Uma das coisas mais divertidas pra se fazer no tuíter, em minha humilde opinião de merda, é trollar a galera.

O retrato da nossa geração

Mas não me refiro a ser parte da galeira ZUEIRONA que ataca os outros indiscriminadamente pra chamar atenção e/ou celebrar o fato de que levou block. Sim, acredite, tem gente neste nosso tuíter que tira o dia pra encher o saco de alguém que nunca falou com ele e, quando finalmente é bloqueado, age como se isso fosse uma confirmação de suas noções de que o “alvo” é um babaca. “Olha que babaca esse cara, ele prefere não ler meus xingamentos gratuitos!

Não, isso é chato e já abordei esse fenômeno neste texto aqui. “Trollar”, pelo menos como eu compreendo o termo, não é o ato relativamente babaca de ir provocar alguém que sequer saber que você existe na esperança de receber alguma atenção da qual você se julga merecedor. Trollar é passar um trote amigável em alguém, é o bom e velho XISTE.

Trollagem pra mim é uma gozação relativamente inocente que, embora talvez chateie um ou outro, não é um ataque pessoal ou específico contra ninguém. Uma trollagem é essencialmente uma afirmação que evoca resposta revoltada e previsível.

É uma brincadeira relativamente idiota, serei o primeiro a admitir — mas que brincadeira com amigos não é idiota? Aquele negócio de bater no ombro do amigo, sabendo que ele olhará pra trás, mas você está do outro lado? É idiota, e é um bom exemplo de trollagem “física”. E assim como nas pilhérias tuitísticas, o sujeito reagirá de uma forma esperada, e logo em seguida perceberá que caiu no seu chiste (e talvez rirá junto com você, dependendo do tipo de humor dele).

Nos últimos anos, andei promovendo extensas pesquisas para desenvolver os melhores trollbaits (ou seja, “isca de trollagem”) possíveis. Use-as pra encher o saco dos seus amigos. Mas fique ligado: um trollbait é, em sua essência, uma piada interna. Ela só terá graça porque há um grupo que compreende a brincadeira.

Algumas destas já se popularizaram tanto no tuíter que viraram domínio público, então começarei com elas.

“Sou o único brasileiro acordado”

Esta aqui nasceu quando eu trabalhava no turno da madrugada. A timeline no tuíter, obviamente, definhava até entrar em coma praticamente. Descobri que essa frase é a perfeita combinação de palavras pra evocar respostas de imediatas de TODOS que a leiam. Atualmente a frase foi adotada por milhares de tuiteiros e, como falei, agora pertence ao povo.

Existem diversas variações. Tal qual Neston ou bombril, há milhares de formas de usar esssa trollbait.

“Acho justo”

Essa aqui nasceu na época do “Jogo Justo“, uma iniciativa internética com intuito de reduzir preço de games ou qualquer outra coisa que não me interessa porque jogos aqui já são baratos então vocês que se fodam. A trollbait nasceu como “não sei o que essa galera do Jogo Justo quer, já acho os preços de games no Brasil bastante justos“. Aprendi rapidinho que menosprezar a causa ou chateação de alguém com um conciso “acho justo” é extremamente eficaz.

Se posso confiar em meus seguidores, esta trollbait já atingiu até o mundo real. Acho justo.

“Sabe qual a diferença/semelhança entre Android e AIDS?”

Esta trollbait é recém nascida, mas tem muito potencial. Android, pra quem não sabe, é um sistema operacional para celulares e tablets que compete com o iOS, da Apple. A graça da piada está em traçar paralelos ou diferenças entre o SO e a síndrome que realcem e satirizem o horror cotidiano que é usar um Galaxy S.

Há várias formas de montar este trollbait, o setup está aí no topo, e você entra com a punchline. Aqui você vai explorar seu talento no improviso cômico. Por exemplo:

“Sabe qual a diferença entre Android e AIDS? Se você pegar AIDS, existe suporte”

“Sabe qual a diferença entre Android e AIDS? Um piora sua vida, impede que você coma alguém e causa estigma social, e o outro é AIDS”

“Sabe qual a diferença entre Android e AIDS? Quem pegou AIDS é porque já trepou ao menos uma vez”

“Sabe qual a semelhança entre Android e AIDS? Se tivéssemos conscientizado a galera mais cedo, ninguém mais pegava”

E por aí vai.

“Sabe por que o Xbox 360 tem esse nome? Porque ao ver um, o sujeito esperto vira 360 graus e vai embora”.

Este aqui não é criação minha, é um trollbait antigo do 4chan. Apesar dessa brincadeira datar de antes do lançamento do Xbox 360, ainda tem muita gente que cai nele.

“Metade dos meus seguidores é X, metade é Y, e metade é Z”

Essa aqui é uma das minhas favoritas e requer uma certa finesse. É o seguinte: a maioria das trollbaits consiste em dizer algo patentemente errado ou idiota, sabendo que não há nada a consciência coletiva da internet goste mais que corrigir alguém, e se deleitar quando vê os caras tentando “educar” alguém que está apenas rindo dessa idiossincracia internética — o vício em estar certo.

Entretanto, esta trollagem das metades é mais sutil — obviamente, não existem três metades MUTUAMENTE EXCLUSIVAS de um número inteiro. Acontece que o setup da piada infere que uma das metades é uma intercessão da outra, evocando a teoria dos conjuntos. Veja um exemplo:

“Metade dos meus seguidores é mulher, metade é homem, e metade é bicha”

Existe um gene no DNA humano que torna praticamente impossível alguém ler a frase e não berrar de pronto que o sujeito é um ignorante que desconhece até mesmo os conceitos mais elementares de matemática. “NÃO EXISTE TRÊS METADES SEU ANIMAL DE TRAÇÃO”, dirá o internauta que bater o olho na frase.

Entretanto, o colega corretor não atentou para a semântica da frase. O que existe não são três grupos exclusivos, e sim uma interseção — evidentemente, “mulheres” e “bichas” são grupos distintos, mas “homens” e “bichas” não. Ou seja, o que a frase quer dizer subliminarmente é que TODOS OS MEUS SEGUIDORES HOMENS SÃO BICHAS.

É uma trollagem Inception que funciona em dois níveis — a reação exagerada de quem não admite perder a oportunidade de corrigir alguém, e a surpresa ao perceber que a frase na verdade está certa.

“Pizza de muçarela é a melhor pizza que há”

Eis aqui outro exemplo. Eu usava muito essa trollagem há alguns anos, até que o Fantástico ou Jornal Hoje coincidentemente fez uma matéria sobre a grafia da palavra e acho que matou a brincadeira.

Aparentemente não.

Sim, pasmem, “muçarela” é a forma correta de escrever o nome deste queijo tão delicioso que causa obesidade e e os melhores peidos. Diga inocentemente “vou fazer uma pizza de muçarela” no tuiter ou no Facebook e aguarde.

“Sabe um filme bacaninha que eu até gosto? O Rei Leão, alguém lembra desse filme?”

Criei esta trollagem sob medida para meu amigo e campeão de autorama Jurandir Filho, do Cinema com Rapadura e do 99Vidas, que é de longe o melhor podcast da internet. Percebi com o passar do tempo que ela é igualmente eficiente contra outros colegas.

O Rei Leão é considerado universalmente uma das mais icônicas animações da Disney. Insinuar casualmente que ninguém conhece o filme ou que ele é merecdor apenas da alcunha de “bacaninha” é, pra alguns cinéfilos, uma ofensa pior que bater na cara da mãe com uma piroca de borracha.

Aliás, o termo “cinéfilo” é sem sentido, né? Cinéfilo é quem gosta de cinema, mas TODO MUNDO gosta de cinema. É uma expressão completamente nula, é tipo dizer que é “sorvetófilo”.

“Tava ouvindo essa ‘Clube dos Canalhas’ e achei bacana, tem alguma outra banda brasileira parecida com esse Pelanza?”

Começamos a entrar na área “calibre pesado”. Eu falei no começo que a trollagem-esporte não tem intenção de atacar pessoas, e sim tirar uma onda inocente só. Entretanto, esta aqui chega muito perto da linha que separa dos dois.

Como vocês devem saber, a música “ target=”-blank”>Clube dos Canalhas” é o hit single da banda paulista Matanza (pra mim, desceu além de Juazeiro do Norte-CE já é São Paulo). E Pelanza — ou é Pé Lanza? Já vi as duas grafias — é um dos participantes dessa banda adolescente “Restart”, considerado por muitos a pior desgraça a desolar o país desde os 8 anos de presidência do Lula.

A comparação entre as bandas (ainda que como um erro de leigo) é suficiente pra fazer alguns fãs espumarem. E ainda tem a continuação — após corrigirem o seu “erro”, mande um…

“Pelanza, Matanza, tudo a mesma merda”

É aí que o ódio transborda. Trata-se agora não de um deslize, e sim de uma postura deliberada de crer que não há diferença entre as duas bandas. A galera vomita de tanta raiva.

Funciona melhor comigo porque moro fora do Brasil há anos e o fato de que eu desconheço bandas populares do momento é convincente. Mas tente aí!

“Tou programando em HTML aqui”

Esta aqui é voltada à turma da “computação”. Eu gostava desse termo, “computação”. Fazia toda e qualquer atividade com computadores soar mais tecnológica.

HTML, como se sabe, não é uma programação. Há código, e há uma certa lógica, mas não é programação — é linguagem de marcação ou algo assim. Sei lá. Não importa. Ninguém se importa.

Acontece que insinuar que mexer com tags HTML é equivalente a “programar” leva a turma da área ao delírio colérico — não tanto pelo erro leigo, mas talvez também porque é um lembrete sombrio de que eles estão desperdiçando dinheiro adquirindo conhecimento acadêmico numa área que não requer tal coisa há muito tempo.

E por ora é isso. Se eu esqueci alguma clássica trollbait, me informem pra eu colocar aqui nesta coletânea de Greatest Hits.

Então turma, ontem eu me aconcheguei à minha mulher pra dormir, quando notei um cara fazendo um estardalhaço usando a hashtag da minha cidade, #yyc

Este cara

Bateram no carro do infeliz, deixaram uma notinha pedindo desculpas (que é uma convenção norte-americana), mas esqueceram de um detalhe importante da tal notinha: não colocaram a informação do seguro deles, ou seja, o cara que levou a porrada terá que tirar a grana do conserto do próprio bolso.

Eu entendo o drama do sujeito, três mil dólares de dívida por causa de um filho duma puta rampeira de beira de estrada e sem dentes é realmente um negócio difícil de engolir. Acontece que o desgraçado postou umas 50 vezes a mesma coisa pra tentar chamar atenção para o caso:

Isso é chato pra cacete, porque a gente dá uma pesquisa pela hashtag da cidade pra ver o que está acontecendo de legal e conhecer tuiteiros locais e vê um sujeito enchendo o saco sem parar com um problema que não há muito como resolver.

Até ajuda pro tuíter do prefeito de Calgary o cara pediu. O que ele acha que o prefeito fará, vai ligar pro Batman?

Falei pro cara na boa “porra bicho, tá bom, a gente sabe que seu carro tomou uma cacetada e você tá puto.

Evidentemente o rapaz achou justo responder o meu tweet de forma rude.

Eu, já tendo o passsaporte carimbado  para o Inferno, resolvi que tinha toda a justificativa para abrir as portas da trollagem.

Algo que muitos na internet aprenderam de forma dolorosa é que meus amados e queridos followers, a quem eu JAMAIS trataria mal porque além de fidalgos são bonitos e em boa forma física, são hordas sedentas por sangue virtual.

Eu me imagino às vezes como um cara segurando com as costas um portão que prende 22 mil touros irados. Tento até fincar meu chão na lama pra garantir que o portão não arrebentará, mas quando arrebenta, saia da frente. E às vezes eu não apenas não me oponho ao estouro, como incentivo.

Eram 3 da manhã no Brasil, mas eu sei que muitos followers meus são insones e contribuiriam para o lulz geral. Então, tuitei um pedido humilde pra que destruissem as mentions do cara assim como ele estava destruindo a hashtag da cidade. E o resultado foi isso:

Trezentas pessoas surgindo DO NADA e se identificando como o cara que destruiu o carro do outro

Como os tweets provocadores traziam a hashtag, vários tuíteres locais notaram a putaria começaram a dizer “não sei quem aprontou essa mas tou rindo aqui“, porque aparentemente o tal sujeito já tava incomodando outros há algum tempo.

Eu estou acostumado a aprontar confusão no tuíter, mas nunca envolvendo gente daqui da cidade — o que é muito mais emocionante, porque eu uso meu nome real no tuíter, posso ser espancado, processado, preso e etc. Quando eu alopro alguém no Brasil, a coisa nunca passa de ameaça de processo.

E aí me deu uma idéia — vocês deveriam me ajudar a zoar a bela cidade de Calgary. Hoje nós vamos narrar um ataque zumbi na cidade.

É simples: basta tuitar uma das frases abaixo, e não esqueça da hashtag #yyc porque é assim que a galera daqui notará seus tweets. Sinta-se perfeitamente à vontade pra elaborar seus próprios tweets. Pra dar aquele toque de realismo nos tuítes, usem nomes de bairros de Calgary.

Aí estão alguns presets pra vocês usarem:

  • Holy shit, I just saw a zombie  skittering around Dalhousie. What the fuck  is happening? #yyc
  • Ok you won’t believe it but there’s a zombie downtown. Cops are on him right now, will it make the news? #yyc
  • It finally happened — the zombies are fucking here. Just saw one attack a couple on Country Hills! #yyc
  • Running to Walmart to buy a bow and arrow. The Zombie Apocalipse is happening #yyc
  • My buddy from Forest Lawn called and said he heard his neighbors talking about a zombie attack downtown. Is this it? #yyc
  • Guess it’s a good idea I watch all those movies. I’m zombie-proofing my house right now! #yyc
  • Ok people stop freaking out, when the winter hits they’ll freeze up. No need to lose it because of the zombies #yyc
  • Shit, no more canned food anywhere. Guess the zombie news hit Calgary quick eh? #yyc
  • What are the odds of a Zombie Apocalipse the day I finally decide to quit work? #yyc
  • Holy crap, is this for real? The zombies are here? Couldn’t they have picked a better place to make their debut? #yyc
  • Just heard on the radio that they are quarantining the SW because of the whole zombie thing #yyc
  • As if the property value in the NE wasn’t bad enough, now there’s a zombe problem? I’m moving to Airdrie #yyc

E é isso. Criei os seus próprios, misturem nomes dos bairros, se notarem nego achando estranho, conversem com eles. Se vocês colaborarem pra essa merda, será uma confusão no estilo Guerra dos Mundos lida no rádio pelo Orson Welles.

[ Update ] Não demorou nem vinte minutos

Esse aí é o tuíter oficial do maior jornal da cidade. Eles deletaram o tweet um pouco depois, porque alguém falou que eram “hackers brasileiros” fazendo a parada.

Ou seja, precisou alguém dizer isso pro Calgary Herald se tocar que notícia de um ataque zumbi não era real.

Olha a putaria:

Isso sem contar a galera confusa e até com medo da situação:

E teve quem achou que FOI_HACKER.JPG

Vocês são muito foda, PUTA QUE PARIU.

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