grave

Em menos de um mês eu terei TRINTA FUCKING ANOS de idade. Trinta anos, mano. Quando meu pai tinha essa idade eu já tinha 6 anos. Eu tou velho.

Muitas coisas vão acontecendo à medida que você envelhece. O primeiro estágio é quando as conversas passam a ser sobre assuntos de faculdade, em vez da escola de antes. Depois, vemos todos os amigos falando sobre empregos — lembra como era estranho?

Depois veio a era dos casamentos. Todos os amiguinhos começaram a se casar. Houve uma época em que isso era estranho (“nossa o fulano casou!!!!!”); já hoje parece que TODOS os meus amigos são casados. E agora, todos estão tendo filhos a respeito dos quais eu sou informado através de dois milhões de fotos no Facebook por dia.

Mais cedo ou mais tarde (mais tarde, se possível) chegaremos na era em que nossos pais, artefatos da geração antes da nossa, começam a morrer. E algum tempo depois disso, seremos nós mesmos.

Em um período intermediário dos nossos pais e nós mesmos, veremos ídolos já em avançada idade batendo as botas. E estes são os que mais me deixarão triste quando eu descobrir da sua morte.

Stan Lee

stan lee

Stan Lee é simplesmente lendário. O cara foi responsável por criar todo um universo de heróis de quadrinhos (com participação do Kirby e do Ditko, sim, eu sei!) que estão mais populares hoje do que jamais foram antes. Ele essencialmente transformou a Marvel, que era uma pequena editora, numa imensa empresa de criações multimídia.

O cara já era idolatrado pelos nerds de quadrinhos; nos anos 2000, seus cameos obrigatórios em filmes de super heróis cimentaram no mainstream a persona do cara como o velhinho gente boa que nos deu aqueles personagens.

O cara tá com 91 anos. A julgar pelas suas aparições na mídia, tá super bem. Mas eu já me preparo psicologicamente pro dia em que noticiarão sua morte.

Stephen Hawking

Stephen Hawking arrives in Hong Kong

Volta e meia a raça humana é abençoada com pessoas que elevam o nosso conhecimento a níveis completamente absurdos. Tivemos Isaac Newton, por exemplo, que eu considero o sujeito mais inteligente que já pisou neste planeta. Veio também o Louis Pasteur, que transformou o leite num alimento delicioso e saudável (antes da pasteurização um copo de leite era praticamente um tubo de ensaio de bactérias). Einstein é um exemplo óbvio.

E o Stephen Hawking está do lado desses caras.

A história de superação dele é praticamente matéria-prima pra lendas. Nos anos 60 o cara foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica, e deram 2 anos de vida pro cara. O cara mal tinha completado 21 anos e recebeu uma sentença de morte.

Hoje, 5 décadas depois, o Stephen Hawking ainda tá aí. É bastante provável que tenha sobrevivido aos médicos que deram seu diagnóstico, e não apenas “sobreviveu” — o cara revolucionou o que conhecemos sobre física e o universo. Sabia que até livros infantis ele escreveu — e podendo mexer basicamente apenas alguns dedos?

Eu nunca comentei isso aqui no site, mas foi justamente seus livros mais populares no mainstream — Uma Breve História do Tempo e O Universo Numa Casca de Noz foram grandes inspirações na minha vida acadêmica (cursei bacharelado em Física no Brasil, antes de largar o curso por causa da imigração pro Canadá).

Hawking tá com 72 anos — o que não parece uma idade tão avançada, até que você considera os inúmeros problemas de saúde que ele tem. É como se eu ou você vivessemos até os 200 anos.

Sílvio Santos

silvio

Se você nasceu no território nacional eu não preciso gastar adenosina trifosfato digitando aqui a biografia deste que eu considero o grande empreendedor brasileiro. Sílvio Santos é simplesmente um colosso. E em pensar que quase tivemos este homem como presidente.

Nascido em lar humilde, o maluco trabalhou como camelô aos 14 anos e hoje tem um patrimônimo de R$ 2.7 bilhões de reais. Eu ouviria QUALQUER conselho dele, o empresário claramente sabe o que faz. Se ele falasse que eu tenho que começar a fazer review de maquiagem no meu canal, no dia seguinte eu estaria lá fazendo vídeo de haul da Sephora.

Mas o cara não é apenas rico. Grandes merdas ser rico, o Donald Trump também o é, e é um filho da puta insuportável. O esquema do Sívio é que além do tino comercial, ele tem um incrível carisma — tanto que é não só o dono da emissora como também um dos principais e mais amados apresentadores dela (algo que até onde sei é inédito no mundo).

A geração mais nova talvez não saiba, mas cês tão ligado que até disquinho com histórias infantis o maluco gravou?

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Essa foto é da coleção da minha avó, que comprou todos para os meus tios quando eles eram crianças. Só de passear pela pasta onde salvei essas fotos, aliás — Ida ao Brasil (2009) — me bate uma saudade incontrolável da minha família.

O Sílvio tá com 83 anos. Muita energia e saúde ainda, a julgar por suas participações nos programas do SBT, ainda bem.

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Como um usuário hardcore da plataforma iOS, eu experimento inúmeros aplicativos numa busca incessante de apps que melhor atendam às minhas necessidades. Por causa disso, estou sempre compartilhando no Twitter screenshots de apps e comentando sobre suas funções.

O resultado disso é que eu virei uma espécie de expert acidental em apps de iOS. Todo dia, literalmente TODO DIA alguém me manda mensagens perguntando qual o melhor app pra fazer isso ou aquilo. Então, resolvi fazer o texto que vocês tanto pedem!

Pocket (Digrátis)

Photo 2014-10-18, 4 06 36 PM

Antigamente chamado “Read It Later”, o app serve exatamente para aquilo que o antigo nome descrevia — tu joga lá links interessantes pra ler mais tarde.

Há extensões pra todos os navegadores, então quando tu abre aquele post particularmente interessante mas que tá sem tempo de ler no momento, basta clicar num botão no browser pra enviar pro app.

Tudo bem que o app acaba virando um tupperware internético (isso é, tu joga coisa lá e nunca mais confere), mas com alguma disciplina o Pocket é uma ferramenta daora pra ir aniquilando aquelas cinquentas abas abertas no Chrome que você prometeu pra si mesmo que no fim de semana finalmente lerá.

ComicZeal (US$4.99)

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Esse aqui é O app pra ler HQs. Não há aplicativo melhor em nenhuma loja virtual (e sim, eu procurei no Android também — tive um Nexus 7 por duas semanas. Longa história).

Basicamente, o ComicZeal te permite ler quadrinhos em formato .cbr/.cbz, que é basicamente o .mp3 das revistinhas: o formato padrão da internet. Organiza as séries direitinho (seja lá de onde você tenha baixado os quadrinhos) e tem todas as features que você precisa — que não são lá muitas, afinal de contas, o app é só pra ler quadrinhos né.

Entretanto, ele tem uma função que não vi em nenhum outro: se você der um certo nível de zoom na página e segurar por dois segundos, o app trava todas as próximas páginas nesse mesmo nível de zoom. Assim, você consegue maximizar a área dos painéis e remover bordas das páginas.

Com o iPad, eu leio vendo a página inteira, então a função é bacana mas não tão necessária. No iPhone 6 Plus, ela é ESSENCIAL. A propósito, decidi que a melhor forma de ler HQ no iPhone 6 Plus é dando um pan de cima pra baixo, assim:

Photo 2014-10-18, 6 16 54 PM

Vou dar um exemplo do esquema de travar o zoom. Tá vendo essa mínima borda aí na lateral? Ela foi reduzida graças ao nível de zoom que eu setei. A página na íntegra é assim:

Photo 2014-10-18, 6 14 19 PM

Na tela do PC parece que não faz muita diferença, mas lendo numa tela pequena esse nível de zoom mostrando tanta borda atrapalha um pouco a leitura, porque exibir a página inteira dessa forma torna os diálogos fiquem menores.

Em todo app de quadrinho tu pode mexer no zoom da página, mas o ComicZeal é o único que mantém esse nível quando você passa de página. Isso é uma killer feature, confie em mim: ficar reposicionando o zoom a cada virada de página enche o saco.

(Pelo menos na época que fiz a decisão definitiva pelo ComicZeal, nenhum outro app tinha isso. De repente é capaz que hoje eles tenham)

TeamViewer (Digrátis)

Photo 2014-10-18, 4 10 06 PM

Certamente você talvez tenha pensado “Mas Izzy, por que você mostrou um screenshot do seu PC? Este é o post de APPS DE I-PHONE™ e você está colocando um app de Windows. Isso é uma trapaça, e eu não pago o seu Patreon pra este tipo de desonestidade!”

Então, isso é um screenshot do iPhone, sim. Estou rodando o TeamViewer, que permite que eu controle minhas máquinas remotamente. Isso é uma mão na roda INACREDITÁVEL que já salvou minha vida inúmeras vezes.

Ou é apresentação de trabalho que eu esqueci de anexar a um email, ou um recibo de passagem aérea que eu imprimi e esqueci na impressora, ou um protocolo de matrícula da faculdade que eu enviei pra mim mesmo por email mas a formatação ficou toda cagada, vídeo que eu deixei upando no YouTube quando saí de casa mas que deu erro, já passei por várias situaçoes em que precisei logar remotamente no meu PC pra resolver de um pepino.

E na tela acima, como você pode ver, eu poderia até mesmo dar ajustes na edição de um vídeo através do Vegas. Funciona melhor do que você deve estar imaginando, porque eu já tive que fazer isso. Um dos QDIs foi parcialmente editado pelo meu celular enquanto eu esperava que minha mulher experimentasse roupas numa loja. True story.

Uns 4 ou 5 anos atrás, as soluções semelhantes exigiam configurações chatíssimas de VNC e tal. O TeamViewer por outro lado é super descomplicado.

Duolingo (Digrátis, e olha que podia facilmente ser pago pela qualidade e utilidade do serviço que ele oferece)

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Já recomendei o Duolingo aqui uma vez, e ele merece facilmente entrar neste post. Basicamente, este app é um curso grátis de línguas na palma da sua mão. A versão mais recente até mesmo te permite treinar a pronúncia, como mostrei no screenshot acima.

O Duolingo é simplesmente incrível. Recomendo com muita força a todos.

Evernote (Digrátis)

Photo 2014-10-18, 4 11 49 PM

O Evernote é um caderno de anotações online que sincroniza suas notas em todos os seus aparelhos — no meu caso, rascunhos dos posts aqui do site e scripts do QDI, que eu escrevo no PC e leio do iPad, usando-o como um teleprompter rudimentar.

Pra melhorar tudo, os caras do Evernote disponibilizaram uma nova interface web limpinha, sem muitas distrações, que eu acho excelentíssima pra manter o foco. É uma ferramenta que eu assino embaixo MESMO.

Se você gosta de escrever, ou está fazendo algum curso, o Evernote é basicamente obrigatório.

Que app você me recomendaria?

A parte 1 tá aqui, caso você já tenha esquecido. Continuando os jogos que marcaram minha vida, sem nenhuma ordem de preferência.

the dig

The Dig

The Dig é tão merecedor de estar nesta lista quanto Full Throttle, ou talvez até mais. Este point and click adventure classiquíssimo conta a história de 3 astronautas (originalmente 4, mas isso foi alterado na versão final do jogo) que, ao tentar salvar a Terra de um asteróide errante — 3 anos antes de Armageddon, vale ressaltar! — são transportados pra um planeta distante e abandonado. Resolvendo puzzles ao longo do caminho, os 3 vão descobrindo o que aconteceu com o planeta e seus habitantes, além de arrumar uma forma de voltar pra casa.

Eu adoro sci fi, adoro contos de pessoas presas em locais inóspitos e distantes (estou lendo The Martian neste momento, que trata bem disso, e irei em breve resenhar procês!). The Dig é um jogaço, e o fato de que foi produzido pelo Steven Spielberg certamente te convencerá disso caso você já provavelmente não soubesse.

Plants vs Zombies

Existe um folclore corrente no 99 Vidas que narra a história de Easy Nobre, o jogador noob que nunca zerou nenhum jogo na vida. É verdade que hoje em dia meu TDAH complica bastante de me envolver profundamente com um jogo a ponto de zera-lo (especialmente os jogos recentes), mas essa brincadeira é um patente exagero. Um exemplo disso é Plants vs Zombies.

Em Plants vs Zombies (cujo nome original seria Lawn of the Dead, até o George Romero implicar legalmente com a paródia) você usa vegetação armada pra combater os mortos-vivos. O visual cartunesco é muito charmoso, o gameplay é daqueles que praticamente te obriga a jogar “só mais uma fase” até perceber que já são 3 da manhã, e o jogo tem bastante replay value.

Eu devo ter zerado esse jogo umas 5 vezes — uma pra cada plataforma onde eu o joguei. O clássico de tower defense é um daqueles jogos que leva inúmeros prêmios e você acha merecidíssimo. Uma pena que a franquia foi sequestrada pela EA, que a transformou num caça-níqueis freemium odiável.

(Eu não era mais criança quando joguei PvZ mas entra merecidamente nesta lista)

Heroes of Might and Magic III

Existem dois tipos de pessoa pra mim. Pessoas que gostam de Heroes or Might and Magic 3, e pessoas que eu simplesmente não quero na minha vida.

Conheci a série através do segundo jogo da franquia, mas foi o terceiro que eu realmente joguei PRA CARALHO. E quando eu digo PRA CARALHO, estou querendo dizer que devo ter jogado entre 500 e 600 horas desse jogo ao longo dos anos. É possivelmente o jogo que eu MAIS joguei na vida; desde 1999 eu jogo PELO MENOS umas 2-3 horinhas toda semana. Só de descrever o jogo aqui me dá vontade de ir jogar.

HoMM 3 é um jogo de estratégia turn based, ou seja, tu faz teus movimentos, e depois o oponente faz os dele. Você começa num castelo de uma das 8 facções, cada uma tendo estratégia, unidades e habilidades diferentes. Tu vai explorando o mapa (lindamente ilustrado, diga-se de passagem), derrotando monstros e outros personagens centrais da história, conquistando recursos, e por aí vai.

Eu nem curto esse cenário de fantasia e ainda assim vou viciado no jogo, pra você ver!

Abuse

Esse aqui é bem underground, e realmente merece uma menção nessa lista. Abuse é um jogo de 1995 com uma premissa de controle que hoje é lugar comum, mas na época inovou o gameplay dos jogos de tiro — você controla o movimento do protagonista Nick Vrenna (um presidiário numa colônia penal futurista) com o teclado, enquanto aponta a mira dele com o mouse.

Era difícil de dominar no começo, mas rapidamente o gameplay se tornava muito intuitivo. O visual claustrofóbico, os monstros claramente inspirados no xenomorfo* de Alien, e principalmente os sustos que você levava tornaram a parada uma experiência gamer marcante.

Uma curiosidade é que o jogo saiu em 2009 pra iPhone com o nome Alien Abuse, feito por um cara que se aproveitou do fato de que o código do jogo é open source desde os anos 90. O problema é que Dave Taylor (um game dev famosinho que era um dos donos originais da empresa que fez o jogo) não gostou e armou treta com advogados a tiracolo e o jogo saiu da AppStore. Eu acompanhei o drama no fórum do Touch Arcade na época.

O próprio Dave Taylor lançou então Abuse Classic na AppStore — dois dólares mais caro, cheio de bugs, e o abandonou logo em seguida. Que filho de uma puta.

*Esse não é realmente o nome da criatura de acordo com o cânon do filme, mas deixa pra lá.

Sim City 2000

Só de ver esse screenshot eu já fico saudosista. Sim City 2000 foi, por muito tempo, aquele famoso jogo que você sempre ouviu falar mas nunca teve a oportunidade de jogar. Eu via as propagandas nas revistas de games (uma delas tinha uma tagline que dizia algo como “não aprova o trabalho do seu prefeito? Tome o emprego dele!” ou algo assim) mas nunca tive nem um demo da parada pra ver como era. As screenshots pixelizadas nas revistas era tudo que eu tinha.

Até que o famoso Tio Monte, que já mencionei aqui no site, apareceu um dia lá em casa com Sim City 2000 (além de outros jogos) num CD. E o resto é história.

A versão que ele me deu tinha o Urban Renewal Kit, e passei muitas tardes após a escola desenhando prédios em foram de piroca.

Você deve ter percebido que o gênero de estratégia é muito presente nessa minha lista, né? Sempre foi meu estilo favorito.

Agora me contem prontamente os seus 10 jogos que mais te marcaram!

Lá no 99 Vidas, cunhei a expressão “infância multiplayer”. Uso-a pra me referir a pequenos artefatos da nossa infância que todos compartilhamos, independente de condições sociais/culturais, religião e área em que moramos. Acredito que o apelo do 99 Vidas (que é até onde sei o maior podcast brasileiro tratando de games antigos e apresentado por dois cearenses e que traz 99 no nome) é justamente o fato de que games foram muito presentes na nossa infância multiplayer.

Tá rolando uma corrente em que usuários de mídias sociais falam um pouco sobre os 10 jogos que mais marcaram suas vidas. Durante a confecção deste post eu comecei a achar aliás que 10 é pouco pra alguém que foi basicamente CRIADO pelos games, como é o meu caso. Mas vamos lá então. Os jogos não estão em nenhuma ordem de importância, vou citá-los à medida que me lembro deles.

Super Mario World

Embora a lista não esteja em ordem de importância, ESSE tem que ser citado primeiro. Super Mario World moldou meu caráter, basicamente. Uma das coisas mais legais do jogo, pra mim, era o sistema de mapa que posicionava as fases em locais distintos, como se fossem cidades. Isso dava uma noção geográfica distinta; ajudava a visualizar a longa jornada do encanador italiano — e permitia democraticamente o seu direito de ir e vir de uma fase já conquistada pra outra anterior.

Conceitualmente, Super Mario World é quase perfeito. Um mascote carismático, uma evolução gráfica incrível do console predecessor, gameplay que se tornaria a métrica para o gênero, e uma trilha sonora literalmente inesquecível. Poucos jogos se comparam a SMW — mais precisamente, Super Mario World 2: Yoshi Island e a série Donkey Kong Country.

Command and Conquer

Até 1995, eu havia sido treinado a compreender games como “uma caminhada, da esquerda pra direita, de um protagonista que pega uns power ups e pula em cima/atira em inimigos, até chegar num ponto específico do mapa que então termina a fase”.

Uma das minhas Revistas do CR-ROM trazia um demo de Command and Conquer. Vendo os screenshots na matéria da revista (como era legal aquele formato, né? Ler sobre o jogo, depois instalar no PC pra ver qual era…) eu não consegui sequer ENTENDER o jogo. Quem sou eu aí? Tou vendo tanques, e bonequinhos, e aviões… mas qual eu controlo…?

Não tive interesse de instalar o jogo pra descobrir — além do fato de que ele requeria 50 mb, o que na época era um espaço absurdo no disco rígido.

Aí, algum tempo depois, fui na casa dos meu primo Eduardo. Lá vi-o jogando Command and Conquer em todo o seu esplendor e imediatamente eu me apaixonei por aquele gameplay. Cheguei em casa, procurei o CD com a demo do jogo, e instalei prontamente contrariando a regra do meu pai de não instalar jogos grandes.

Settlers 2

Foi difícil decidir entre Settlers 1 (também conhecido como Serf City); Settlers 2 acabou ganhando por dois motivos — primeiro, foi indubitavelmente o que eu mais joguei entre os dois. Segundo, porque é o que eu mais jogo atualmente (faz muito tempo que nem vejo o Settlers 1, aliás).

Settlers 2 é uma série icônica porém meio underground de RTS com um gameplay bem diferenciado: além de não controlar as unidades diretamente, você precisa estabelecer uma cadeia de produção eficiente e co-dependente.

É assim: quando tu começa tua cidade, cê precisa de materiais de construção — pedras e tábuas de madeira. Pra obter pedras, basta mineirar as pedreiras na região. Madeira é um pouco mais complexo; você precisa cortar árvores, e então levar as toras para madeireiras, onde elas serão então transformadas em tábuas.

Todos os produtos no jogo requerem níveis variados de processamento, e com isso você tem como resultado uma cidade bastante viva, com habitantes trabalhando e indo daqui pracolá com produtos embaixo do braço em variados estágios de produção. O fazendeiro colhe o trigo, um trabalhador leva o trigo pro moinho, onde você o vê sendo transformado em farinha. Outro cara leva a farinha pra padaria; um outro traz um balde de água.

O padeiro junta os dois e transforma em pão, que é então usado pra alimentar os mineiros que extraem carvão das montanhas. O carvão é então usado pra derreter minério de ferro e com isso, construir vigas que são usados pelo ferreiro e assim vai.

Parece loucamente complexo, mas nem é.

Full Throttle 

Assim como Command and Conquer abriu meus olhos pra todo um novo estilo de gameplay, Full Throttle me apresentou a um formato completamente inédito pra mim até então — o point and click adventure. Ou, como eu compreendia na época, o filme interativo.

Inicialmente eu não consegui sequer jogar Full Throttle. A versão que eu tinha veio com o meu kit multimídia importado, e portanto era totalmente em inglês. Não entendi a introdução, não entendi quem era quem ou o que queriam, não entendi porra nenhuma.

Um dia, sei lá como, pintou lá em casa um CD piratex com “Full Throttle” escrito à canetinha por cima (certamente oriundo de algum dos amigos técnicos de informática do meu pai). Sendo isso anos depois do primeiro contato com o jogo, pus no PC pra revisitar aquele game enigmático e, pra minha surpresa, tratava-se da versão brasileira, traduzida pela Brasoft.

Devo ter zerado Full Throttle 3 ou 4 vezes na vida, o que é relativamente impressionante considerando que há zero replay value no jogo.

Super Return of the Jedi

Os games da série Star Wars pro SNES se destacam por serem excelente jogos de plataformas baseados numa licença de filme, algo relativamente raro na indústria. Nem todo filme serve como adaptação pra jogo, e por causa disso você acaba visitando cenários e enfrentando bichos que nada tem a ver com a trama original. Talvez pela densidade do universo do George Lucas, isso acabou não sendo um problema quando converteram a saga pros jogos eletrônicos.

Este foi outro jogo que eu zerei incansavelmente. Sendo muito fã da trilogia original, era uma delícia passear pelos ambientes do filme. Descobri eventualmente um cheat code que permitia usar qualquer personagem em qualquer fase; embora não fizesse muito sentido ver um ewok chutando bundas na Estrela da Morte, eu achava divertidíssimo.

Essa é a primeira parte dos 10 jogos que marcaram minha infância. Aguarde que em breve sai a segunda parte.

Não sei se é por causa da chegada da adultice (mano, em menos de 2 meses eu completo 30 anos…) ou por saber que os textos com os quais vocês mais se identificam são os em que eu choramingo por causa da infância que ficou pra trás, mas eu ando muito nostalgico ultimamente.

Volta e meia me surpreendo discutindo com meu irmao ou com amigos MSNísticos sobre os “bons tempos” que deixamos pra trás. Tempos em que nao precisavamos pagar contas, ou impostos, ou parcela do carro, ou aluguel, nem tínhamos que ocupar nossa mente com a aflição de decidir uma carreira ou se preocupar patologicamente em se tornar bastante bem sucedido pra que bata aquela característico arrependimento sua ex-namorada cada vez que ela se atrever a visitar seu perfil no Facebook.

Como sinto saudade daqueles tempo quando nossas únicas preocupações eram achar uma revista com cheat codes pra Duke Nukem 3D e chegar em casa a tempo de assistir o finzinho de Carrossel (pra quem estudava de tarde, como eu)!

Minha mãe não mentiu pra mim — a infância realmente acaba quando menos se espera. Quando eu era mais novo, a matriarca Nobre vivia me alertando a respeito de aproveitar bastante a infância. Assim como pilhas AAA, meias sociais e o telefone daquela garota da faculdade que te dá o maior mole, a sua infância desaparece quando você mais precisa dela.

Eu não prestei muita atenção no que minha mãe dizia porque eu estava ocupado aproveitando a minha infância, mas a mensagem tem seu valor de qualquer forma.

Você aí, leitor de dezesseis anos de idade, sem dinheiro, possivelmente virgem, e absolutamente desesperado com a certeza de que não passará no vestibular numa faculdade federal e que apanhará em casa quando chegar no dia seguinte tentando convencer os pais que cursar uma faculdade particular é uma idéia melhor — estou falando contigo. Olhe em sua volta.

Essa casa confortável em que você mora? O dia chegará em que esse conforto te custará esforço e dinheiro, e o estado de conservação e organização dela ficará por sua conta. Sua comidinha sempre posta na mesa no momento que o relógio da sala bate o meio dia? Bem, espero que você goste de nissin miojo, porque é isso que você comerá por alguns meses quando sair de casa pra tocar a vida por conta própria. Essa internet que você se acostumou a usar com uma frequência diária que a “minha geração” (discadona 56kbps na veia) só podia sonhar a respeito? Ela não é grátis.

Aproveite enquanto dá, porque esse free ride vai acabar um dia. Confie em mim.

Ai meu deus do céu, eu tenho muita saudade de ser criança, puta que pariu. Mas isso não significa que as lembranças dos tempos dourados estão eternamente relegadas ao pretérito perfeito. Pelo contrário: é justamente essa choradeira papo-de-velho que faz as experiências infantis parecerem muito mais gloriosas do que realmente eram. E por causa disso irei neste texto relembrar relíquias do passado que alguns de nós compartilhamos, e alguns de vocês jamais terão o excelentíssimo prazer de não apenas ganhar de Natal, mas de trazê-lo pra escola (sob risco de confiscamento por professores fascistas) pra provocar admiração e inveja nos amiguinhos escolares.

Acompanhem-me por mais essa viagem pela minha incrivelmente desinteressante infância!

pense bemPense Bem

A Promessa

Educar crianças na emergente “rodovia digital” que aparecia no horizonte e acostuma-las a lidar com esses tais de computadores.

A Realidade

Era essencialmente uma calculadora com botões coloridos, num formato que vagamente lembra um computador. “Mais que um brinquedo, quase um computador!” Quem não lembra desse safadíssimo slogan? Eu certamente lembro, porque foi ele que me levou a atormentar meus pais diariamente por três ou quatro meses até que eles decidissem que a única forma de me silenciar seria comprar essa merda pra mim no próximo Natal.

O que era o Pense Bem? O Pense Bem era um brinquedo eletrônico fabricado pela Tec Toy no começo dos anos 90.  Apesar da propaganda evidentemente enganosa, o Pense Bem era exatamente o que alegava não ser (um brinquedo), e estava muitíssimo longe de ser aquilo com o qual eles o comparavam (um computador). O Pense Bem era um computador na mesma proporção que um relógio de pulso é um computador.

Talvez “Pense Bem, O COMPUTADOR DE BRINQUEDO” fosse uma chamada mais comercialmente honesta, mas perdia totalmente o apelo semi-tecnológico tão característico dos anos 90. Em outras palavras, a única coisa que o Pense Bem tinha em semelhança com um computador é que ambos são escritos com auxílio da letra M.

Além de primitivas funções musicais que me permitiam reproduzir 20% da música tema de Jurassic Park para o fictício deleite de meus pais, o “computador” tinha algumas atividades matemáticas (o aparelho jogava uma adição/soma/divisão/subtração com um dos fatores como incógnita, e você tinha que descobrir a resposta. O outro joguinho era essencialmente um “descubra a média aritmética entre estes dois números!”), um joguinho de memória no estilo Simon Says, e alguns outros badulaques que se perderam na minha memória. Um das brincadeiras mais interessantes do troço eram os livros de atividades. Livrarias e lojas de brinquedos na época vendiam livros com perguntas sobre os mais variados assuntos; ao digitar um código de 4 dígitos que aparecia na contra-capa do livro, você podia então usar o Pense Bem pra responder as múltiplas escolhas de cada pergunta.

Eu tinha vários livros com personagens da Disney, livros sobre Astronomia, Biologia, e um bizarríssimo “Livro Pense Bem Plebiscito”, talvez produzido na esperança de educar a molecada sobre aquele plebiscito de 1993. Ganha três reais quem adivinhar qual era o meu livro menos favorito, que eu eventualmente acabei trocando na escola por algum boneco qualquer dos Comandos em Ação.

Apesar de obviamente não atingir as expectativas criadas pelas propagandas enganosas, a posse do meu Pense Bem me proporcionou popularidade jamais antes vista na escola — até o momento que meus amiguinhos perceberam que a parada era simplesmente uma calculadora com botões coloridos e LCD vermelho, e deixaram de dar atenção ao meu brinquedo. Isso é o que devem chamar de “quinze minutos de fama”, apesar de que no meu caso ficaram faltando os outros catorze.

Que fim levou?

Eu me lembro como se fosse ontem — eu havia passado o dia inteiro provocando meu irmão de maneiras juvenis e bastante engraçadas pra todo mundo exceto pra ele. O moleque se emputeceu de vez, catou o primeiro objeto que viu pela frente (um sapato) e arremessou-o e minhas direção com motivação homicida. Meus refletos apurados me permitiram desviar do projétil de uma forma que seria plagiada anos mais tarde no longa-metragem Matrix.

Escapei do atentado, mas o objeto inanimado que estava bem atrás de mim não teve tanta sorte. O sapato acertou meu Pense Bem em cheio, destruindo a tela do aparelho. Liguei o bicho pra testa-lo e percebi que a tela ainda estava de boa, era só o plástico que a cobria que rachou no meio. Menos mal.

Chilitos

A Promessa

“É a mesma coisa que XÍTOS, meu filho. Só que é mais barato!” dizia minha querida vovó. E eu sei que não é brinquero, mas eu deixei tanto resíduo de Chilitos nos meus brinquedos que ele se torna um brinquedo honorário.

A Realidade

Ela estava certa. Chilitos tinha o mesmo sabor que Cheetos. Isso é, num mundo alternativo em que Cheetos era fabricado inteiramente com isopor e cola escolar.

“Que demônios é Chilitos?”, você está perguntando a si mesmo retoricamente. Bem, meu amigo, eu compreendo sua ignorância. Duvido muito que alguém que tenha vivido fora do glorioso estado do Ceará durante toda sua vida tenha a menor chance de entrar em contato com CHILITOS.

E você não sabe o que estava perdendo. Chilitos era um salgadinho comumente vendido nas mercearias nos arredores do Jardim América/Montese, que é a área onde minha avó mora. Pra você ter uma idéia da natureza underground da parada, Chilitos era vendido em sacos plásticos transparentes selados com nada mais nada menos que ligas elásticas do tipo que alguém usa pra projetar um pedaço de papel contra a orelha de um amiguinho.

Não havia nenhum tipo de informação na embalagem — não tinha nome, nem logotipo da empresa fabricante, peso, valor nutricional (AHAHAHAH até parece), absolutamente nada. Aliás, a própria alcunha do produto era essencialmente folclore regional, passado de boca a boca, já que não havia na embalagem nada que sequer sugerisse que a pessoa que o produziu se preocupou em dar um nome à criação. Tudo sugeria que o tal do salgadinho era fabricado caseiramente em algum muquifo do bairro, utilizando todos os métodos clandestinos possíveis.

E se o sabor da parada oferece alguma pista, é que os Chilitos eram fabricados por complexos processos alquimísticos que transformavam isopor, papelão e corante amarelo em um item alimentício que poucas pessoas nesse planeta tiveram a honra de experimentar. Ainda não está convencido da undergroundzice da parada? Mencionei que o salgadinho custava DEZ CENTAVOS? Bom, agora mencionei.

Ir à casa da minha vó e não comer Chilitos como lanche vespertino era como ir a Paris e não tirar uma foto na frente da Torre Eiffel usando uma camisa da seleção e em seguida uploadear no Facebook com uma legenda que lê “EU EM PARIS, SOH PRA KEM PODE”.

Usei imagem de um salgadinho Fofura porque é o que temos hoje como referência de Cheetos genérico, foi impossível achar um registro do Xilito em formato jpg. Só que o Fofura já é uma parada de produção super formal e industrializada. O único valor de produção do Chilitos é que eles vinham com dinheirinho de brinquedo dentro do saco, que a molecada colecionava. E não tinha dentro de um pacotinho selado nem nada, era um dinheirinho estilo Banco Imobiliário enfiado dentro da parada da forma mais precária imaginável.

Que fim levou?

Assim como todos as outras porcarias alimentícias que eu ingeria impunemente quando moleque, os Chilitos que eu consumia avidamente enquanto assistia Chaves sentado na sala da casa da vovó se manifestaram na forma de um dos mais poderosos casos de caganeira em toda a história humana registrada. Se bem que, por dez centavos, até que valia a pena. Sem contar no valor agregado da possibilidade de não dar descarga e surpreender o próximo visitante do banheiro com fezes amarelas.

Ferrorama

A promessa

Realize seu grande sonho — seja um engenheiro ferroviário, caso você seja uma criança estranha. Baterias não incluídas.

A realidade

Nesse caso não houve decepção alguma: o Ferrorama era exatamente o que se propunha a ser, supondo que a palavra “propunha” exista na língua portuguesa, porque eu sinceramente não lembro dessa palavra e estou com uma ligeira sensação de que acabei de inventa-la.

O Ferrorama foi apenas um em uma longa série de brinquedos que meu pai queria muito obter, mas disfarçava como presente pra mim e pro meu irmão na esperança de não ouvir reclamações da minha mãe.

Meu pai, que nunca vai deixar de ser uma criança no que diz respeito a brinquedos, nem mesmo esperava um evento de costumeira troca de presentes pra aparecer com algum pacote debaixo do braço. Ou seja, nem meu aniversário era — eu chego em casa e lá estava ele sentado na sala, montando os trilhos do brinquedo e com um sorrisão na cara. “Pra você ó, Israel”, disse ele enquanto mal tirava os olhos da parada, todo animado com o prospecto de sua ferroviária em miniatura.

Quando ele finalmente cansava de brincar com a parada e ia fazer algo mais proveitoso, eu e meu irmão tomavam o lugar dele. Livros viravam suporte pra pontes. Travesseiros viravam túneis. As grossas colunas de madeira que sustentavam a mesa de jantar da sala viraram enigmáticos cânions, perigosamente estreitos, do alto dos quais um solitário tusken raider caça droids pra revender pro mercado negro dos jawas.

Não havia limites pra imaginação — lembro que um dia joguei um ônibus de brinquedo no meio dos trilhos e impiedosamente atropelei-o com a locomotiva, a fim de emular aquela cena de O Fugitivo, que estava em cartaz na época e cuja cena de destruição ferroviária featuring Harrison Ford e um gordo aleatório atiçaram minha imaginação infantil.

(Já mencionei isso inúmeras vezes aqui e no mveu vlog — uma de minhas taras infantis era usar meus brinquedos pra reproduzir cenas de filmes, chegando até a deitar no chão e fechar um dos olhos, pra simular o ângulo da câmera na tomada e tudo)

Vou deixar uma coisa clara aqui. “Brincar com Ferrorama” é uma expressão que não faz muito sentido. Você montava o trilho, ligava o trem, e pronto. Acabava aí a sua interação com o brinquedo. Seu primo Autorama ao menos era controlado diretamente pelos pirralhos com o controlinho na mão, dava pra apostar corrida e tudo.

Já o Ferrorama por outro lado era totalmente automático. Você sentava e assistia o trenzinho atravessar o percurso dele por horas até as pilhas acabarem ou sua mãe descobrir que você não apenas não arrumou o quarto como era condição de brincar com o Ferrorama, mas ainda roubou pilhas de outros eletrodomésticos pra liga-lo.

Apesar disso, a parada era inexplicavelmente viciante e divertida.

Que fim levou?

Quem teve Ferrorama lembra que aquelas pecinhas nas extremidades de cada trilho que permitiam a conexão entre os mesmos quebravam com muita facilidade. Some isso ao fato de que graças às nossas inúmeras mudanças, a caixa do brinquedo foi perdida e tivemos que guardar os trilhos dentro de um imenso saco plástico que era frequentemente derrubado no chão ou pisoteado em momentos de desatenção.

O resultado dessa infeliz mistura é que nossos trilhos não se conectavam mais com muita firmeza, impossibilitando que eu revisitasse outras cenas cinematográficas clássicas de desastres de trens.

Walkie talkies

A promessa

A mágica da telecomunicação a seu alcance! Agora você pode coordenar à distância suas estratégias de apertar campainhas dos vizinhos e sair correndo!

A realidade

Morei por três anos no Paraná, e como cumprimento de alguma lei estadual paranaense meus pais iam anualmente ao Paraguai comprar nossos presentes de Natal.

Em dezembro de 1993 havia uma única caixa embaixo da nossa árvore, e meus pais me avisaram que o presente “era pra nós dois”. Eu e meu irmão nos entreolhamos desconfiadamente. Essa estratégia de “o presente é pros dois” é um dos truques mais velhos do livro de truques de pais mãos-de-vaca.

Dessa vez ao menos o presente podia ser razoavelmente dividido pros dois, já que se tratava de um par de walkie talkies.

Como manda o roteiro de brinquedos chineses vendidos no Paraguai, nossos comunicadores portáteis pessoais eram de baixíssima qualidade. O auto-falante tornava nossas vozes praticamente irreconhecíveis, e a péssima recepção só viabilizava a brincadeira se estivéssemos praticamente um ao lado do outro.

Ou seja, era essencialmente o mesmo que usar duas latas e um pedaço de linha de costura, porém pior.

Mas isso não nos impediu de imitar as melhores cenas de nossos filmes infantis favoritos, em que os protagonistas juvenis utilizam walkie talkies pra desenrolar algum plano elaborado contra adultos ou coisas parecidas. Infelizmente a única coisa que sabíamos fazer na época em matéria de traquinagem em grupo era tocar campainhas e sair correndo. Adicionamos os inteiramente dispensáveis walkie talkies na brincadeira e tudo parecia mais legítimo e profissional.

Pior que eu não sabia nem utilizar a parada direito, a despeito da simplicidade do brinquedo. Como em todo walkie talkie, os nossos tinham botões pra se comunicar em código morse, o que é mais ou menos uma admissão do fabricante de que ninguém poderia usar o brinquedo de forma satisfatória usando a própria voz.

Acontece que eu não tinha a menor idéia do que era código morse e achava que a função servia pra irritar o seu interlocutor, já que ele cortava a fala dele no meio. Só descobri o que era o código anos depois, após ler o Manual do Escoteiro Mirim de um primo.

Mas aí já era tarde demais, porque…

Que fim levaram?

…no ano seguinte, um vizinho me fez o favor de destruir meu walkie talkie. Sem motivo aparente, o garoto girou o botão de volume até a última casa e além. Quando ouvi o característico “plec” que indica plástico quebrando e notei que o botão girava livremente na mão do moleque, sem a familiar resistência provocada por travas mecânicas dentro do aparelho.

Só o libertei de uma firme chave de braço mediante à promessa de que ele explicaria a situação pra mãe dele e me presentearia com um novo walkie talkie, se possível dentro de 24 horas.

O moleque nunca mais falou comigo, e por muita infelicidade se mudou do bairro pouco tempo após esse incidente. Se seu nome é Marcel e você morava na Rua Marília no bairro Jardim Veraliz e estudou no Colégio Adventista em Londrina, VOCÊ ME DEVE UM WALKIE TALKIE PORRA. Dois aliás, porque a destruição de um tornou o outro inútil.

Isso porque eu tou sendo gente boa. Se eu fosse ajustar a inflação e os juros de todos esses anos, essencialmente você me deveria uma Ferrari.

Hoje, na era da telecomunicação instantânea em aparelhos portáteis, acho que walkie talkies perderam totalmente seu appeal.

Armatron

A promessa

Um braço robótico mais ou menos portátil controlado por você. Essencialmente, o Santo Graal dos brinquedos nerd dos anos 80/90.

A realidade

O Armatron é essencialmente o motivo pelo qual eu sempre perdoarei meus pais por suas inúmeras falhas como progenitores. Tenho certeza absoluta que meu pai comprou o brinquedo pra si mesmo, mas já que isso resultou no privilégio de ser um dos poucos moleque sque sequer chegaram a ter contato com a parada, considerarei como se tivesse sido um presente pra mim mesmo assim.

Produzido pela americana (e extinta) Radio Shack, o Armatron era na verdade um jogo. Tá vendo aquela caixinha plástica ali, com as bolas azuis e tal? Então. O objetivo da parada era abrir a caixa, remover os itens de dentro dela, posiciona-los numa outra base plástica, e fechar a caixa. Tudo cronometrado pelo timer mecânico do braço robótico.

Tá vendo aqueles quadradinhos alaranjados na frente dos controles analógicos que moviam o bicho? Então, usando um disquinho plástico você setava um número qualquer de quadradinhos, que funcionavam como um contador. A cada minuto um quadradinho ia embora, e quando o último quadradinho se passasse, o Armatron se desligava.

Assim, você decidia o nível de dificuldade da brincadeira. O que era muito legal pra impressionar os amiguinhos que se matavam pra completar a tarefa no tempo máximo permitido, enquanto você os empurrava pro lado e completava tudo em menos de um minuto. Um precursor do que, anos mais tarde, veio a se tornar minha forma favorita de jogar Pump it Up/Guitar Hero/Rock Band — se exibindo pros amigos com menos coordenação motora.

Pra ser ainda MAIS filho da puta, eu às vezes tirava dos controles o adesivo que explicava como operar o braço robótico, deixando meus amigos ainda MAIS na merda.

Como regra obrigatória que rege brinquedos, gambiarras e badulaques em geral, as pequenas pecinhas adicionais que compunham o aspecto de jogo foram perdidas em pouco tempo. Não que isso fosse um grande problema, porque o simples ato de controlar o Armatron era divertidíssimo.

Se você não teve a oportunidade de receber um Armatron de presente durante sua infância, isso significa que seus pais não te amam e/ou que você foi o resultado de uma gravidez acidental.

Uma das coisas mais curiosas sobre o Armatron é que ele era quase inteiramente mecânico. Havia um único motor na base, e ao usar os controles você ativava e desativava engrenagens que transmitiam os movimentos ao longo do braço. Como resultado disso, ele fazia um barulho do caralho:

Outro comentário digno de nota é que meu pai, que por muitos anos atuou como técnico em eletrônica, ficou um dia de saco cheio de gastar dinheiro comprando pilhas pra essa porra. Ele desmontou o bicho, sacou qual que era a potência requerida, e soldou no brinquedo uma entrada pra um carregador que ele tinha sobrando no quartinho de badulaques que era meio que uma pequena oficina eletrônica.

O Armatron passou a funcionar inteiramente independente de pilhas a partir desse dia; meu pai, sendo muito perfeccionista, deu um acabamento MEGA profissional à entrada do carregador; parecia realmente feature nativo do brinquedo.

Que fim levou?

Acabamos presenteando um primo meu de Fortaleza com o Armatron, creio que porventura da vinda ao Canadá, que limitava muito o que podíamos trazer. Até onde me consta, funciona até hoje.

Essas foram algumas das coisas que marcaram meus anos juvenis. O que te causa mais saudade a respeito da sua infância perdida? Os comentários tão aí pra isso.

do contra

Já deixo claro no começo do texto o seguinte disclaimer: esse post vai ser chato pra caralho. Ao continuar lendo, você está se sujeitando voluntariamente a ele, e está abrindo mão do direito de se sentir putinho e revoltado.

Eu vivi a vida toda me sentindo um cara estranho, diferente, meio marginalizado. Era um nerd magricelo que gostava de videogame e quadrinhos numa época em que não tínhamos uma sitcom sem graça regendo o mundo a aceitar nerdice como algo cool, por exemplo. Isso cimentou em mim, desde criança, aquela sensação de não pertencer ao grupo.

Outra parada que contribui pra isso é que tenho hábitos alimentares estranhos que sempre fazem as pessoas levantar as sobrancelhas (“Você não come NENHUMA verdura? Que coisa mais estranha. E esse miojo com batata palha? Que porra é essa, mano? Se não é ilegal, bem que deveria ser!” é uma reação comum quando alguém fala comigo sobre comida).

Tem outros exemplos bons também mas eu tava jogando Blackthorne do SNES, que é foda pra caralho, e agora eu esqueci tudo; o ponto é que quase toda a minha vida eu me senti isolado da maioria das pessoas porque meus gostos nunca batem com os das pessoas ao meu redor.

E se sentimento é exacerbado quando vejo pessoas próximas de mim falando animadamente sobre isso ou aquilo que aparentemente é muito importante pra eles, e eu não consigo me interessar nem fazendo força; nem fingindo falsa admiração só pra ser cortês. Por exemplo…

The Big Bang Theory

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Vou ser sincero: na primeira vez que vi a série, achei o maior barato. Um seriado de dois nerds baixinhos e franzinos, definitivamente fora do padrão convencional de beleza, falando detalhadamente sobre filmes baseados em quadrinhos e emuladores?! Incrível. Jamais esperava que algo daquele naipe caísse no gosto popular. Que época excelente pra ser um nerd!

…só que aí eu comecei a prestar mais atenção no seriado. Na realidade, The Big Bang Theory não é de fato um seriado nerd, ou sequer inteligente. O seriado capitaliza exclusivamente no fato de que cultura nerd está em alta, e como os nerds salivam pavlovianamente e batem palmas feito focas retardadas quando ouvem qualquer termo geek que eles reconhecem (NINTENDO 64, EU SEI O QUE É ISSO!!!1111), as piadas são completamente dispensáveis no seriado.

Basta mencionar algo que eles conhecem e pronto — “MELHOR SERIADO DO MUNDO MEU DEEEEUUUSSSS”.

Veja esta cena, como melhor exemplo dos clichês “humorísticos” da série:

Auto-explicativo. Sheldon, o típico personagem semi-autista misantropo que a internet adora endeusar por motivos que apenas revelam nossa própria mongolice coletiva, fala pra Penny que está “jogando Mario 64 num emulador mal programado de Nintendo 64”. Entram as risadas enlatadas e a automática aceitação do seriado pelo demográfico (que se auto-entitula) nerd.

Aí que tá. Por que cargas dágua dizer que está jogando emulador deveria provocar risadas, exatamente…? Qual a piada ali…? Não houve piada alguma. Imagina você chegar no seu amigo, perguntar “o que tu tá fazendo, Raimundo?”, “rodando Megaman X no meu PSP”, e em seguida alguém que esteja presenciando esse diálogo cair nas gargalhadas.

Talvez seja por isso que The Big Bang Theory, assistido sem as risadas de fundo, é 0% engraçado e 100% constrangedor.

Futebol

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Com uma única exceção — aquele intervalo de 4 em 4 anos quando nossa nação é reconhecida como melhor no mundo em alguma coisa, ainda que essa “alguma coisa” seja simplesmente louros passados porque faz umas 3 Copas que nossa Seleção tá uma bosta –, eu cago e ando pra futebol. E olha que nem na Copa eu me interesso tanto assim.

Não consigo me importar. Sempre atribuí esta indiferença pelo fato de que meu pai é igualmente alheio a futebol, e por isso não tive nenhuma influência familiar me inspirando a torcer pra este ou aquele clube.

Eu simplesmente não consigo me importar. Não consigo ver qualquer importância nas competições furiosas entre torcedores de times tradicionalmente adversários, por exemplo. É possivelmente o tipo de fé cega mais sem propósito que existe no planeta.

Religião, ao menos, se trata (teoricamente) de algo que definirá o seu além-vida; faz algum sentido levar a ferro e fogo, afinal, ir pro inferno é coisa séria. Política também, já que isso rege a direção de um país inteiro.

Mas e futebol, mano? Escolher este ou aquele time é algo totalmente arbitrário, o que torna a rivalidade entre torcedores completamente mongolóide. Você defende o partido X porque acredita na plataforma e na ideologia, e defende o deus Y porque está plenamente convencido de que a mensagem dele à humanidade é a Verdade. Mas time de futebol, que você escolhe porque… era o mesmo do seu pai? O uniforme é bonito? Tem mais vitórias no momento?

Os fãs de futebol que me perdoem, mas eu acho o seu hobby muito sem graça, e a animosidade que ele gera nas torcidas literalmente mongolóide.

E já que falamos de política…

Política

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Tenho algumas teorias.

A primeira é que eu sou, com plena franqueza, muito burro pra acompanhar ou compreender política brasileira. Não é hipérbole ou falsa modéstia não, eu tenho até medo de fazer teste de QI e descobrir que sou tipo o Forrest Gump, tamanha é a minha consciência da própria burrice. Então, vejo isso como um possível motivo pra minha indiferença política.

A outra é igualmente plausível. Morando fora do Brasil há 11 anos (oficialmente um cidadão canadense desde 2012), eu abro uma legítima gargalhada quando alguém me pergunta na total seriedade se penso em algum dia voltar a morar no Brasil. Só de imaginar a cara totalmente honesta do sujeito perguntando isso eu tenho vontade de rir de novo.

Pra que DIABOS alguém na minha situação se importaria com a política brasileira?

E tem outra coisa. A máquina política brasileira já é tão eternamente tóxica, tão perenemente sebosa, tão irreversivelmente cagada por oligarquias criminosas e alianças imorais, que só mesmo o maior dos idealistas pensa que o Brasil mudará diametralmente caso este ou aquele partido ganhe. Na real, não importa quem ganhe, a estrutura de poder é homogeneamente escrota, e pessoas do lado oposto dos espectros políticos estão cagando pra você e pro status quo do povo brasileiro em geral.

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Vou te contar uma parada: Não vai fazer diferença quem ganhe essa eleição. Ou qualquer outra. Assim como pouco fez diferença, na real, quem ganhou as 5 ou 6 eleições passadas.

Os impostos e juros continuarão altos, a violência vai continuar uma bosta, você mesmo vai continuar reclamando de tudo e sonhando com um dia imigrar pros EUA ou Austrália ou Canadá, e sempre que retornar ao Brasil de uma viagem ao exterior continuará passando pelas tradicionais duas semanas de total insatisfação com o país.

Continuaremos sendo a Xa. maior economia do mundo, uma estatítica que os nacionalistas papaguearão com orgulho, enquanto uma miríade de pessoas continuará vivendo assim:

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O Brasil vai continuar a mesma merda de sempre; quem vota no PT vai continuar vilificando quem vota no PSDB, e vice versa, mesmo que a Dilma ou o Aécio Neves curassem o câncer, a AIDS, e inventassem carros voadores durante seu mandato.

Aliás esse espírito de “ahhh mas o partido tal estivesse no poder, finalmente o país mudará/minha vida melhorará!” serve apenas pra provar que estamos completamente entregues ao paternalismo governamental. É a versão adulta do “papai, terminei, vem me limpar!”

Entende porque eu vejo as intermináveis pelejas políticas no Twitter com o mesmo interesse de alguém que observa tinta secando num muro recém-pintado?

Game of Thrones

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Eu AVISEI que você ia ficar puto com esse post, agora aguenta porra

De forma concisa, é o seguinte: eu morrerei sem jamais assistir nenhum episódio dessa série, sem nunca ler uma página, sem sequer me importar o bastante pra decorar o nome de um personagem, nem mesmo que por pura osmose/bruteforce de tanto ver vocês falando dessa parada no Twitter.

Não é despeito nem nada, por mais que pareça. Juro. É que simplesmente não consigo me importar. Eu não me interesso em fantasia medieval em geral, e não me interesso neste programa em particular.

Vejo vocês falando animadamente da série, dos eventos dela, de quem o autor matou dessa vez, e não consigo nem sentir indiferença. É algo menor que isso. É tipo, meio que passa batido pelos meus olhos. Tenho tipo um filtro mental, ultimamente eu nem leio mais quando vocês falam sobre a série.

Qualquer evento de premiação

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Emmy’s, Oscar, MTV Awards, Troféu Imprensa… se envolve alguém recebendo um troféu e fazendo discurso choroso e/ou aproveitando o palanque pra dar liçãozinha de moral sobre a causa dujour, eu cago e ando. Você jamais me verá acompanhando essas porras ou tecendo comentários a respeito no Twitter.

Talvez seja a natureza totalmente subjetiva dessas premiações (você seria capaz de quantificar quão melhor, exatamente, The King’s Speech é do que The Social Network? Claro que não). Talvez seja o fato de que eu acho meio whatever uma indústria se auto-congratulando — é meio que como eu dar ao HBD o prêmio de Melhor Blog Brasileiro de 2014.

Possivelmente é porque eu sou totalmente indiferente ao mundo do culto ao tapete vermelho, da bajulação/fofoca sobre celebridades, do tradicional “quem estava melhor vestido?” e todas outras essas babaquices que são de longe o MENOS interessante no mundo do cinema/música/TV.

Eu admito que tenho mil interesses que muitas pessoas consideram idiotas, se isso te faz sentir melhor (gastei centenas de dólares montando uma coleção de Game Boys, por exemplo). Além do fato de que eu admiti abertamente lá em cima que sou burro pra caralho, o que por um lado, talvez signifique que estes items citados aqui são na real legais pra caramba e eu apenas não tenho a autonomia intelectual pra curti-los.

Então nem fique puto não! Em vez disso, se abra pra mim sobre sua própria estranheza e me conte que coisas todo mundo curte e você odeia.

(Que fique claro: eu definitivamente não me acho superior que alguém por não gostar dessas coisas)

Por acaso faz tempo que tu não aparece aqui no site? Se sim, eu preciso te contar uma novidade: eu agora tenho um gato.

Izzy e Marshmallow Nobre

Caso não faça tempo que você não aparece aqui e você já está familiarizado com o Marshmallow, você talvez esteja se perguntando por que a minha gata virou subitamente um gato. Já expliquei no meu vídeo do Ice Bucket Challenge, mas basicamente eu e minha esposa cometemos um erro que muitos jovens brasileiros embriagados já cometeram em baladas ao redor do nosso país — pegamos uma gatinha, e para nossa surpresa descobrimos posteriormente que a gatinha tinha um pênis.

Aparentemente é um engano comum em filhotes, quando os órgãos sexuais ainda não estão plenamente desenvolvidos; quando levamos o bichano no veterinário ele nos informou da real identidade do Marshmallow. O foda é que agora já pegamos o costume de chama-lo de ELA. Mas enfim.

Ter um gato (qualquer animal de estimação, na real) é frequentemente comparado a ter um filho, e eu estou entendendo por que as pessoas dizem isso. Ambas experiências são um constante aprendizado. Por exemplo, quando você tem um gato…

Não perca tempo comprando brinquedos chiques. Às vezes ele vai cagar pra eles.

"Whatever"

“Whatever”

Parte da diversão de ter um gato é vê-lo brincando alegremente, da forma que você brincava um dia quando você era uma criança sem preocupações de carreira e contas e parcela do carro, quando a chama da esperança e do espírito humano ainda queimava fortemente dentro da sua alma.

O problema é que gatos tem uma indiferença inata e às vezes excretam e caminham para suas tentativas de entrete-los com brinquedinhos caros. É por isso que eu pessoalmente ainda prefiro cachorros — eles parecem realmente GOSTAR mais de você.

Eu comprei um monte de coisa aqui pra porra desse gato. Um desses brinquedos, um cilindro com um chocalho dentro e com peninhas, foi mais ignorado pelo gato do que você quando foi pra balada no fim de semana passado. Se eu tivesse pego aqueles mesmos vinte dólares, cortado em tiras de confete e suspendido diante do gato, teria sido literalmente um uso melhor do dinheiro.

Aliás, o bicho brincou mais com o saco plástico que eu usei pra trazer essas paradas pra casa. Obrigado, seu mal agradecido filho da puta do caralho.

Gatos tem um botão liga/desliga

Essa aqui é impressionante. Deixarei que o vídeo fale por si só:

Se você não entendeu o vídeo, é o seguinte: se você apertar a parte superior do pescoço deles, o gato fica PERFEITAMENTE CALMO E IMÓVEL.

Isso é algo que donos de gatos aparentemente já conhecem há milênios — porque é inclusive uma técnica útil pra dar remédios, cuidar de machucados e coisas do tipo –, mas que eu desconhecia.

As hipóteses pra esse comportamento bizarro vem, como sempre é o caso com essas coisas, da ciência evolucionária. Uma das idéias é que essa técnica é usada para gatos pra acalmar as parceiras e assim facilitar o coito. Gatas que sofrem o efeito trepavam mais, o que proporcionou a propagação do gene que instala essa chave geral no bicho.

A outra, que explico neste outro vídeo, é que os gatinhos relaxam ao serem apertados nesse ponto porque é assim que suas mães os carregam de um lado pro outro, e é mais prático que os bichos não estejam saracoteando e tentando furar os olhos da mãe nesse momento.

E aparentemente essa é uma técnica boa de aprender, porque…

Você está constantemente sob ataque felino

Esse foi um dos mais caprichados arranhões que eu levei ontem. Ah, e a foto da Bebba no crachá faz parte da cultura de hospital daqui — praticamente todos os funcionários tem foto dos filhos, animal de estimação, ou esposa no verso do crachá.

Você gosta de dormir? Eu também. Todos gostam de dormir. É provavelmente um dos maiores prazeres não-sexuais gratuitos dos quais a espécie humana goza. Isso, e dar aquele peidinho de leve durante a mijadinha matinal. Esse aí até arrepia.

Já meu gato, por outro lado, odeia que eu durma. Descobri rapidamente que dormir com a porta do quarto aberta é na real uma contradição lógica, porque o Marshmallow encara a porta aberta como um convite explícito pra pular na minha cara, morder meu pé, tentar puxar minha aliança do meu dedo (ele faz o mesmo com a da minha esposa, aliás. Um hábito felino que eu até então eu desconhecia) e basicamente fazer qualquer coisa em seu limitado porém eficiente poder pra me manter acordado.

“Vamo brincá cara!”

Ontem eu quase sofri uma vasectomia caseira nas mãos do Dr Marshmallow, cujas credenciais médicas eu questiono. Eu estava aqui trabalhando no computador, de cueca (por que não, porra?), na santa paz do senhor. De pernas abertas, meus frágeis testículos descansavam no assento da cadeira, cobertos por uma fina camada de seda que oferece menos proteção do que uma camisinha caseira feita com um saco plástico do Pão de Açúcar.

Eis que subitamente sinto um peso adicional na cadeira e ouço o inconfundível som de couro sendo rasgado. Marshmallow oscilava pendurado na cadeira, com suas garras Wolverinísticas firmemente cravadas no assento da cadeira — a meros milímetros dos meus ovos.

E não sou só eu; minha esposa e a mobília aqui de casa estão perdendo nessa guerra também. Cogitamos aparar a pontinha das unhas do gato, mas descobri também que…

Não ouse comentar sobre o tratamento que você dá ao seu gato

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Na internet, todo mundo tem opiniões fortes — e não necessariamente baseadas em conhecimento prévio, treinamento formal no assunto, ou sequer um bom compreendimento da situação.

Não sou isento disso: eu mesmo costumo dar minhas opinadas aqui, com firme embasamento no meu diploma da Universidade Federal da Wikipédia. Somos todos culpados deste mesmo pecado, bem como dizia Romanos 3:23.

lol

“…a Bíblia falou sobre brigas de internet…?”

Mas eu desconhecia a fúria dos defensores dos animais. Ou a intensidade com a qual eles tentam salvar animais que não sofrem qualquer risco.

Após uma semana inteira de destruição cutânea e da mobília do meu apartamento, eu ousei comentar no Tuíter que estava cogitando aparar a pontinha da unha do Marshmallow. Comprei uma tesourinha especial pra isso, li as instruções (tanto na embalagem quanto em sites especializados), vi vídeos no youtube. Sim, eu sei que a unha do gato tem vasos sanguíneos até um certo ponto — dá pra ver a olho nu, inclusive –, e que por isso você tem que se ater a cortar só a pontinha.

Fui imediatamente respondido por uma garota que me perguntou como eu me sentiria se alguém arrancasse meus dedos. A garota mandou outros inúmeros tweets, constantemente se referindo ao ato de aparar a ponta das garras do gato como equivalente a amputar as patas dele. “Você é burro e vai machucar ele”, ela disse.

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Como a garota imaginava que eu apararia as unhas do Marshmallow

Não tinha jeito. A garota viu algo trivial como uma total agressão aos direitos do gato na melhor das hipóteses, e um crime de mal trato aos animais na pior. Imagina se eu tivesse sugerido tirar as garras dele, que é de fato uma amputação das falanges distais do bicho.

A expressão “reflexo felino” não ganhou este nome por acaso

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Essa varinha de pescar com umas peninhas na ponta é tipo, o iPad do Marshmallow

Gatos são um misto de Daiane dos Santos com o Flash com o Noturno com o Homem Aranha (além de uma pitadinha de Wolverine, graças às garras retráteis que estão me rendendo cicatrizes). Eles são os ninjas do reino animal.

O bicho está constantemente correndo de um lado pro outro, escalando coisas, pulando de um ponto a outro e basicamente desafiando a gravidade, inércia e primeira lei da termodinâmica ao mesmo tempo (como tanta energia vem de tão pouca comida…?).

A típica indiferença felina se aplica também às leis físicas que eles quebram constantemente.

Há momentos que o desgraçado parece literalmente se teletransportar. O Marshmallow é fissurado com o corredor aqui do prédio; em qualquer momento que eu saia ou entre no apartamento, ele DISPARA pela porta pra explorar o corredor. Nenhuma barreira é capaz de impedir a passagem do bicho — bloquear com o pé ou perna, abrir a porta rapidamente, ou abri-la o mínimo possível pra se espremer pela fresta, ou até mesmo fazer isso tudo ao mesmo tempo: é tudo tão fútil quanto tomar banho e cagar logo em seguida. Você fica se sentindo um idiota que apenas perdeu tempo a toa.

Às vezes eu estou DE OLHO na fresta da porta, e penso que saí com agilidade e que o gato nem percebeu que a porta foi aberta. Tranco a porta, viro pra descer a escada, e lá está o filho da puta a 30 metros de distância no final do corredor. Se eu tento chamar o bicho de volta — um comando que não parece funcionar bem pra gatos –, ele olha pra mim com descaso e continua perambulando pelo corredor.

Mas sabe duma coisa? Eu amo esse filhotinho de Satanás. E olha que até semana passada eu preferia cachorro!

relacionamento

Se você é como eu, você deve passar uma boa parte do seu tempo visitando fóruns de discussão na internet.

Fóruns são uma ótima forma de adquirir uma montanha de opiniões sobre diversos assuntos em que os opinadores obviamente não têm qualquer conhecimento, embora isso não os impeça de falar com a pompa de um especialista. Não importa o assunto sendo debatido (Pontes de hidrogênio? Acasalamento de maripousas norte-americanas? O padrão da bolsa de valores de New York?), sempre aparecerá alguém disposto a se pintar como um profundo expert no negócio.

E um debate que aparece com frequência preocupante é – Namoros à distância valem a pena? Pode ter certeza que o seu fórum favorito já viu pelo menos 5 tópicos sobre o assunto.

Não duvide de mim, seu corno. Abra um fórum qualquer, dirija-se à barra de busca e pesquise o termo. Tente as diversas grafias “alternativas” da expressão (“namoru há distânsia”, por exemplo) porque afinal de contas não podemos dar muito crédito às habilidades gramaticais dos habitantes de uma nação que transformaram o orkut em mania nacional. Clique em SEARCH e você verá que eu, como sempre, estou certo.

Já me envolvi em quatro relacionamentos à distância. Todos foram resultado do mesmo processo — meu pai recebia uma oportunidade mais interessante em um estado que não era aquele em que morávamos, e lá ia a família de mala e cuia seguindo o velho.

E a namoradinha ficava pra trás. Ambos prometíamos fidelidade, e em menos de 3 meses depois o namoro havia acabado. A exceção dessa tendência foi a Bebba, minha esposa, que ficou em Oshawa por um mês quando nos mudamos pra Calgary. Foi o meu único relacionamento à distância que durou, e por condições específicas.

Após experimentar os mesmos sentimentos e chegar ao mesmo resultado nas minhas três primeiras experiências com essa modalidade de namoro, concluí que esse tipo de relacionamento é uma fenomenal perda de tempo – por vários motivos. Cinco motivos, aliás.

5) Manter um namoro à distância é uma espécie de admissão da sua incompetência romântica.

Imagine que você conheceu uma garota interessante na internet. Após conversar com ela por três ou quatro meses, você decide que está gostando da menina o suficiente pra considera-la uma namorada. Essencialmente, você está dizendo pra si mesmo “jamais conseguirei convencer outro ser humano a gostar de mim, portanto preciso fazer qualquer coisa pra manter esta menina/menino que eu nunca vi na vida“.

Ainda que isso seja verdade (e se você é o tipo de maluco que gosta de ler o HBD, provavelmente é), o namoro virtual não está te provendo com absolutamente nada que o faça merecer o título de “namoro” (intimidade, companheirismo, ou a boa e velha fodelança).

Ou seja, você está a troco de nada admitindo que é um merda completo com o sexo oposto, incapaz de convencer alguém do seu círculo social a atura-lo como par romântico.

4) O relacionamento a distância perverte a própria premissa de um namoro.

Entenda uma coisa – seres humanos normais namoram porque gostam de passar tempo junto à outra pessoa.

Quando um sujeito começa a namorar (salvo por cristãos, cujas filosofias a respeito de relacionamentos devem ser ignorados de qualquer maneira), ele não está pensando em passar o resto da vida com a menina. E igualmente, uma garota não começa a namorar ninguém tendo em mente a data de casamento ou nome do primeiro filho. Pessoas namoram porque apreciam a presença do parceiro; o período de namoro é um teste de compatibilidade ao fim do qual ambas partes decidem se poderiam suportar viver juntos pelo resto da vida.

Como o namoro a distância não tem o contato próximo que é justamente o propósito fundamental de um namoro, os amantes pulam a etapa de teste e focam suas atenções e esforços no objetivo final — o casamento. O problema é que você está tomando a decisão de matrimônio sem ter feito aquele test drive essencial antes.

E aí você vê moleques de 17 anos que mal criaram pêlo no saco, mas estão fantasiando em se casar com uma garota que mora a 800km de distância e que eles nem teriam conhecido se não fosse a magia de World of Warcraft.

A triste ironia destes relacionamentos virtuais iniciados em MMORPGs (e acreditem, existem MUITOS) é que ambos os participantes teriam muito mais chances de se relacionar com alguém no mundo real se não investissem tanto tempo na babaquice que é um MMO.

That’s right, I said it.

3) Namoro à distância toma mais tempo na vida do indivíduo do que um namoro convencional

Por causa da falta de contato próximo, os namorados procuram saciar as necessidades românticas passando o máximo de tempo possível se contatando. E assim você acaba vendo aquele amigo que tem que estar em casa às nove hora SEM FALTA por que a namoradinha chega em casa da faculdade e ele não poderá sobreviver se não passar quatro horas no MSN com ela, ou interrompendo uma atividade com os amigos de dois em dois minutos pra responder SMSs da menina.

Enquanto isso, namorados “de verdade” podem se dar ao luxo de se ignorar um pouquinho de vez em quando, já que no dia seguinte recompensarão a ausência com o mais espetacular sexo que os vizinhos deles jamais ouviram.

Esse tipo de comportamento é, como você poderia imaginar, extremamente irritante. Não se surpreenda se seus amigos decidirem te alienar porque você é incapaz de dar toda a sua atenção à partida de War à mão caso o seu celular esteja por perto.

Isso pra não entrar no mérito das viagens que o sujeito invariavelmente planeja pra cidadezinha cu-do-mundo onde a menina mora – viagens que custam dinheiro que ele frequentemente não tem, e que o obrigam a colocar sua vida (família-trabalho-faculdade-amigos) no pause só pra poder ver a menina por três ou quatro dias.

2) Namoro à distância é matematicamente falando um mau negócio

Perdoe-me a sinceridade, mas num ponto de vista estritamente matemático um namoro a distância é o pior negócio em que você poderia embarcar.

Afinal de contas, um relacionamento à distância combina tudo que há de PIOR em ser solteiro — a falta de intimidade com outro ser humano, a profunda tristeza sentida nos Dias dos Namorados, a masturbação crônica — com tudo que há de PIOR em ser comprometido – não estar romanticamente disponível, ter que dar satisfações pra um cônjuge ciumento, a paranóia de estar levando um chifre as we speak.

É o pior dos dois mundos. É mais ou menos como se alguém te vendesse um carro sem rodas. Talvez o fato de ter um “carro” na sua garagem te deixe feliz, mas você continua tendo que andar até a parada de ônibus pra ir pro trabalho. Então, qual a diferença?

Em outras palavras, namoro a distância não suplanta as necessidades românticas do indivíduo. Ao invés disso, esse tipo de relacionamento acaba é sendo emocionalmente desgastante. O que nos leva ao próximo item nesta listinha, o motivo principal pelo qual namoros à distância não valem a pena. E este é o fato de que…

1) “Namoro à distância” e “felicidade” são mutualmente exclusivos

Se você já alguma vez teve um relacionamento à distância, deve concordar que é um negócio extremamente desgastante. Todo relacionamento tem seus prós e contras, mas no relacionamento à distância não existe tal equilíbrio. O ciúme, a paranóia, a saudade e todos os outros pontos ruins desse tipo de relacionamento acabam cansando emocionalmente o sujeito.

Sem exceção, você perceberá que pessoas que terminam namoros à distância descreverão o fim do negócio como um profundo alívio. Afinal de contas, o que o sujeito está perdendo quando termina esse tipo de relacionamento? Ele não tinha contato com a “namorada” mesmo.

Você não compartilhava nada com ela, a não ser logs do MSN. Sua família não sofrerá o típico vácuo pós término de namoro (aquela sensação de estranheza quando a namorada, agora ex, desaparece da vida coletiva familiar), porque a garota jamais pôs os pés na sua casa.

E como eu falei antes, um dos maiores lucros de ter um relacionamento é não depender exclusivamente de pornografia pra saciar os desejos carnais. Eis outra vantagem da qual o namoro à distância não te beneficiou.

Por outro lado, foi-se a constante paranóia de ser traído, foi-se o cansaço emocional de fazer todos os seus planos para o futuro orbitarem seu relacionamento com uma pessoa que você mal conhece na realidade, e também se foram as limitações que um compromisso romântico (mesmo um de mentirinha) impõe. O sujeito agora está livre pra fazer o que quiser.

Ahh, e não venha me falar que você conhece o sujeito porque se falam no Skype e por SMS praticamente 24 horas por dia. A única coisa que você realmente “conhece” sobre a pessoa nesse caso é o som da voz dela e suas opiniões triviais sobre filmes, livros e etc. Só dá pra realmente conhecer alguém através de convivência.

Tendo exposto minhas opiniões, pergunto a você — por que diabos você mantém um namoro à distância?

Lendas Urbanas Evangélicas

Tendo crescido em lar evangélico, como mencionei num vídeo recente, eu ouvi toda qualidade de histórias esdrúxulas sendo repassadas pela igreja — e mais tarde, pela internet. Essas histórias tinha como objetivo ou comprovar algum dogma da igreja, ou pra alertar a galera sobre os perigos de não levar Deus a sério, ou coisa do tipo.

Eu já me espantava, naquela época, do pouco senso crítico com o qual os “irmãos” entoavam seus Glória a Deus!’s ao ouvir aquelas anedotas; hoje em dia, é chocante imaginar que existem pessoas (adultos!) que aceitam a propagam essas histórias comprovadamente falsas, simplesmente porque elas oferecem uma migalhinha de (falsa) confirmação de suas crenças — crença essa, vale lembrar, que adverte aqueles cuja fé é condicional a provas.

E as principais lendas urbanas que vem a mente são…

Acharam a Arca de Noé!

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Essa foi uma das primeiras que eu ouvi. Segundo “pesquisadores”, esta entidade metafísica que algumas pessoas adoram invocar para imprimir maior validade às suas alegações, a lendária Arca de Noé teria sido encontrada no pico do monte Ararat, na Turquia. Em alguns círculos, o “fato” de que encontraram a Arca de Noé era basicamente uma certeza inequívoca, algo tomado como verdade inegável. Como os ateus poderiam duvidar do Dilúvio se já até acharam a Arca de Noé?!

Curiosamente, nenhum dos que propagavam essa lorota se perguntavam porque jamais ouviram sobre essa incrível descoberta em nenhum veículo de notícias. A descoberta de uma embarcação que comportasse toda a biodiversidade animal do planeta, que certamente precisaria ter proporções de um transatlântico, mudaria tudo que conhecemos sobre a capacidade de engenharia dos seres humanos que viveram durante a Idade do Bronze. E no entanto, só se ouvia esse “fato” de boca a boca em igrejas.

O que rolou foi o seguinte: em 1948, na região da fronteira entre a Turquia e o Irã, chuvas torrenciais (que são chuvas pesadas, e não chuvas que baixam Agents of S.H.I.E.L.D. do Pirate Bay) e terremotos produziram uma formação rochosa que alguém olhou e falou “rapaz, meio que parece um barco, né não?

Pareidolia é um negócio foda.

“Não…?”

Como o único barco antigo e imenso conhecido é a arca de Noé (se você ignorar os inúmeros outros mitos de dilúvio ao longo da história, isso é), a associação com a história bíblia foi estabelecida e pronto.

Acontece que a crença de que essas formações naturais são os restos da arca é TÃO absurda que até o site cristão Creation.com já desmentiu em detalhes.

Encontraram os gigantes da bíblia!

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No Gênesis, há a menção breve de gigantes (no original, “nephilim”, que significa “caídos”) que passeavam pela Terra e se metiam nas maiores confusões, literalmente. É estranho que algo TÃO significativo, que desafia totalmente nossa compreensão dos humanóides que habitaram este planeta, apareça como mísera nota de rodapé — mas fazer o que. Os gigantes reaparecem mais tarde, quando Davi mata um com seu estilingue, e fica por isso mesmo.

Então, lá pelos idos de 2004, esta imagem começou a pintar na internet:

gigantes

Trata-se de um Photoshop, claro. Mais especificamente, de um concurso de Photoshop do Worth1000, um site clássico de competição de montagens digitais. Nem mesmo o mais ingênuo de nós veria esta imagem e acharia que é verídica, mas como veremos, pessoas que precisam de qualquer forma buscar sustentação pra crenças conseguem ser ainda mais ingênuos.

Microfones captam sons de sofrimento direto do inferno!

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A história, que circula na web desde 1997 mas que pode ter começado no finzinho dos anos 80, é a seguinte: mineiros russos estavam trabalhando numa escavação, quando de repente a broca encontrou uma imensa cavidade. Os caras abaixaram um microfone no buraco, e supostamente conseguiram ouvir os gemidos e choros dos condenados ao Inferno. Inclusive, tem arquivos de som por aí que diz-se tratar-se das gravações do buraco.

A primeira vez que ouvi essa história foi no segundo ano do ensino médio, de um professor cuja disciplina eu não lembro. Ele nos repassou a lorota como se fosse um fato incontestável, inclusive, que é geralmente o tom e energia com qual nos contam essas histórias.

A história, que nasceu num jornal cristão finlandês, ganhou popularidade ao ser divulgada por um canal americano evangélico de TV. Åge Rendalen, um professor norueguês (e troll nas horas vagas) mandou uma carta confirmando a história, e a exagerando um bocado. O canal reproduziu o relato do professor, e assim perpetuou o hoax.

Carro bate e os ovos no porta-malas sobrevivem porque o motorista fez uma piadinha sobre Deus!

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Desta vez, um hoax aparentemente brasileiro (os links gringos que encontrei sempre fazem alusão à origem brasileira da história, que teria acontecido em Campinas). Um grupo de garotos bêbados estava por aí na vida da zuera, indo pra festinhas fumar maconha usando folhas da bíblia enquanto debatem sobre a validade do aborto e votam no PT, e pararam pra pegar um amigo.  A mãe deste, preocupada com o estado dos companheiros do filho, teria então dito “Deus te acompanhe, meu filho!”, ou algo que o valha. Infelizmente ela não falou algo mais útil, como “andar de carro com uma cambada de bebum? Mas nem fodendo, já pro seu quarto!”.

Então. Diante da benção da mãe, o filho petulantemente respondeu que Deus teria que ir no porta-malas, pois não havia mais espaço no carro.  Se isso fosse uma sitcom como Big Band Theory, onde piadas imbecis não são apenas encorajadas mas recompensadas, a platéia teria rido e batido palmas.

Pois bem, o carro bateu, morreram todos, e a polícia informou à mãe do garoto rebelde que uma caixa de ovos que estava no porta-malas havia ficado intacta.

Nao existe registro de tal acidente jamais acontecendo, obviamente. Não que faça muito sentido que um bando de adolescentes saindo pra balada tivesse uma caixa de ovos no porta-malas, também (ou que a polícia informaria a mãe de uma das vítimas deste fato).

Carro anda sem motor após oração de fiel!

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Ainda no ramo de milagres automotivos (e também um que eu pensava ter origem brasileira, mas não é) tem a história do soldado que… bom, vai aí a versão que eu catei na web que é basicamente idêntica à que eu ouvi anos atrás:

jipe sem motor

Não precisa ser um sujeito muito inteligente pra desconsiderar completamente a história como um absurdo que apenas alguém sem qualquer senso crítico e/ou domínio de suas plenas funções mentais conseguiria acreditar.

O problema não é nem realmente acreditar em um ser sobrenatural que executa mágicas; o problema é acreditar simultaneamente que esta divindade faz truques para proteger seus amigos de piadas bobas, mas esquece de se manifestar em ocasiões que certamente requerem mais seu envolvimento, como por exemplo aqui só puxando de memória o Holocausto, ou quando morreram umas 30 milhões de pessoas no Grande Salto Avante da China, ou quando rolou aquele tsunami na Ásia, o maior terremoto da história diga-se de passagem, que acabou matando mais de 200 mil pessooas.

Você lembra de mais alguma lenda urbana evangélica?

[ Update ] Alguém reclamou no Facebook que quando um ateu declarado escreve um post abordando lendas urbanas evangélicas e as desmistificando enquanto as chama de “esdrúxulas” e “comprovadamente falsas” nos dois primeiros parágrafos, ele está “promovendo pseudo-ciência” — porque aparentemente, a maioria das pessoas não compreende o que “lenda” significa e poderiam concluir que eu estou as defendendo ou perpetuando ou algo assim.

Assim sendo, faça de conta que o título do post é “Histórias inventadas falsas inverídicas sem provas que não aconteceram”.

Eu vivo falando que adoro viver no futuro. Seja por causa de um serviço de streaming que me permite desperdiçar um dia inteiro de cueca no sofá assistindo House of Cards, ou o poder das telecomunicações instantâneas na palma da minha mão, ou o fato de que muito em breve teremos robôs para atender nossos desejos físicos mais íntimos e incandescentes, até aqui o futuro tá uma beleza. Faltam as hoverboards, mas ainda não estamos em 2015 ainda, então dá tempo.

matel

Vamo agilizar essa porra aí por favor, Mattel?

Mas pouco a pouco começo a reparar nos avanços tecnológicos ao nosso redor e noto indícios funestos de que há algo terrível nos aguarda lá no futuro. As peças estão sendo lentamente encaixadas, e a cada inovação de robótica e inteligência artificial eu sinto um receio pelo futuro da raça humana.

Sei que a ciência promete que esses avanços significam um progresso necessário pra que melhoremos o mundo ao nosso redor, mas temei irmãos: a luz no fim do túnel pode muito bem o olho implacável de um Exterminador, usando seus chips robo-tecnológicos para calcular a explodibilidade dos seus preciosos órgãos internos.

Alguém precisa encontrar estes cientistas e parar suas pesquisas imediatamente. Senão, um dia alguém vai pegar esses vídeos pra montar um documentário explicando como as máquinas surgiram e inevitavelmente se levantaram contra nós.

O quadricóptero autônomo invulnerável

No contexto de “meu deus do céu, um dias estaremos lutando contra essas máquinas pela dominância do planeta Terra”, quadricópteros são os robôs mais assustadores — seu método de locomoção por si só já representa 4 lâminas que te fatiarão feito um peru de Natal, imagina quando colocarem altas metrancas e lança-chamas nessa porra?

Aí cientistas pioraram o negócio, dando inteligência acrobática aos robôs. Este demônio tecnológico pratica hoje o equilíbrio de bastões e copos de água azul pra que amanhã consiga limpar agilmente o campo de batalha dos cadáveres dos nossos irmãos humanos.

Não fosse isso o suficiente, essas porras agora são praticamente invulneráveis.

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Este traidor da raça humana demonstra que assim como o T-800, mesmo danificado o quadricóptero segue sua missão implacavelmente, a única diferença sendo que ele perde um pouco de estabilidade e fica girando loucamente (ou seja, sua eficiência em te fatiar aumentou 300%)

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Seus ossos, que já antes não tinham muita chance, oferecerão a mesma resistência que uma batata palha contra as lâminas giratórias da morte deste bot assassino voador.

Nem as nossas melhores tesouras poderão combater a ameaça dos quadricópteros. Já estamos fodidos, e olha que ainda estamos no PRIMEIRO vídeo.

Big Dog, o robô que lembrará de todos os nossos abusos e se vingará sem piedade quando a hora do julgamento chegar

A expressão “mula de carga” como sinônimo de alguém que só serve pra fazer trabalho pesado tem uma conotação negativa por um bom motivo. E em nossa vã soberba, buscamos aliviar nossas próprias costas do trabalho braçal que as quebraria empregado robôs para essa tarefa.

Este é o Big Dog, um projeto da Boston Dynamics de criar um robô que transporte material, munições, ou até mesmo combatentes feridos. E ele vai transportar isso mesmo um dia, só que não vai ser pro nosso lado.

Não bastasse o bicho soar como um enxame furioso de abelhas (imagina que beleza isso será pra moral dos humanos rebeldes…), ele ainda caminha muito similar a um bicho de verdade, o que o coloca bem no meio do Vale da Estranheza.

E eis o agravente, aquilo que garante que o Big Dog jamais estará nas fileiras dos robôs aliados juntos com o Arnold, o Gigante de Ferro e aquela lampadinha da Pixar. Sob pretexto de testar sua estabilidade, seus criadores o chutam impiedosamente.

bigdog

E você está vendo o resultado de possíveis milhões de chutes necessários pra desenvolver o hardware e software a prova de bicudos. Big Dog agora aprendeu a aguentar porrada melhor do que a maioria dos humanos, e nós vamos estar em breve nos arrependendo de dar a ele esta habilidade.

CUPID, o drone eletrocutador 

No departamento menos letal (mas ainda letal, volta e meia alguém toma uma zapeada desses tasers e bate as botas), temos o CUPID, uma sigla imbecil que significa Bla Bla Bla Quem Se Importa Os Criadores Colocaram Qualquer Coisa Aí Pra Traçar Paralelo Com Outra Entidade Voadora Que Atira Em Humanos. Neste vídeo, observe o momento histórico do que pode ser a primeira vez na nossa história em que um ser humano foi atacado por um robô projetado especificamente com função de combate em mente.

“Mas não”, diz o criador apressadamente, “esse robô também serve pra trazer equipamento de emergência, ou ajudar a encontrar uma criança perdida…” e depois o quê, enfiar 80000 volts nela? Não crie um robô projetado para controlar a revolta humana contra as máquinas, e me venha com esse papo furado de “mas há aplicações não-provocadoras de ataques cardíacos pra essa tecnologia, eu juro!”

Aliás, se é pra ir com nome de divindade, faria MUITO mais sentido chamar essa porra de THOR, caralho! Tenho até uma sigla melhor que essa porra aí: Tactical Human Obliteration Robot.

Vixi, fodeu, ajudei eles agora.

O “braço exterminador”, porque desistiram totalmente de disfarçar que essa porra toda resultará em robôs assassinos

Já neste vídeo temos um “braço exterminador” sendo beta-testado num humano que as máquinas talvez (talvez!) preservarão como um animal de estimação depois que vencerem a guerra, por sua contribuição no ramo de “desenvolvimento de braços cibernéticos com os quais esmagaremos as traquéias dos humanos”

A programação assassina já está lá. Suponho que devam haver mecanismos de segurança pra impedir que o braço, seguindo seus impulsos robóticos naturais de exterminar humanos, estrangule seu portador com vida própria, igual o Doutor Strangelove. Por exemplo, quando o operador fala sobre  a posição de “apertar mão”, complementada com “this is for shaking hands, this is for being human“, o braço robótico na realidade fez um PUNHO pronto para afundar crânios humanos.

humano

É como se o braço soubesse que o sujeito estava pensando em HUMANOS e já entrou no Battle Mode. Logo em seguida ele demonstra o “dedo gatilho” que muito em breve estará sendo usado para executar você e sua família na revolução robótica:

trigger

Dedo gatilho, que tem funcionalidade dupla pra dizer “venha, seu humano filho da puta”

Novamente: quando você coloca nos presets pré-programados do robô funções assassinas, não me venha com essas chorumelas de que o negócio é pra encontrar crianças perdidas ou pra ajudar um pobre deficiente físico a digitar ou amarrar os cadarços. Vocês estão é possibilitando o holocausto da raça humana.

Cabou tudo mano, fodeu completamente para a nossa raça

Dê adeus à sua namorada/esposa, mande seus animais de estimação pro espaço e se mate logo para poupar tempo. Inventaram aí um robô capaz de basicamente todas as tarefas necessárias pra nos foder total e completamente de forma irreversível.

Primeiro, o robô é capaz de dirigir (e tentou atropelar o cameraman, repare. Robôs não cometem erros, aquilo foi intencional). Depois, ele escala barreiras construídas, digamos, por uma força-tarefa de resistência às máquinas.  Depois ele sobe escadas pra alcançar, suponhamos, uma pequena facção de humanos escondidos em um prédio abandonado. Mesmo que este humanos tenham construído barricadas pra se proteger, não adiantará nada, porque assim como o amor este proto-exterminador remove todas as barreiras.

E não pense que suas portas vão impedir esta força de destruição: este autômato as abre e entra com facilidade, embora precise passar dançando a dança do caranguejo e lembrando, estranhamente, o Bob Sponja.

robo

Não tem porta? Ele fará um buraco na parede, por onde enfiará seu braço indestrutível e esmagará a cabeça de seus filhos.

Não há chance para nós. Estamos fodidos.

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