Um brasileiro perna de pau (eu) tenta lamentavelmente jogar futebol no exterior

Como emigrante em uma terra estrangeira, há sempre algumas expectativas sobre você (algumas que beiram o racismo, diga-se de passagem). Por exemplo, todo asiático é visto como descendente direto da linhagem sanguínea dos monges que criaram o kung fu. Há também o estereotipo de que asiáticos são muito bons em matemática.

Russos tem fama de beberrões, americanos são célebres por sua arrogância e ignorância, e por aí vai. E como brasileiro, espera-se que eu seja um exímio futebolista.

Pelos últimos 8 anos eu aprendi um padrão: após ser apresentado a algum novo amigo e contar que sou brasileiro (ou confirmar quando alguém diz “…e ele é brasileiro! Conta pra ele, Izzy!” que, por algum motivo, sempre acontece), a próxima coisa que eu sempre sou obrigado a dizer é “não, eu sou péssimo em futebol”. A imagem  mental que todo mundo aqui fora tem quando pensa no Brasil é o Ronaldinho deixando um oponente tonto com suas habilidades.

(Tem as meninas que se assanham também, fique ligado)

Pois bem. Como eu não gosto de dar falsas ilusões aos meus amigos, sou o primeiro a admitir que sou uma vergonha nacional em relação a futebol. Não sei jogar, não gosto, não tenho time favorito, não acompanho nada. Assisto os jogos da Copa — porque não gostar nem disso é coisa de hipster bunda-suja que diz que tá torcendo pra Alemanhã ou pra Moçambique; não fodam — e só.

Pois bem, ontem fui convidado pra uma partida com os amigos aqui perto. Eles vivem me convidando, mas tou sempre ocupado com uma coisa ou outra (a internet ou internet). Ontem o dia estava sensacional e eu não via os colegas há algum tempo, portanto topei.

Chego lá no campo e noto meus amigos peruanos trajando orgulhosos as camisetas de sua seleção, e pensei “caralho, quando eu finalmente tenho um bom motivo pra usar minha camiseta pirata da seleção comprada por 10 reais na Feirinha do Artesanato em Fortaleza, não uso!“. Mas tudo bem.

Apresentações rápidas entre os caras que ainda não se conheciam (tudo gente boa), e os times foram escolhidos.

Os capitães disputaram a minha posse avidamente, e como justificativa argumentavam que o outro já tinha escolhido o Fulano ou o Sicrano, e portanto pegar também o brasileiro não era justo. Observei o impasse com nervosismo; a decepção seria imensa quando eu pegasse a bola pela primeira vez. Enquanto me aquecia, estava na esperança de ter escondido em meu DNA algum resquício de habilidade esportiva que até então não havia se manifestado. Tipo um gene mutante dos X-Men.

Pois bem, começa o jogo. Assim que nosso atacante se vê marcado e impedido de prosseguir, obviamente a bola passa pra mim. Matei no joelho desengonçadamente e manobrei-a pra frente sem pisar nela — o que pra mim é um achievement incrível — e lá na frente perdi a bola pra um zagueiro muito mais habilidoso.

O tempo inteiro, o time berra incentivos a quem está com a bola. VAI FULANO, É TUA, CORRE PRA CIMA, METE NELES! O espírito de camaradagem é contagiante, e por mais que eu não dê a mínima pra esportes ou trabalho em equipe de qualquer forma (aliás eu não gosto de elogiar ou encorajar ninguém), em pouco tempo eu estava também gritando palavras de aprovação às boas jogadas dos amigos.

E isso é muito bacana. Vocês que viveram a vida toda em algum esporte devem ser bastante familiarizados com a experiência, mas pra alguém que nunca jogou nada (nem na escola), é uma situação nova.

Por isso eu me sentia realmente o herói futebolesco que meus companheiros achavam que eu era. Sabe quando você assiste um jogo de futebol e a comoção do estádio aumenta automaticamente no momento que um atacante invade a área adversária? Então, era isso que acontecia sempre que eu sequer passava PERTO da bola ontem.

Até então eu estava ativamente FUGINDO da bola pra evitar vexame e/ou fracassar no domínio dela e entrega-la sem querer pro outro time. Acontece que toda essa animação acabou me motivando pra tentar alguma coisa um pouco mais ousada. E eu tive minha chance quando, enquanto avançava com a bola, fui bloqueado por dois jogadores oponentes.

Fiz um search mental por todos os vídeos de tributo ao Ronaldinho que já vi no youtube e MIRACULOSAMENTE, executei aquela drible em que o sujeito engana a defesa oponente passando as pernas por cima da bola. Esse tal do “pedalada”.

Poisé. O problema é que exauri toda a minha pouca habilidade esportiva na execução (muito boa até, e olha que eu não sou de elogiar o que eu mesmo faço, porque sei que não tenho talento pra nada) do drible, e em seguida errei o passe: essencialmente entreguei a bola pra um jogador adversário cuja cor da camiseta me confundiu. Achei que era um broder nosso.

(Aliás o nosso goleiro foi jogar sem óculos e duas vezes cometeu o mesmo erro, um deles resultando em um gol contra a gente)

Mas enfim. Não fiz mais porra nenhuma no jogo, mas a impressão que os amigos tiveram é que eu sou um mega mestre do futebol que esconde o ouro por ser muito humilde.

Perdemos de 5 a 3 no final, não fiz nenhum gol — mas o simples fato de que eu aguentei correr por duas horas praticamente initerruptas, e que não pisei na bola e caí vergonhosamente nenhuma vez, já teria sido considerado uma vitória por mim.

Sem contar que o espírito de camaradagem entre o time é um negócio muito legal. Como já falei, pra mim que me isolei de todo tipo de atividade esportiva a vida inteira, é uma sensação completamente nova. Voltarei na semana que vem pra jogar com os broders, e assistirei mais vídeos do Ronaldinho até lá.

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comments

23 comments

  1. Rapaz quando eu chegar ai no Canadá, serei o primeiro a ser escolhido e não o que é escolhido depois do cadeirante como aqui *-* ?

  2. Acompanho a um bom tempo os vídeos no youtube nunca cheguei a ler a um texto no site este é o meu primeiro texto que leio e achei ótimo penso em ler oque perdi li pensando na voz do izzy falando muito show continue com este ótimo trabalho haha tenho 16 anos e é claro tenho educação física aqui no Brasil 90% do ano nesta matéria é futebol ou futsal tanto faz sou péssimo até evito jogar é muito show ler um texto de experiencia de outra pessoa

    1. Também perdi a virgindade de ler no blog.

      A voz do Izzy na mente foi tão natural, quando li o teu reply fiquei rindo sozinho (kkkk).

      Bom trabalho Izzy

      1. Estamos na mesma! Hoje é meu primeiro dia por aqui e vivenciei a mesma experiência lendo seus textos. Acompanho o Izzy pelo Youtube no PS3 há uns 08 meses e não tenho acesso aos links que ele eventualmente posta .. ontem assistindo o vídeo sobre o “Ben Batman” ele mencionou a respeito do site … Boa Izzy!

  3. cara, joga uma pelada cos parceiro é uma das coisas mais bacanas que tem, continue indo, alem de ser divertido faz bem pra saude =]

  4. Kid, você já não postou isso? Está fazendo algum teste se alguém lembra? Hehe.

    Não há vergonha em dizer que é repost.

    1. Ou verdadeiros INIMIGOS… Tem sempre o carinha que por ser um ano mais velho (geralmente um burrinho que reprovou) e por isso tem mais força muscular ou alguma habilidade a mais se acha no DIREITO sagrado e inalienável de escrotizar com todo o resto da gurizada.

  5. Também nunca fui bom na linha, no começo tentei melhorar, virei zagueiro por um tempo mas vi que não tinha futuro.

    Resultado, com cerca de 12 anos de idade virei goleiro(por culpa da falta de habilidade e pela estatura) e hoje em dia já faço parte da equipe principal do Grêmio.

    Se tivesse insistido em jogar “na linha” não estaria aqui hoje, sendo assim eu levo esta lição para a vida toda, ás vezes não ser bom em alguma coisa não é exatamente ruim, o que é importante é você encontrar algo que você seja bom!

    Abraço Izzy, sou leitor assíduo do teu blog(me ajuda a passar o tempo especialmente nas concentrações)!

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