Me responde um negócio aí.

Você tem o poder de passar entre 6 e 8 horas por dia em casa, de pernas pro ar, se ocupando com coisas com as quais você gosta (jogando videogame, enchendo o saco dos amigos postando sobre política no Facebook e baixando filmes ilegalmente — muitos dos quais podem ou não ser pornográficos)? Se sim, eu te invejo.

Como vocês sabem, nas últimas semanas eu embarquei nessa rotina psicótica e semi-suicida de trabalhar em tempo integral enquanto estuda em tempo integral.

Aí inevitavelmente tem que um TIO DO PAVÊ nos comentários vir e falar que “grandes merdas, faço isso há muito tempo e não dá NADA”.

Sim, eu sei que você faz isso há anos como hobby, que não é nada demais, e que além disso você corre maratonas só pela galhofa da coisa e costumeiramente come pedras só porque está entediado. Eu sei que você é foda, só que eu não sou e esse estilo de vida está me MATANDO.

Tá sendo assim: acordo às 6 todo dia. Checo emails, tomo banho, como algo rapidamente enquanto cozinho um almoço E jantar. Jogo tudo numa bela marmita e saio correndo às 7 pra faculdade. Aula até às 14:50 horas, trampo das 15 às 23 horas. Termino, corro pra casa, e à meia noite estou pronto pra dormir. Seis horas depois, começa tudo de novo.

O resultado dessa rotina infernal é que eu finalmente compreendo o que significa “não ter tempo”. Eu literalmente não tenho tempo suficiente nem pra dormir; o fim de semana agora é agora um período mítico pelo qual eu compreendo o amor que a população mundial em geral sente.

E um fenômeno curioso dessa rotina espartana é que ela gerou em mim uma motivação maior do que qualquer coisa que eu já fiz na VIDA. Todo dia quando acordo eu penso “se eu não fizer essa porra bem feito, todo esse suplício está sendo em vão“. Vou pra faculdade com isso ecoando na cabeça.

Reparo que a falta de tempo faz você usa-lo de forma muito mais eficiente. Estudo quando tou na condução, estudo no intervalo de aulas, estudo no trabalho praticamente o expediente inteiro. O resultado parcial disso é que tive minhas quatro primeiras provas e minha nota mais baixa até agora foi A- (que é equivalente a 95% da prova), pra você ter uma noção.

Tou levando essa merda a sério como nunca levei nada na vida inteira. E vou te falar, a sensação de abrir uma prova e estar totalmente confiante em relação ao conteúdo dela por ter estudado o material até decorar passagens inteiras dos livros é algo libertador.

E é curioso ver a galera que leva os estudos na molecagem (que era o time em que eu tradicionalmente jogava) pelo outro lado da lente.

Todo dia eu vejo um maluco que não fez um trabalho, ou completa o dever de casa às pressas antes da aula, ou não sabia que era dia de prova.  Invariavelmente ouço um comentário tipo “ahhh nem tive tempo“, sendo que eu SEI que o fulaninho em questão tem 20 anos, mora com os pais e não trabalha.

Eu me perguntaria com o que o cara gasta o tempo dele mas, tendo estado naquela posição, eu sei exatamente com o que: com TUDO, menos com o que ele deveria estar realmente gastando.

Tipo você, que também deveria estar estudando mas tá lendo essa porra de blog.

 

Como os ilustres colegas sabem, retornei triunfalmente aos estudos. Estou mais focado que nunca em minha carreira acadêmica — afinal de contas, uma coisa é você entrar na faculdade de graça aos 17 anos; é completamente diferente pagar uma pequena fortuna aos 27 pra finalmente obter um diploma.

Esse era eu com dez anos (e 40 quilos) a menos

Essa carteirinha da UNE é essencialmente o único artefato que me oferece alguma conexão com minha vida passada, aliás. Serve como um lembrete tangível de que, muito tempo atrás, existia um Israel — quando hoje em seu lugar há um Izzy. Quer dizer, em seu lugar, e se extendendo num raio de 4 ou 5 centímetros em todas as direções. Maldito fast food.

Desnecessário dizer que minha motivação pra estudar é completamente diferente. Quando prestei vestibular pela primeira vez, em 2001, eu tinha acabado de terminar o ensino médio e não sabia exatamente o que queria da vida; o simples ato passar no vestibular era um objetivo mais imediato. Seu nome na listinha de aprovados no vestibular no jornal da cidade (CARALHO COMO EU SOU VELHO) era um documento que provava aos seus pais que você não era um vagabundo completo.

Uma vida inteira levando o colegial na plena molecagem (fazer dever de casa às pressas enquanto esperava o professor chegar na sala para recolhe-lo, estudar por no máximo meia hora na noite anterior à prova, e por aí vai) desenvolveu hábitos e uma mentalidade que eu levei para a faculdade, com resultados previsíveis.

Meu primeiro semestre na faculdade foi um desastre. E o segundo também. Só no segundo ano é que comecei a compreender que o andar da carruagem é outro e que terei que me adaptar de acordo.

Quando entrei no CEFET em 2003 (onde cursei um semestre de Edificações) até que me dei um pouco melhor. Acabou nem adiantando de nada, por causa da minha emigração. Larguei ambos os cursos em novembro daquele mesmo ano quando vim pro Canadá.

Como já expliquei milhares de vezes, a lenta burocracia do processo de cidadania atrasou minha vida em diversos aspectos, especialmente a acadêmica. Tendo eu lá meus 20 e poucos anos, e considerando que na América do Norte morar com os pais tendo esta idade é visto com extremo desprezo, meu foco foi garantir minha independência financeira. Formação acadêmica teria que esperar.

Só em 2010 pude finalmente dar a partida pros estudos. E a burocracia de obter minha documentação brasileira atrasou essa porra toda mais ainda. Enfim, finalmente em 2012 retornei à faculdade.

Como falei no começo, a longa espera pelo retorno à vida acadêmica e o preço que tou pagando pra custear essa merda me fizeram focar absurdamente na missão de ser bem sucedido nos estudos. Estou mais concentrado que nunca e estudando de verdade pela primeira vez na vida, um fato caracterizado pelas inúmeras vezes que colegas de sala vieram a mim perguntar o que está acontecendo em relação à agenda de aulas ou conteúdo de uma matéria.

Por causa dessa prioridade máxima do sucesso acadêmico, eu pensei, eu iria perder uma boa parte da experiência estudantil, que é o desenvolvimento de um novo círculo social.

E me enganei. Acabei sendo assimilado sem querer ao que compreendo como o embrião de um novo grupinho na faculdade.

Começou casualmente. Comparávamos anotações rapidamente durante a aula, mas de maneira extremamente formal; com o passar dos dias, ao cruzar pelos corredores trocávamos um “e aí mlk, blz?”. Com o passar do tempo, a proximidade dos nossos armários fez com que as mesmas 4 pessoas estivessem sempre perto uma das outras.

Conversas mais longas prosseguiram, incluindo às vezes comentários sobre situações pessoais (o motivo do atraso de um na aula do primeiro período, ou os planos de outro pra noite de sábado). Subitamente, as localizações geográficas de cada um dos integrantes do pequeno grupo começou a sofrer um fenômeno de migração. As quatro cadeiras se aglutinaram num canto da sala.

Mas até aí ainda era tudo meio casual/acidental; não havia acontecido um momento explícito que declarasse que esse era o nosso “grupo”. Até alguns dias atrás quando, após o término de uma aula que sinalizava aquele estouro de estudantes que inunda os corredors da faculdade, eu investigava três agendas pra decidir que livros deixar no armário da sala, e quais trazer comigo pra estudar no trabalho.

 

O grupo continuou andando enquanto briguei com o cadeado pra ganhar acesso aos conteúdos do meu armário. Chequei a agenda oito vezes, troquei os fichários correspondentes, e quando me levantei e pus a mochila nas costas… os broders ainda estavam lá, esperando por mim.

E um gesto aparentemente tão simples e insignificante provocou um impacto imenso em mim. Eu não pedi pra turma esperar por mim (aqui vale a observação de que um dos membros do grupo é na verdade uma membra, e é portadora de nível 9.8 de gostozice), eles apenas perceberam que eu havia ficado para trás e pararam autonomamente pra me esperar.

Foi uma demonstração simples, porém pura, espontanea e inequívoca de cumplicidade que sinalizou a oficialização do grupinho. Em outras palavras, fui aceito e estou em igual patamar de importância na dinâmica social desse pequeno grupo.

E aí veio a realização: esses são os caras (e a gostosa) com quem me associarei durante o ano letivo. Estas quatro pessoas formarão um pequeno microcosmo dentro do contexto maior que é o resto da sala.

Dias mais tarde números telefônicos foram trocados e o contato se estendeu pra fora da faculdade. E eu oficialmente tenho 3 novos (e bons) amigos.

Isso é muito bom. A parceria broderística será de grande valia nesse período de completa loucura em que acordo às 6 da manhã, estudo até as 2:30, e em seguida corro pro trabalho onde fico até às 11 da noite.

E vamo que vamo.

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Tou no momento curtindo o novo circulo social. Eu sentia falta disso, de conhecer um grupo de pessoas com não apenas os mesmos gostos pessoais de música e filmes, mas também com objetivos similares (senão IGUAIS) de quem você pode pegar algumas idéias e oferecer feedback. É bom estar cercado de gente tão ou mais focada que você, serve de motivação.

De fato, fazer amigos no meu curso tem sido uma das melhores influencias positivas a que fui exposto nos últimos ANOS.

Mas com isso vocês é que se fodem, porque os “recreios” solitários que u passava escrevendo textos serão mais raros.

Fazer o que né? Como disse o Dr. Jeff Goldblum em O Parque dos Dinossauros, a vida encontra um caminho.

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