Um mundo sem o Uber, ou “Porque velhas soluções precisam morrer”

uber

O Uber, o serviço alternativo de taxi que está causando polêmica legal onde quer que se instale, está rendendo umas notícias tensas no Brasil. Os taxistas, sem querer abrir mão do status quo (alguns menos lisonjeiros chamariam de máfia), estão tocando o puteiro para impedir que o serviço opere.

Isso não é inesperado. Indústrias já estabelecidas comumente tentam, de uma forma ou de outra, impedir novas formas de fazer as coisas, se essas novas formas ameaçam seu negócio.

Mas imagina como o mundo seria se isso se seguisse à regra.

Imagina um mundo sem eletricidade porque os fabricantes de velas determinaram que luz elétrica é “concorrência desleal”.

Imagina um mundo sem PCs porque a comunidade datilógrafa começou a depredar lojas e vendedores de computador, pra coibir a adesão de novos vendedores.

Imagina um mundo sem televisão porque os magnatas do rádio não queriam dividir seu marketshare com um novo tipo de mídia.

Imagina um mundo sem carros porque a indústria equestre organizou protestos na frente das montadoras, dizendo que o negócio deles é “ilegal” já que no momento só existe regulação do transporte por cavalos.

Imagina um mundo sem Netflix porque as locadoras, que precisavam passar por processos burocráticos para regulamentar seu estabelecimento, fizeram um lobby contra o streaming (“a gente paga um monte de tarifa pra manter o comércio e esses caras não precisam nem de uma loja física?!?!”).

Imagina um mundo sem câmeras digitais porque a Kodak e a Fuji arrumaram loopholes legais e lobbistas bem pagos pra garantir que seu negócio mais lucrativo, a venda de filme fotográfico, permaneça em voga.

Imagina um mundo sem celulares porque as empresas de telecomunicação, em vez de adotar a tecnologia, decidiram lutar contra tais aparelhos porque preferem que os usuários continuem pagando pelo uso de orelhões. Afinal, eles já estabeleceram toda a intraestrutura — não podem abrir mão assim “do nada”.

Dá pra aplicar essa lógica a literalmente qualquer nova tecnologia ou serviço que torna obsoleta a solução previamente estabelecida. E olha que eu tenho tio taxista; a ameaça à indústria dos taxis é algo que afeta minha família diretamente, e ainda assim a única coisa que eu posso falar é “tio, aprenda a digitar então porque chorar para que o Estado a defender seu diploma de datilógrafo não vai dar certo”.

Li um texto falando que essa comparação não vale porque o Uber “não é uma tecnologia” — o que é um non sequitur completo. Reduzir a discussão da viabilidade do Uber versus o papel social dos taxistas já estabelecidos simplesmente a “mas o que exatamente conta como ‘tecnologia’, afinal de contas?” é um exercício fútil de pedantismo.

Aliás, fica a dica: qualquer momento em que alguém usar do falastrão ~falsa dicotomia~, a tradução é “eu não quero aceitar sua comparação, porque não e pronto”. Seguindo o mecanismo lógico dessa turma, comparações simplesmente não deveriam existir, já que sempre que se compara algo, compara-se coisas diferentes que tem alguma similaridade entre si. Se tais diferenças arbitrariamente invalidam uma comparação, então não se pode comparar coisa alguma.

A propósito, esse texto é tão intelectualmente desonesto, cheio de espantalhos bobos, que já sinto desgosto de ter rendido a eles alguns views.

O progresso SEMPRE vem às custas daqueles que investiram em soluções arcaicas. Olhe ao seu redor AGORA MESMO e você verá que sua vida depende de inúmeras coisas cujo advento pôs muita gente na rua.

Os taxistas têm (no momento) a sorte de que o estabelecimento legal está do lado deles.

E pra fechar: você já ouviu o termo “ludita“? Não parece ser muito comum no Brasil. A palavra é uma tradução de “luddite“, que eram os trabalhadores da indústria téxtil inglesa do século 19. Os caras se tornaram infames por atacar e até mesmo destruir teares mecânicos, por temer a ameaça que esta tecnologia representava ao seu meio de vida.

Ó os caras tocando o puteiro aí

Hoje, o termo “luddite”/”ludita” significa “aquele que é adverso ao progresso”.

A história se repete mesmo.

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comments

23 comments

  1. Não acho que QUALQUER momento que alguém citar a famigerada falsa dicotomia deva ser posto automaticamente em descrédito, acho que sempre os argumentos precisam ser racionalizados. Nesse caso, não apenas por concordar com seu ponto de vista, mas também por perceber que o instrumento comparativo é idôneo, acho que não cabe de forma alguma a citação da falácia. Mas as vezes há sim uma intenção de comparar ‘alhos com bugalhos’ para tentar forçar uma opinião.

  2. O problema é que toda vez que alguém lança a “falsa dicotomia”, essa pessoa quer criar uma distração para parar de discutir o ponto principal e ficar discutindo detalhes inúteis.

  3. Puta texto preguiçoso da porra que evolução este Uber apresenta para ter usado esses outros exemplos? Fora que temos o próprio governo metido nisso também fazendo o texto ser bem superficial. Como funciona ai no Canada, já que tu deu exemplo do Brasil, mas não entende nada de como funciona isso aqui.

    Existe uma mafia instaurada procure saber o preço da placa e o mercado negro da venda de licenças, aqui na republica das bananas se o pessoal honesto que opera táxi poderia aproveitar para expor o problema com essas discussões e brigas que estão ocorrem. Eu espero que seu texto ajude expor esse problemas apesar de tudo.

  4. bem… se ja demonstrou ser uma Máfia, a gente cidadao de bem pode tratar eles como mafiosos e colaboradores ne? bora tacar facada no pescoco dessa corja! higienizar a sociedade desses bandidos corruptos!

  5. Boa Noite, seu texto é muito ingenuo e superficial Izzy, simplesmente porq ele é preto no branco…bem contra o mal…e deixa de lado todo e quaisquer meio termo que é oq domina esta classe, eu alugo um alvará, e posso dizer que adoraria ir pro ubber, se ele nao fosse um serviço ilegal…Primeiramente, que existe sim uma máfia entre os taxis eu trabalho em são paulo..adoraria ter meu alvará mas o preço é um absurdo…mas não reclamo muito foi a profissão que escolhi, em são paulo pelo menos é considerada umas das melhores frotas de taxi do mundo, Vc que chama o Ubber de evolução, não tem nada de evolução sobre uma classe que ja faz tudo isso seja com 99 ou easytaxi, ou qualquer app que o valha, quer mais comodidade? chame um taxi especial ou de luxo…tudo isso ja existe…é exatamente oq o colega escreveu…vc tem o poder de escolha sim..atualmente vc esta arriscando sua vida no ubber porq ele nao tem nenhum tipo de regulamentação, e regulamentar o ubber significa acabar com uma classe que sim existe mafia e doidos e gente que se aproveita…como em qualquer segmento de trabalho. Então não vamos generalizar as coisas, que venha o ubber legalizado pr que 60% dos prepostos que atuam na cidade tenham uma chance de nao trabalhar 15 16 horas por dia pra conseguir o seu sustento….enquanto o resto vive sentado e esperando o dinheiro em casa. Existe tambem uma coisa que essas pessoas se acham donas do alvará quando é uma coisa de propriedade da prefeitura..e nego enriquece e a prefeitura sabe disso…mas isso é outro assunto, resumindo..não chame de evolução algo que nem é tão novidade assim…esperemos pela regulamentação da ubber para que exista de fato um poder de eescolha entre os usuários..e a demanda do mercado decidirá se os taxis tem que morrer ou viver.

  6. Eu acredito que se existe outro método para fazer a mesma coisa, mas de forma mais eficiente ou que lhe atende melhor, vamos tentar abraçar essa causa.

    O problema é o seguinte; Os taxistas têm que passar por toda uma burocracia para poder exercer sua profissão. Some isso ao fato de o número de profissionais trabalhando em uma cidade é regulamentado pela prefeitura.
    É exatamente o que o Kadu Gaspar comentou acima, via facebook. “A gente vê que o interesse dos taxistas é a manutenção do monopólio estatal quando eles protestam contra o serviço concorrente em vez de protestarem contra essas regulamentações totalmente absurdas.”

    As regras daqui são estúpidas. A competitividade nos setores é pífia e não é incentivada, muito pelo contrário.
    Se o Uber está atraindo mais clientes, aí está uma boa oportunidade para os taxistas se reciclarem e procurarem por medidas inovadoras para atrai-los de volta. Isso é capitalismo.

    Para não ficar completamente do lado do uber, enxergo o ponto de vista dos motoristas “legalizados”. Depois de toda a burocracia, cursos e afins para realizar seu trabalho vem alguém que não teve nenhum trabalho para obter essa regularização e pratica a mesma atividade.
    É mais ou menos a mesma coisa que o Izzy estava comentando no twitter sobre o ambulance boy de Calgary. O maluco não tem treino como paramédico mas mesmo assim anda pela cidade com sua ambulância “pirata”. (Ok, é um pouco extrema a comparação, mas deu pra entender).

    Minha solução utópica: Acabem com a putaria nos processos burocráticos, aumentem o número de taxis liberados (ou elimine o limite).
    Quanto ao Uber: Os motoristas já pagam uma boa taxa para a empresa, para a gasolina, ipva…. Os devidos impostos deveriam ser recolhidos da própria empresa que disponibiliza o aplicativo.

    Enfim, é a minha opinião. Não quis ofender ninguém, só alimentar a discussão! (rimou)

  7. Fazendo referencia a bastiat <3
    A historia do uber em São Paulo se resume a relação governo X empresas de sempre: Proteger um determinado grupo em detrimento do resto da população, valido ressaltar que o setor em questão é fodido pelo estado que cobra sua parte pela proteção ( e chama isso de legislação).
    Os Corleone não fariam melhor.

  8. Só tem um problema que não foi levantado no texto, que talvez até não se aplique, pois o texto aborda mais o fato de ser um serviço de carona compartilhada, do que a Uber como uma empresa:

    Direitos trabalhistas.

    Vejam bem, a Uber abusa do caráter de autônomos de seus motoristas (especialmente esse UberBlack) para evitar o pagamento de seguros, manutenção e outros gastos dos carros. Ela cria uma relação de patrão-empregado, mas nega isso até a última possibilidade, pois senão ela caracteriza-se completamente como uma empresa de táxi, e não de carona coletiva, que não possui regulação em nenhum canto do mundo.

    O único que pode ser caracterizado como carona coletiva é esse UberX. E cobrando uma comissão da corrida, pra mim ele ainda continua caracterizado como serviço de táxi (deveria cobrar só uma pequena taxa por cada corrida, um “custo de facilitação”)

    Copiado e colado do meu comentário em outro site. Talvez, posso adicionar que, mesmo o cerne da questão ser justamente isso que foi colocado no texto, há mais coisas por trás que tem de ser vistas

  9. O Uber realmente está colocando concorrência com o monopólio dos taxis, ao invés de combatido deveria ser regulamentado. Ao contrário de empresas de energia elétrica que tem um monopólio natural e não temos outras opções de acesso a energia, com o transporte estão nos oferecendo uma opção nova de transporte.
    Não só o uber, deveriam haver outras opções para essas questões de mobilidade urbana, não sei bem mas talvez incentivar o uso bicicleta, caronas, mais pedágios, e desestimular o hábito de usar o carro como pricipal meio de transporte enquanto dos dão outras opções de transporte.

    1. Como se já não tivessem barreiras suficientes: estradas ruins, gasolina cara, congestionamento permanente, carros que custam uma fortuna, manutenção cara… O que falta é transporte em massa eficiente. Os ônibus são sempre lotados, metros não dão conta da demanda e são uma fração dos de países de primeiro mundo, o transporte ferroviário no país é inexistente, etc.

  10. São malandros mesmo, se puderem monopolizar o transporte todo tiram até os ônibus, vão bajular qualquer político ou juiz que lhes favoreça. A raça brasileira é assim mesmo.

  11. Que merda de texto!! O cara compara máquina de datilografia com uber… O cara compara Netflix com uber… Vamos aos pontos todos essas novas tecnologias trouxeram algo realmente novo… Exemplo Netflix vc não precisa mais sair de casa em um dia chuvoso e frio para alugar um filme e ainda correr o risco do filme ser uma merda. Com Netflix vc assiste no conforto da sua casa e quantos quiser por um preço único… WhatsApp trouxe a facilidade, economia e rapidez ao enviar e receber mensagens… O que o uber trouxe? Carros que voam? Carros que não pegam trânsito? Uber na grande maioria das vezes é mais caro! Em São Paulo principalmente se comparado com táxi seus carros são velhos! Demora muito mais para chegar que um táxi quando solicitado pelo 99. E demora muito mais para chegar ao destino pq não usa faixa nem corredor de ônibus… O que tem haver uber com velas e energia elétrica? Que facilidade o uber? Que inovação uber trouxe? Que praticidade uber trouxe? Uber nada mais é que um táxi sem licença, sem fiscalização, que cobra quanto quiser por corrida, se vc usar o cartão Amex ainda é taxado em dólares!

    1. A única lição que uber trouxe foi a questão da avaliação pelo usuário… Essa é a única coisa boa do uber, que deveria ser aplicado a todo tipo de serviço privado e público.. De resto é uma cópia do táxi piorado. É como se uma turma da faculdade de direito tivesse que fazer a prova da OAB e a outra turma por usar uber não precisasse e no fim ambos tivessem o mesmo direito! Palhaçada!

    2. Com Uber você não precisa se sujeitar ao monopólio/máfia dos taxistas. Obviamente há um valor no serviço, senão ninguém usava — e o valor não é necessariamente uma mudança drástica na tecnologia, mas sim na conveniência.

      Sua análise é míope.

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