lá na Somália, também. Aliás, com todos esses fatores, é de surpreender que o maior produto de exportação da Somália é a pirataria?

Etiópia

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A gente sabe por senso comum que a vida na África não é fácil. Mesmo o brasileiro mais reclamão poderá admitir que as coisas no nosso país são bem melhores do que até o melhor país africano. O que eu não sabia é que a existência etíope é essencialmente um pesadelo, especialmente se você é mulher.

Na Etiópia, quase 70% dos matrimônios são fruto de uma prática cultural chamada “CASAMENTO POR SEQUESTRO”, que é exatamente o que parece. O maluco surge na calada da noite na casa da menina que ele gosta e, com ajuda de amiguinhos, rapta a menina e a esconde até que esta engravide. Uma vez que a menina engravidou, culturalmente o cara fica legitimizado como “pai” da criança e dono da garota. A Etiópia criminalizou a prática (em 2004!!!!), mas é como se ainda fosse perfeitamente legal. Caso alguém reclame, é só o malandro pagar um “dote” pro pai da moça e tá tudo resolvido.

A propósito, 3 entre cada 4 mulheres etíopes tiveram seus clitoris amputados através de outra prática cultural grotesca que só foi ilegalizada em 2004. Me dá arrepios nma espinha imaginar as condições precárias em que esse procedimento é realizado (lâminas enferrujadas em copinhos de requeijão vêm à mente) e eu sequer tenho um clitoris.

Mas por favor, me conte aí nessa sua fanfic de Facebook como o Brasil é o país mais misógino do mundo.

Serra Leoa

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Ok já tô começando a ficar deprimido aqui. A África foi plenamente fodida pelos poderes europeus de várias formas diferentes, e em nenhum país isso é mais prontamente visível que a Serra Leoa. Dois terços da população precisa viver de agricultura de subsistência, apenas 8% das estradas são asfaltadas, menos de 20% da população tem água encanada em casa.

A infraestrutura lá é tão fodida que quando rolou aquela epidemia de Ebola em 2014, o sistema precário de saúde dos caras ficou tão sobrecarregado que mais pessoas morreram de negligência médica do que de Ebola. Por outro lado, considerando o tipo de condição miserável em que os hospitais lá se encontram, a morte do paciente pode ser em alguns casos encarada como uma melhoria.

Coréia do Norte

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Só pra não dizer que só tem país ruim na África.

A Coréia do Norte não é nem exatamente um país; ela é na real como se alguém tivesse lido 1984 e resolveu fazer um cosplay de Oceania em escala nacional. Dos campos de trabalho forçado a la Auschwitz, à miséria da população enquanto o governo gasta dinheiro com obras grandiosas pra manter a aparência de que tudo está indo bem (tipo você encolhendo a barriga após deixar a churrascaria de rodízio no vermelho), e até essa foto do espaço que mostra o quão atrasado o país é em matéria de infraestrutura:

Como a Coréia do Norte é meio fechada pro mundo, quase tudo que sabemos sobre a parada vem de relatos de gente que conseguiu escapar. Tais relatos envolvem experimentos médicos em prisioneiros políticos, estupros, escravidão, reeducação política (eu falei que era igual a 1984, né?), entre outras coisas.

O Brasil tem muito no que melhorar, você teria que ser maluco pra negar isso. Mas é bom ter um pouco de perspectiva do que é um país realmente fodido antes de sair fazendo aquele textão revoltado no Fêice dizendo que está com as malas prontas pra Miami.

Existem basicamente dois tipos de filmes merda — filmes bem bosta mas que rendem tanto na bilheteria que nos obrigam a aceitar infinitas continuações (oi Transformers), e filmes tão bostas, mas TÃO bostas, que não é possível nem mesmo recuperar o investimento da produção, encerrando a franquia ali mesmo.

Este texto é sobre esse segundo tipo de filme.

The Golden Compass (A Bússola de Ouro)

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Baseado no primeiro livro da trilogia His Dark Materials (que na publicação inglesa original se chamava “Northern Lights”, aliás), a série é meio que um “Crônicas de Nárnia” ao avesso — uma série de fantasia com uma mensagem bem crítica de fé e religião. O que o James Bond tá fazendo ali no meio eu não sei.

Embora a série que originou o filme tenha sido bem recebida, o filme foi tão bosta que rendeu 70 milhões nos EUA, tendo custado 180 milhões pra produzir. Ter recebido 42% no Rotten Tomatoes não ajudou também. O filme até lucrou consideravelmente no mercado internacional, que é geralmente o que salvam essas bombas hollywoodianas — mas em geral, se um filme não se paga em casa, é considerado uma aposta que não rende.

A trilogia ficou só no primeiro filme mesmo.

Green Lantern (Lanterna Verde)

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Eu gosto do Ryan Reynolds. Apesar de praticamente fazer só filme bosta, ele tem uns bons momentos. Nenhum destes é encontrado em Lanterna Verde, no entanto, um aborto de filme que ao contrário do último citado não foi engolido nem pelas audiências internacionais. Custou 200 milhões, faturou 211 milhões. Apesar do final que sugere continuação, e de que o diretor havia prometido uma trilogia quando o primeiro ainda estava sendo filmado, os filmes seguintes do Lanterna foram impiedosamente cancelados.

Tomorrowland (Um Lugar Onde Nada é Impossível, Exceto Bolar Nomes Bons Pra Filmes Puta Que Pariu Quem Foi o Sobrinho do Dono da Distribuidora Que Sugeriu Essa)

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O sucesso de Piratas do Caribe fez a Disney olhar ao redor dos seus parques e pensar “hmmm que outro brinquedo já esquecido pela molecada a gente pode transformar numa mega franquia de Hollywood?”. Os olhos bateram na Tomorrowland e alguém falou PRONTO CHAMA ALGUM DIRETOR BOM AÍ.

E chamaram. Mas o Brad Bird E a presença do George Clooney não alavancaram o filme. A parada rendeu apenas 20 milhões de dólares a mais que custou pra filmar, o que é considerado nos círculos profissionais cinematográficos pelo nome técnico “um retorno de bosta”.

Engavetaram a idéia de transformar a parada numa franquia, e mataram também a outra continuação de TRON. A Disney decidiu que, de agora em diante, ficção científica só mesmo as pitadinhas do Marvel Cinematic Universe e Star Wars (embora Star Wars não seja ficção científica).

John Carter (John Carter: Entre Dois Mundos)

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Não dá exatamente pra culpar a Disney por abandonar a ficção científica. O Tomorrowland foi a segunda aposta ruim recente no gênero, o primeiro foi o John Carter em 2012. Caralho, esse filme vai fazer 4 anos já?! Puta merda.

Os problemas na produção desse fiolme são já icônicos. O título original da obra é John Carter Of Mars. Esse “Of Mars” provou-se problemático, porque quando a Disney ofereceu a idéia do filme pros seus parceiros no ramo de produção de brinquedos (sim, isso é um fator importante quando se produzem filme hoje em dia), estes torceram os narizes apontando que filmes baseados em Marte até hoje sempre foram bombas. Então a Disney resolveu tirar o “of Mars” do nome, falando “e agora, melhorou?”, igual seu pai no telhado da casa ajustando a antena antes do clássico Paissandu e Veranópolis no Hermínio Esposito.

Acabou não ajudando, porque sem o modificador OF MARS o marketing do filme fazia ele parecer uma fantasia qualquer, em vez do scifi que atrairia justamente o público mais apto pra ver o filme.

Não é a toa que o filme foi a maior bomba nos anos recentes — John Carter custou à Disney 263 milhões, e faturou 284. Não chegou a ser um prejuízo, mas foi perto disso. A Disney então olhou pros direitos do personagem, e falou “deixa essa porra reverter pro dono original e foda-se”, que é o gesto mais “lavei as mãos dessa merda” possível em Hollywood. Como outros dessa lista, a trilogia planejada ficou com um filme só.

Que outros filmes você lembra que arruinaram a esperança de uma franquia?

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Moro aqui em cima desde o finalzinho de 2003. Quando penso no tempo que passei aqui, rola uma dissonância cognitiva estranha — 13 anos não me parecem tanto assim, mas quando penso na minha “vida brasileira”, parece que estou lembrando de algo que aconteceu há cinco décadas. Também pudera; apesar de ter 19 anos quando vim pra cá, eu amadureci tanto nesses últimos anos que o meu “eu” de 19 anos era essencialmente uma criança ainda.

E ao longo dos anos, por ter uma certa notoriedade na internet, muitas pessoas vem a mim com perguntas sobre o Canadá. Eu me tornei intrinsicamente conectado ao país, talvez por ser um de poucas “celebridades” internéticas que moram aqui. Só consigo lembrar de dois casais youtubers, o Leon e a Nilce, e o Edu e a Sapeca.

Pergunto-me se eles recebem tantas perguntas sobre o Canadá quanto eu. Aliás, ironicamente, agora que paro pra lembrar conheci AMBOS porque vieram me fazer perguntas sobre imigrar pro Canadá! Hashtag METALINGUAGEM. Mas vamos às tais perguntas.

1) “É difícil conseguir trabalho no Canadá?”

Por via de regra, perguntas sobre imigração/arrumar trabalho me incomodam um pouco, por causa da inerente futilidade delas. Alguém que pergunte algo tão vago e de uma resposta inevitavelmente tão inútil quanto “é difícil conseguir trabalho no Canadá?” certamente não está levando a sério a idéia de emigrar, e não está tomando por conta própria a responsabilidade de fazer uma pesquisa importante, então seja lá o que eu responda não fará muita diferença.

Quando alguém me pergunta isso, fica a impressão que o que a pessoa REALMENTE quer ouvir é um encorajamento vazio, tipo “pode vir sim cara aqui é uma maravilha ao descer do avião já vai ter alguém te dando um emprego“. Eis os motivos pelos quais essa pergunta é inútil:

  • Eu não sei quantos anos você tem na sua carreira;
  • Eu não sei qual a sua formação, e mesmo que soubesse;
  • Eu não sou analista econômico pra saber assim de cabeça como estão as ofertas de trabalho de uma área aleatória;
  • Eu não sei qual o seu nível de inglês;
  • Eu não sei pra qual cidade você planeja ir (o Canadá é o segundo maior país do mundo; se você mora em São Paulo, você saberia como está o mercado de trabalho de arquitetura em Roraima…? Imagino que não).

Em suma, a pergunta tem como variáveis INÚMEROS fatores sobre você que eu não sei. Mas, eis uma forma mais inteligente de procurar ofertas no mercado de trabalho no Canadá. As it turns out, é o mesmo método que usamos pra encontrar qualquer outra coisa.

O Google é seu melhor amigo pra mil coisas; por que seria diferente agora?

Se você for ao google.ca (o que forçará o site a mostrar resultados canadenses) e procurar “CANADA JOBS”, você achará inúmeros sites com ofertas de empregos. Como por exemplo:

http://www.canadajobs.com

http://www.jobbank.gc.ca

http://jobs-emplois.gc.ca

http://www.eluta.ca

http://www.workopolis.com

http://www.monster.ca

Agora é simplesmente uma questão de procurar ofertas na sua área. A vantagem desse método é que em vez de simplesmente acreditar nas palavras de um blogueiro cearense qualquer, a aparentemente fazer seus planos baseando-se inteiramente apenas nisso, você está vendo ofertas REAIS com valores REAIS de salários.

Digamos que você não saiba o nome da sua área em inglês. Isso complica um pouco a idéia de morar e trabalhar num país onde essa é a língua oficial, mas o Google novamente nao te deixa na mão.

Embora me pareça que o Google é um amigo gringo que pensa que falamos espanhol no Brasil.

Joga o nome da sua função no Google Translate e pronto. Você já tem mais informação com a qual trabalhar.

A segunta pergunta é relacionada à primeira.

2) “X dólares por hora/ano é um bom salário?”

Se você já se deu ao trabalho de procurar por conta própria empregos na sua área e me veio no Twitter com essa pergunta, eu te parabenizo pela iniciativa. Essa é bem mais subjetiva, e mais difícil de obter uma resposta simples no Google, então faz sentido perguntar a um amigo que mora no Canadá. E sim, eu sou seu amigo.

Você deve ter notado que a pergunta é sobre dólares por HORA ou ANO, mas não por MÊS. Por questões culturais, dólares/mês não é uma métrica muito usada — o que eu acho sem sentido. A maioria das nossas despesas são por mês, logo, dólares/mês me parece uma unidade melhor pra calcular o custo de vida. Enfim.

Pra saber quanto uma área paga, aqui está um site bom. Ele mostra valores baixos, médios e altos pra uma determinada profissão, separando inclusive pela área no país. Assim, dá pra comparar que região do Canadá paga mais por uma determinada função, e assim você pode fazer planos de forma mais consciente.

Tenha em mente que 25 dólares por hora/50 mil dólares por ano é o que eu consideraria um salário “bom” pra uma pessoa — você não será rico, mas você morará com conforto, poderá ter um carro esportivo igual o meu, e precisar parcelar o próximo iPhone ou MacBook ou DSLR será uma experiência com a qual você perderá familiaridade.

50 mil dólares por ano por pessoa seria um pouquinho acima da classe média — os valores exatos variam de acordo com percepções pessoais e outras coisas subjetivas, mas em 2013, o salário médio de uma família no Canadá era 73 mil dólares por ano.

Pra dar um parâmetro de comparação, salário de fast food é em torno de 11 dólares por hora, ou aproximadamente 20 mil dólares por ano.

3) “Vi você comentando que estava fazendo -40 graus noutro dia, é Celsius ou Fahrenheit?”

Inclui abaixo um mapa útil de todos os países do mundo que usam Fahrenheit como medida de temperatura:

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Caso você seja daltônico: só nos EUA usam essa maluquice.

Ou seja: ESQUEÇA FAHRENHEIT. Mesmo quando você estiver falando com um youtuber que more nos EUA, é imensamente mais provavel que ele comentará sobre temperaturas já tendo feito a conversão pra Celsius, pra que faça sentido pra você.

A propósito, -40 é o mesmo em Celsius e Fahrenheit.

4) “É verdade que os canadenses são meio frios?”

O brasileiro se acostumou tanto a se gabar de ser o povo com mais calor humano no mundo — frequentemente repetindo a máxima sem nunca ter sequer conhecido um estrangeiro — que o subproduto disso é uma crença de que gringos são distantes ou frios. Como se calor humano fosse exclusividade nossa, o que é uma forma bem míope de ver o mundo e os outros povos.

Talvez eu tenha tido uma experiência completamente atípica, mas nunca tive problemas em fazer amizades, e sempre fui bem aceito onde quer que eu cheguei. Minha esposa, que é canadense, é completamente maluca, e a maior parte das amigas dela são iguais.

O que rola é que há pessoas gente boa e pessoas escrotas em todo lugar do mundo. Tive sorte de conhecer várias pessoas gente boa aqui.

5) “O que é esse “EH” que sempre vejo os canadenses falando no final de frases?”

“Eh” é meio que um tique canadense. Eles costumam adicionar no final de frases sem nenhum motivo aparente. É tão tipicamente canadense, que quando comediantes americanos querem zoar canadenses, a forma mais clara de insinuar que aquilo que eles estão tentando emular é um sotaque canadense é jogar vários “eh” pelas frases.

E o significado da palavra é simples: é basicamente um “né”. Traduza a frase e troque EH por NÉ que ficará mais claro.

Já que entramos no assunto de comediantes americanos zoando canadenses…

6) “Por que os comediantes americanos zoam canadenses?”

A resposta mais simplesmente é porque comediantes por via de regra zoam tudo, e nada é mais culturalmente zoável do que o país que está ali do lado. Nós temos uma versão disso também na rivalidade Brasil vs Argentina, embora no nosso caso haja um veneno um pouco maior.

Brasileiros em geral zoam argentinos por realmente não gostar dos caras; americanos zoam canadenses como uma forma de “sibling rivalry” mesmo; sendo ambos países filhos da Inglaterra, e compartilhando língua, boa parte da cultura, personalidades — VÁRIOS artistas que muitos imaginam ser americanos são na real Canucks —  e etc, são basicamente irmãos.

Os canadenses alopram os americanos de volta, também — o que você provavelmente não notaria, já que a maior parte da cultura popular que consumimos é americana, então só vemos um ângulo da rivalidade.

“Rivalidade” talvez seja até um termo muito forte. O que rola de fato é que os americanos fazem piadas com a educação canadense — que alguns comediantes tendem a equivaler a inocência/ingenuidade –; já os canadenses alopram os americanos pelo seu fetiche por armas e já lendária falta de educação.

7) “Você consegue achar arroz e feijão aí?”

Eu não sei exatamente o que fez brasileiros acharem que arroz e feijão é uma exclusividade nacional nossa. Tudo bem que o arroz e feijão são o alicerce de quase todo almoço/janta, com os adicionais orbitando ao redor dessa combinação tão clássica que virou ditado popular sinônimo de “coisa básica, elementar”.

Mas isso não significa que só tem arroz e feijão no Brasil. Tenho comido arroz e feijão praticamente todo dia dos últimos 13 anos. Aliás, sendo eu fresquíssimo pra comer, é perfeitamente provável que eu como mais feijão e arroz que você — a frescura gastronômica crônica limita meu cardápio.

8) “É verdade que a maioria dos carros aí são automáticos?”

São. Você meio que tem que go out of your way* pra comprar um carro manual; geralmente só os aficcionados fazem isso. Pra carro esportivo, o manual às vezes chega a custar mais caro.

Nos 13 anos que moro aqui, nunca dirigi um carro manual, e é possível que eu tenha até desaprendido já. Afinal, eu já não era lá um expert quando morava no Brasil — havia aprendido a dirigir com 16 anos, mas mal e porcamente como é costumeiro à maioria de adolescentes.

*Não sei como traduzir “out of your way”. Seria algo como “se dar ao trabalho”, deixando subentendido que esse trabalho seria bem fora do comum/inconveniente.

9) “Aí se fala francês também, né? Cê aprendeu francês?” 

Na realidade, só se fala francês MESMO em Quebec — que, como o Rio Grande do Sul ou a Confederação dos Sistemas Independentes, querem se separar da matriz. No país inteiro, placas, nomes e empresas e rótulos de produtos são bilígues (uma caixa de cereal é inglês de um lado e francês do outro, por exemplo), mas quão mais longe de Quebec você mora, menos se ouve francês.

10) “Você voltaria pro Brasil algum dia?”

ESSA é a pergunta que mais me surpreende.

Frequentemente alguém pergunta quais seriam as circunstâncias fictícias que me fariam voltar a morar no Brasil. Pra responder de forma simples, nada me faria voltar a morar no Brasil. Estando aqui há 13 anos, eu já estou completamente acostumado a tudo aqui — cultura, língua, tenho amigos, tenho família, emprego… não consigo pensar em nada, em país ALGUM, que me faria querer recomeçar do zero a essa altura do campeonato. Que dirá então o Brasil, que a essa altura do campeonato me oferece tão pouco.

Uma métrica que eu geralmente cito nesse contexto é a da proporção da vida canadense pra vida brasileira. Vim pro Canadá com 19 anos, mas desses 19, só podemos contar como vida “consciente” uns 14 ou 15; isso significa que eu estou cada vez mais próximo do dia em que eu terei uma experiência de vida canadense equivalente à minha experiência de vida brasileira. Será ainda mais bizarro daqui uns 9 anos, quando eu terei LITERALMENTE existido no Canadá por mais tempo que existi no Brasil.

Isso fode com minhas noções de auto-identidade, porque por tanto tempo eu vi minha vida brasileira como um componente majoritário de quem eu sou. Quando eu tiver 40 anos, o tempo que passei no Brasil será meio que apenas uma Season 1 da minha vida.

Assim sendo, a cada dia que passa, a vida brasileira se torna uma lembrança mais embaçada, o que tira qualquer incentivo de voltar ao Brasil. Pai, mãe e irmãos estão tudo aqui na mesma cidade em que eu moro, também.

Se você tem mais alguma pergunta, joga aí nos comentários!

MEU DEUS MEU DEUS MEU DEUS SAIU O TRAILER NOVO DE THE FORCE AWAKENS.

Embora no passado eu tenha me decepcionado um pouco com aquele primeiro teaser de 88 segundos, eu deixei claro naquele texto que mesmo assim a minha veneração por Star Wars jamais esfriará. Minha decepção não era com nada que foi mostrado no teaser que vimos em novembro, mas pelo contrário — pelo que não foi mostrado. Foi muito curtinho, muito breve, como aquele seu amigo muito gente boa que apenas dá uma passada na festa e já tem que ir embora 15 minutos depois porque trabalha no dia seguinte. Você não fica puto com o amigo, e sim com a situação que te impede de passar mais tempo com ele.

Continuando a analogia, esse novo teaser é como se o seu amigo voltasse alguns momentos depois e falasse “dane-se o trabalho amanhã, passa uma cerveja aí!”.

Hoje, durante o Star Wars Celebration, a Disney liberou o novo teaser de The Force Awakens. Indo na contramão daquele primeiro, neste teaser eu não esperava ver muita coisa, e no entanto me entregaram BEM mais do que eu achava que merecia:

Alguns detalhes interessantes que notei no trailer. Teaser? É trailer já né, fala a verdade. Dois minutos!

Um Super Star Destroyer caído, com o que parece ser uma X-Wing também avariada na frente. Planeta deserto me faz pensar em Tatooine, que tem uma incrível significância para a mitologia da série. Por um lado, tudo sempre acontecendo nos mesmos locais dá uma impressão de que o universo de SW é pequeno; por outro, quem não gosta de ver locais familiares? Aposto que é Tatooine, sim.

Quem deve ter ficado arruinado com essa montanha de ferro velho (presumo que não é a única no planeta) são os jawas. A demanda pelos serviços daqueles camelôs de tecnologia detonada deve ter caído ao chão…

ERRATA: encontro referências na web que o planeta em questão é Jakku, outro que será modificado na tradução brasileira assim como o Count Dooku (que virou Dookan) e o mestre Jedi Sifo Dias (que virou Zaifo Vias)

O capacete do Vader, avariado e com uma semelhança inegável a uma caveira humana. Nenhum outro item da armadura do Vader (o painel do peito, a capa,o sabre de luz) não seria tão icônico, ou tão claramente referente a morte.

Morte? Na cena, o Luke diz claramente “My father HAS it” (“meu pai a tem”), se referindo à Força — em vez do esperado “my father HAD it” (“meu pai a tinha”). Certamente, o contexto aqui é que o pai do Luke, como visto no final de Retorno de Jedi, foi recuperado e passou a existir além da morte, como um fantasma da Força. Ainda assim, achei o uso do present tense do verbo to have… curioso. Ainda que ele tenha contato com seu pai como um fantasma da Força, me parece incomum se referir ao Anakin como se ainda estivesse vivo.

Mão robôtica do Luke (com uma aparência muito melhor do que todas que vimos nos últimos filmes; mais mecânica, mais artificial. Aqui a gente vê que pelo jeito o Jedi tem uma consideração pelo R2D2, o que faz sentido porque a essa altura o droid é parte da família praticamente.

O sabre do Luke sendo passado à Leia, se podemos confiar no monólogo do Jedi. O sabre do Luke, a propósito, pertenceu no passado ao próprio Anakin. Por causa disso, quando foram filmar O Ataque dos Clones, o Hayden Christensen não tinha opção de sabre. Todos os outros atores puderam escolher seu próprio modelo; o do Hayden TINHA que ser esse, porque é esse que o Obi Wan dá ao Luke no começo do Episódio IV, dizendo que o sabre pertencia ao seu pai — ou seja, precisávamos ver esse sabre específico sendo empunhado pelo Anakin pra que a continuidade fizesse sentido.

X-Wings num planeta, uma cena inédita na franquia. Até onde vi não há nenhuma referência de que planeta seria este, então estou tentado a arriscar que é Kashyyyk, o planeta natal do Chewbacca. Outra curiosidade é que as turbinas das X-Wing são diferentes dos modelos vistos nos filmes anteriores. Reparem:

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Vistas de frente, as turbinas antigas formavam círculos completos; as do novo filme, semi-círculos. O motivo pra isso é que as X-Wings vistas nos filmes anteriores eram o modelo T-65, enquanto a do The Force Awakens é a T-70, um modelo atualizado.

Essa é foda! Stormtroopers (em modelo atualizado) se ajeitando numa formação sinistra, prontos pra seguir cegamente as ordens de seja lá quem é a figura no palanque lá atrás, em um tom que muito lembra uma tropa nazista. De fato, há muita influência da iconografica nazista nos stormtroopers. Começando pelo nome, aliás. O que faz sentido — quer melhor forma de mostrar que os caras são DO MAL do que traçar paralelos com o mais infame exército que já existiu?

E se você parar pra pensar, isso significa que o Harrison Ford enfrentou nazistas normais e nazistas ESPACIAIS.

O selo na bandeira não é o do Império Galático, então do que se trata? Um novo império Sith? Uma facção leal ao império tentando pegar as rédeas da galáxia? O vácuo de poder que segue a derrubada de um ditador costuma produzir esse tipo de resultado no mundo real…

EFEITOS PRÁTICOS! Não importa quão bons os efeitos computadorizados sejam, nosso olho nunca engole totalmente a ação quando é tudo polígono e o fundo é todo verde. O JJ Abrams é dessa nova escola de cineastas que gosta de usar efeitos práticos sempre que possível (em outras palavras, ele EXPLODE COISAS DE VERDADE)e isso deixa as cenas infinitamente mais tangíveis do que o que vimos, por exemplo, na Nova Trilogia.

E você percebeu que, nessa cena, stormtroopers parecem estar lutando contra outros stormtroopers? E na cena logo em seguida…

Quando vimos Finn (o personagem do John Boyega) pela primeira vez, alguns hipotetizaram que o cara estava vestido de stormtrooper como disfarce igual Luke e o Han Solo fizeram no Episódio IV. Essa tomada, no entanto, me faz pensar que o cara entrou no Império com boas intenções, percebeu que estava do lado errado, e tentou sair fora e lutar ao lado dos rebeldes.

E considerando a batalha que aparece logo antes dessa cena, é possível que ele não seja o único desertor!

Combate dentro de um Super Star Destroyer (ou seria um Star Destroyer normal?)! A cena lembra bastante a fuga da Estrela da Morte no Retorno de Jedi, mas ver as naves no chão passa uma ideia MUITO melhor de escala de tamanho do que no espaço.

Eles estão em casa! Chewbacca e Han Solo (este segundo mostrando mais a idade; faz sentido, já que Wookies podem viver por séculos), provavelmente à bordo da Millenium Falcon, ambos com armas na mão — repare o blaster do Han, quase imperceptível –,  possívelmente encarando alguém e descobrindo que tratam-se de aliados. Ou: será que eles estariam roubando a Millenium Falcon de volta de alguém…? Isso faz a frase “estamos em casa”, e as armas empunhadas, fazer bastante sentido!

CADÊ DEZEMBRO QUE NÃO CHEGA MEU DEUS. Vô comprar os bonequinho TUDO.

Morar com nossos pais, a partir da chegada da adolescência, começa a se tornar uma porcaria.

É nessa época que o tradicional espírito de inconformação e de revolta contra imagens de autoridade começa a dar as caras, provocando em tantos lares aqueles confrontos totalmente desnecessários com as figuras paternas. E estes, que por algum motivo estranho recebem o fenômeno com surpresa (como se a insubordinação adolescente fosse algum tipo de evento inédito), respondem à revolta juvenil reforçando sua autoridade numa fútil tentativa de manter as rédeas da família. “Mostrar quem é que manda”, como se diz popularmente, com o sufixo “…nesta porra” geralmente adicionado.

O resultado desse atrito entre pais atingindo a meia idade e filhos chegando à puberdade é uma desagradável guerra fria dentro da sua própria casa — um lado testando os limites do outro, gradualmente aumentando as provocações/punicões, vendo até onde pode antagonizar a outra pessoa até que ela finalmente exploda e retalie arranhando os CDs do Roberto Carlos de um, ou “acidentalmente” atropelando o cachorro do outro. “Sim, eu acidentalmente dei ré e passei por cima do cachorro de novo oito vezes, filho, me desculpe”.

deboa

“Mas olha aí, ele tá de boa!”

Na minha casa, o maior motivo das confusões era a minha preguiça e aparente recusa em colaborar com os afazeres domésticos. Me faltava iniciativa pra limpar a casa por conta própria, e eu só fazia isso se fosse diretamente comandado (múltiplas vezes) a executar a tarefa. E, quando finalmente fazia o que me era pedido, fazia da forma mais preguiçosa e desleixada possível, garantindo que alguma outra pessoa teria que refazer a tarefa ao mesmo tempo que resmungava a respeito da minha inutilidade.

Atire a primeira pedra quem não passou os últimos três anos da sua adolescência emulando esse exato comportamento.

Meu pai, compreensivelmente, ficava putíssimo com a minha vagabundagem, mas ele levou minha preguiça como indício de uma malícia maior: ele interpretava meu desleixo como uma declaração oficial de guerra, como se eu estivesse propositalmente ignorando as responsabilidades domésticas para provocá-lo de forma sutil. Ele estava determinado a crer que minha atitude era uma sofisticada tática de guerrilha psicológica que tinha como propósito deixá-lo louco. Louça suja na pia, camiseta no meio da sala, meias sujas abandonadas na escada, DVDs esquecidos embaixo da mesa de centro e por aí vai. Tudo calculado pra provocá-lo, ele pensava.

Realmente não era o caso. Eu tinha apenas preguiça demais de organizar minha própria bagunça, e em alguns casos se tratava até mesmo de uma espécia de cegueira seletiva não-voluntária — é como se eu nem visse a bagunça.

Independente de como eu tentava explicar que meu desinteresse nas tarefas era idôneo, meu pai havia se convencido religiosamente que a minha missão era causar sua raiva. Nem Jesus Cristo em pessoa poderia convence-lo do contrário, nem que usasse todo seu repertório de mágicas.

Parece exagero esse GIF mas cê tá ligado que 2 mil anos atrás não era preciso muito pra se tornar um líder espiritual com “super poderes” né?

Hoje, sendo o “homem da casa”, é como se eu tivesse herdado do meu pai o anseio por manter a casa em ordem. Agora entendo por que meu pai sentia tanta fúria ao chegar do trabalho e encontrar nossa casa em estado de completa desordem.

Meu quarto, por exemplo, era um cenário de perene baderna. É como se aquele cômodo, no momento em que me mudei pra ele, tivesse se tornado preso no estado quântico de maior entropia possível.

Pros não-nerds, eu traduzo: meu quarto parecia ter presenciado a explosão de uma bomba cheia de roupas. Era uma lástima; e só agora isso me incomoda o bastante pra fazer algo a respeito. Já cheguei em certas ocasiões a arrumar a casa inteira, sozinho (varrer o chão/aspirar o carpete/passar pano no piso da cozinha/espanar os móveis), logo após chegar em casa do trabalho às 11 da noite, cansado e com fome.

E agora, consigo entender porque meu pai se chateava tanto tentando manter a casa em um estado mínimo de organização enquanto alguém parece chegar em casa disposto a pegar cada item da casa que não esteja colado ao chão ou parafusado à parede, e colocá-lo a dez metros de distância da posição inicial.

Aqui está a lista com os mais odiosos desleixes caseiros acontecem por aí. Seja honesto e admita – quantos desses você cometeu hoje?

Toalha Molhada

toalha

Você conhece a cena. Tu acabou de chegar do trabalho, e está cansado porém animadíssimo pra finalmente jogar a cópia do novo Call of Duty que você precisou esperar numa fila por quase duas horas pra comprar. Sapatos removidos através de inércia (você conhece a técnica — um poderoso semi-chute interrompido bruscamente, transferindo a energia cinética através da sua perna até o sapato, que sai voando e acerta o cachorro), gravata afrouxada, paletó precariamente pendurado na maçaneta da porta e testículos meticulosamente coçados.

E não é de qualquer jeito, não. Existe uma técnica.

Primeiro o direito, no hemisfério inferior, depois o esquerdo, finalizando com um rápido porém eficiente remanejo dos seus aparelhos dentro da cueca. A cheiradinha da mão, pra averiguar a condição aromática testicular (e assim poder decidir com precisão cirúrgica quando o próximo banho é necessário), é passo opcional.

Organização genital é uma técnica tal qual a migração dos pássaros — ninguém precisa nos ensinar o procedimento, está no nosso sangue.

E assim como a migração sazonal das aves, é um instinto essencial pra nossa sobrevivência. Por que você acha que TODOS os homens organizam suas bolas? Porque os que não exibiam essa característica não viveram tempo o bastante pra deixar descendentes. O comportamento mais bem adaptado ao ambiente é que acabou se tornando predominante graças à herança hereditária. Seleção natural, fio. IT’S SÁIENSE.

Após o breve ritual de reajuste testicular, você está oficialmente com o resto do dia livre. A namorada está trabalhando, seu irmão desapareceu a duas semanas, seu telefone foi cortado por falta de pagamento e os inconvenientes mórmons que rondavam sua vizinhança foram recentemente empurrados na frente de um trem em movimento por membros da gangue religiosa rival, os Testemunhas de Jeová. Uma tarde inteira de tiros virtuais te espera e ninguém te interromperá por horas.

Mas espere. O que é isso? Alguém jogou uma toalha molhada em cima da sua cama. Seu dia está arruinado e nenhum joguinho eletrônico melhorará seu humor.

Toalhas, como todos sabemos, tem a estranha propriedade de absorver seu mau odor, a despeito do paradoxal fato de que você acabou de tomar banho antes de usá-la. Essa misteriosa propriedade das toalhas (desenvolver uma poderosa nhaca apesar de que só a usamos após estarmos limpos) é potecializada caso você embrulhe-a enquanto ela está molhada e a deixe jogada por aí, fermentando em sua catinga. O pútrido aroma acaba permeando cada milímetro cúbico do ambiente, preenchendo o coração da testemunha do crime com puro ódio que só poderia ser amenizado por intermédio de jogar o culpado dentro de um forno industrial daqueles que se usam pra moldar vidro.

Devo ser sincero: aqui em casa, sou o principal responsável por esse vacilo. Mas desenvolvi uma forma eficiente de desviar da bronca da esposa: quando ela começa a reclamar da toalha, finjo que não sei falar inglês.

Garrafa dágua vazia

garrafa

Esta é ainda mais insidiosa que a toalha em cima da cama, e já aconteceu com todo mundo aqui ao menos cinquenta vezes na semana passada.

Você acabou de chegar em casa depois do trabalho. O sol é castigante durante toda a caminhada do ponto de ônibus até a sua casa. Seus olhos ardem por causa do suor acumulado nas sobrancelhas. Sua boca está ressecada e você está até meio tonto, tamanha é a sua sede.

Você se dirige à geladeira. Ao abrir a porta do eletrodoméstico, você é recepcionado com uma refrescante baforada de ar gelado.

Infelizmente sua alegria durará pouco, pois em alguns segundos você descobrirá que a garrafa está vazia. Não apenas essa que você pegou, mas todas as outras também.

E como sabemos que não acontece evaporação dentro de uma geladeira, não há mistério sobre a situação: algum filho da puta chegou à garrafa antes que você, e consumiu todo o líquido antes que você pudesse ter a chance. Você não pode provar isso, mas dá quase pra imaginar o desgraçado fazendo isso propositalmente enquanto ri da sua decepção dali a alguns momentos quando chegar à geladeira.

A parte realmente revoltante deste cenário é o fato de que o indivíduo que teve acesso à geladeira antes que você simplesmente não teve o menor interesse em reabastecer a garrafa. Ele esvaziou-a e, tendo saciado a própria sede, decidiu que os outros habitantes da casa não merecem a conveniência de encontrar água gelada no momento em que precisam dela. Encontrar uma garrafa vazia na geladeira é como se o sujeito estivesse dizendo “Tá com sede? FODA-SE se você está com sede; quero mais é que você se engasgue e morra ainda hoje”.

Em matéria de comunicação não-verbal, deixar uma garrafa vazia na geladeira é sem dúvida o melhor método de passar uma longa mensagem com um único gesto de omissão egoísta.

Uma variação dessa prática é não reabastecer as forminhas de gelo no congelador, o que é exponencialmente pior. Falta de água gelada pode ser contornada com cubos de gelo, mas e a falta de cubos de gelo? Assim como a morte e o pagamento de impostos, falta de gelo é um problema que não pode ser resolvido a não ser através do uso de magia negra.

O que trás um importante questionamento: poderia o MacGyver resolver esse problema? Depende — quantos clipes de papel ele tem a disposição? Geralmente um é suficiente pra que o herói resolva qualquer situação, mas como você pode ver o problema da falta de cubos de gelo é realmente bastante complicado.

Não re-encher garrafas dágua é um dos maiores ataques disfarçados na arte da guerrilha doméstica.

Papel higiênico esgotado

papel

Todo mundo já passou por essa: você senta-se à privada, cata o celular pra dar uma olhadinha no Instagram daquela gostosa, tu conduz seus assuntos intestinais sem perceber a falta do papel higiênico até que seja tarde demais.

Os dedos encontram o rolo vazio com total descrença. Dizem que o primeiro estágio psicológico que segue uma grande desgraça é a Fase da Negação, quando o infeliz não consegue (ou se recusa a) acreditar na tragédia que está acontecendo. Freud deve ter inventado essa após ser traumatizado por uma potente feijoada.

Você dá aquela girada no rolo, não querendo aceitar a realidade. E não, aqueles fiapinhos de papel ainda colados ao rolo não servirão. E pouco a pouco a situação se torna mais clara.

O desgraçado que usou o banheiro antes de você esgotou todo o papel. E pior que isso, ele deixou você abandonado à própria sorte, tendo que contemplar a idéia de tomar um banho prematuro ou destruir as próprias cuecas pra escapar da situação.

Poucos outros objetos no banheiro poderiam oferecer ajuda nesse momento. Escovas de dentes? Apesar de ser uma idéia tentadora (ela serviria como solução E vingança ao mesmo tempo), a superfície de contato é pequena demais e você arrisca entrar em contato direto com a massa fecal.

Sabonete? Coeficiente de atrito desconsiderável, impossível alcançar tração suficiente.

Toalhas de mão? Se desfazer da arma do crime é complicado, já que uma toalha não desceria pela descarga e nenhuma quantidade de esguichos de Bom Ar seria capaz de camuflar o distinto odor de uma toalha de mão completamente folheada a bosta. Você teria que cruzar a casa inteira com uma toalha cagada a tiracolo, e ainda assim, onde você a jogaria? Na lixeira da cozinha?

Ou você toma um banho, ou usa as cuecas. Não há meio termo. E quando você finalmente decide usar as próprias cuecas, é como aquele momento nos filmes de guerra em que as circunstâncias obrigam o grupo a deixar alguém pra trás — você sente um misto de tristeza e vontade ainda maior de extrair vingança.

Tal sabotagem é uma das mais danosas aos relacionamentos domésticos, já que sua eficácia depende justamente de explorar a vítima em seu momento mais frágil – mais especificamente, quando o sujeito está todo cagado e humilhantemente dependente de ajuda exterior.

Esse tipo de oportunismo não é esquecido ou perdoado facilmente. A utilização desta manobra deve ser considerada análoga à de uma bomba atômica – utilize apenas quando todos os meios diplomáticos já foram tentados, e apenas se você puder lidar com a possível retaliação.

A preparação da armadilha exige um pouco mais de cuidado, também. Você deverá ir ao banheiro pra um relaxante Número Dois (obrigado, cultura norte-americana, desde 2003 me dando uma alternativa pra dizer “PRECISO CAGAR”) e calcular seu uso do papel cuidadosamente. A idéia é usar todo o papel e terminar de se limpar ao mesmo tempo, deixando para trás nada além do rolo de cartolina. Essa seria a execução perfeita: falta de sincronia te obrigará a substituir o rolo no meio da cagada, estragando o plano.

Essa sacanagem é uma das mais versáteis e não se limita ao território doméstico. Você pode executa-la em locais públicos, como bibliotecas e lojas de departamento. Esse tipo de ambiente provoca uma situação muito mais desesperante do que em seu próprio domicílio, afinal, em casa na pior das hipóteses você pode abandonar a convencionalidade e simplesmente pular no chuveiro. Em território inimigo, a única solução são suas cuecas. Ou as meias.

Obviamente, quando nos vemos forçados a soltar o barro em locais não-familiares, bom senso dita que a checagem de papel antes do serviço é primordial; ela faz toda a diferença entre entrar e sair do banheiro com rapidez e praticidade, e se ver preso ao local à mercê da ajuda de estranhos. Entretanto, todos sabemos que bom senso não é uma capacidade mental compartilhada pela maioria da população. Uma quantidade considerável de infelizes cai nesse truque diariamente fora do seus domínios, o que tráz uma importante lição sobre prestar atenção no ambiente ao seu redor.

Molhar o banheiro inteiro após um banho

agua

Passei minha infância inteira ouvindo duas frases várias vezes por dia — “moleque, desliga essa porra de videogame e vai estudar!” e “quem foi o infeliz que molhou a porra do banheiro inteiro?”.

Por motivos que não consigo explicar, tenho um problema em ficar dentro do banheiro por tempo suficiente pra secar meu corpo de maneira eficiente. Eu suspeito que tem algo a ver com o fato de que quando criança, eu abominava a necessidade de tomar banhos. Por isso, o ato de lavar-se parecia uma supérflua perda de tempo. A única maneira de neutralizar o prejuízo do tempo perdido no chuveiro era não passar nem mais um segundo dentro do box.

Se enxugar? Pfff. A próxima roupa que eu vou vestir cuidará disso.

Por causa disso, após cada banho meu, o banheiro parecia ter sido o palco onde um grupo de oito crianças pré-escolares havia brincado de guerra com balões dágua por cinco horas initerruptas.

Por mais que minha mulher tente me catequizar pra abandonar essa prática, por mais que ela tente me convencer que os dez segundos adicionais dispensados ao ato de se enxugar dentro do box não serão tempo perdido em vão, esse é um daqueles hábitos que eu jamais abandonarei. Ela que se acostume a entrar no banheiro se apoiando firmemente nas paredes.

Peidar na cara dos broders

fart

Ok, eu sei o que você está pensando. “Izzy, ó Izzy, gênio das artes nerds e ícone de virilidade”, você falou, “como é que você convenceria alguém de que uma flatulência expelida diretamente contra a face de alguém é um ato idôneo?”

Sua indagação tem embasamento. Considere por exemplo a situação comum em que o ataque acontece: seu irmão/namorada/amigo de trabalho está esparramado no seu sofá, assistindo alguma porcaria na televisão. Você está sentado do lado dele. De repente, tu sente o incômodo estomacal que antecede uma perturbação intestinal. Acessando uma parte do seu cérebro que só realmente presta pra fazer o que não presta, você faz um rápido cálculo mental e chega à conclusão que o ETA do peido é T minus 10 segundos.

Duas opções são apresentadas ao seu cérebro — levantar a perna, facilitando a ejeção do material gasoso de forma não ofender (muito) o nariz do companheiro, ou posicionar-se diante do infeliz e enfiar o peido na fuça dele de forma que todos os centímetros cúbicos de ar ao seu redor adquiram o odor e textura do feijão que você comeu há poucas horas?

Poisé. Você arruma um pretexto pra levantar do sofá (“opa, vou ali checar meus scraps e já volto!”) e BLLRRRGGH, solta um sonoro peido a poucos centímetros de distância do rosto do sujeito. Se o indivíduo teve o azar de ter aberto a boca pra bocejar naquele instante, a sua leve brincadeira pode ser elevada a crime contra a humanidade, sujeita a condenação pelos magistrados de Genebra.

E caso você faça isso, é praticamente impossível convencer a vítima de que o que acabou de acontecer foi um acidente. Todas as pessoas desse planeta sabem que a sincronia necessária pra depositar um peido diretamente nas narinas de outra pessoa jamais poderia acontecer por acaso; o alinhamento quase eclíptico do cu com a cara não acontece espontaneamente. Não há como peidar “não intencionalmente” na cara de alguém.

Mas você não precisa de uma desculpa. É isso que ele merece por não encher as garrafas dágua.

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