Eu mantenho contato, através do WhatsApp, com um grupo de amigos dos tempos de Brasil.  Discutimos política nacional, nova séries do Netflix, videogames, ex-namoradas, esse tipo de coisa. Hoje um dos broders me surpreendeu mandando essa foto pro grupo:

fotinha

O cara que mandou a foto (Antônio, que hoje é um respeitado profissional de sua área mas na época era o moleque da rua de cima que vivia me enchendo o saco pra eu emprestar-lhe meu CD de Delta Force) é o rapaz de vermelho no centro da imagem. Aliás, repare que o Antônio tem um monte de carta de Magic na mão, e estava possivelmente montando um deck/analisando opções de troca com algum dos outros nerds na foto.

Magic era a cola social que unia nosso grupo; grandes amizades nasceram por causa da apreciação mútua do jogo (aliás, todos os caras do tal grupo de WhatsApp que mencionei no começo eram jogadores de Magic). Por isso, mesmo que hoje em dia meu contato com este esporte seja limitado por falta de tempo, tenho um apego emocional forte com esse que é o card game primordial.

Mas então, o Antônio me mandou essa foto, e eu não lembro de forma alguma de que dia isso rolou. Não sei nem de quem exatamente era essa casa, mas certamente devia ser de algum amigo próximo porque senão eu não teria desperdiçado meus talentos musicais a toa; teria cobrado pela apresentação.

E essa foto me fez pensar, novamente, em quão mais distante e difícil de lembrar o passado da galera nascida nos anos 80 (ou seja, minha tribo) é. Aliás, eu diria que minha geração é a última que tem uma lembrança meio turva do próprio passado de acordo com essas fotos velhas tiradas com máquinas analógicas. O pessoal que nasceu dos anos 90 pra frente, em sua maior parte, viveu num mundo de fotos digitais.

Antes das câmeras digitais, tínhamos um relacionamento bem diferente com fotografias. Em primeiro lugar, era bem mais caro tirar fotos — você precisava comprar filme, que era algo que ninguém fazia com tanta frequência assim (e olha que meu pai literalmente trabalhava pra Kodak e tinha mais acesso a filme fotográfico do que qualquer outra pessoa que eu conheço).

Tu comprava lá teu filme de 36 “poses”. Era curioso isso; não eram 36 fotos, eram 36 POSES. De forma bem subliminar, essa terminologia revelava outra coisas sobre as fotografias daquela época. Eram, quase sempre, ensaiadas e previsíveis. Eram uma pose, não a sua condição real.

Eram, quase sempre, de um grande evento (festas de aniversário, por exemplo). Por isso, estávamos quase sempre bem vestidos, com o cabelo arrumadinho, e deliberadamente posando para a câmera. Frequentemente, rodeado de pessoas que não são nossa família imediata, que era natural no contexto de uma celebração sendo fotografada. Sempre sorrindo.

Por causa disso, as fotografias dessa época contam uma versão muito fragmentada da história da nossa vida. Vemos só os momentos mais significantes, eventos maiores, reuniões com a família, esse tipo de coisa. Fotos como a que você vê acima (um bando de moleques fazendo algo totalmente trivial) eram relativamente raras.

E mesmo quando elas existiam, a nossa falta de habilidade fotográfica ajudava pra embaçar um pouco o passado — literalmente. Fotos mal tiradas, com péssimo enquadramento, borradas, eram lugar comum. Não tínhamos como ver como a foto ia ficar, e a falta de prática com as câmeras garantia que pelo menos umas 2 daquelas 36 “poses” era COMPLETAMENTE esculhambada, com o dedo na frente do flash ou da própria lente, ou clicada sem querer quando a câmera sequer estava apontado pra nada em particular.

Isso me faz pensar sobre a geração atual, a proliferação de smartphones com câmeras, e a nova cultura fotográfica que temos. Agora, nada é trivial o bastante para NÃO ser fotografado. Fotografamos até pratos de comida!

Como sempre acontece quando a sociedade vai lentamente mudando de atitude em relação a isso ou aquilo, evidentemente algumas pessoas criticam pra caramba essa nova Igreja Quadrangular do Reino do Instagram; dizem que é exagero, que é muito egomaníaco, ou que é muita auto-exposição. Tem gente até que escreve textos reclamando das formas como as pessoas escolhem de se comunicar através de fotografias.

Eu diria que essa crítica é imediatista e míope. Em tempos em que a maior rede social do mundo fuça suas conversas privadas pra te oferecer publicidade baseada no que você está falando (isso pra citar só UM exemplo da vigilância orwelliana em que vivemos atualmente), privacidade já morreu já muito tempo — quer você tire fotos do seu almoço ou não.

Então, o negócio é aproveitar o que dá. “Eles” podem saber bastante sobre mim, mas pelo menos no processo, nós saberemos muito mais sobre nosso próprio passado, graças a uma mudança na cultura fotográfica que captura uma versão bem menos fragmentada da nossa existência coletiva.

 

 

 

 

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Houve uma época em que eu odiava música indie. Não sei explicar exatamente o que era; provavelmente, o som meio leve não atendia as minhas necessidades de adolescente revoltado com o mundo. Algo como o Two Door Cinema Club, ou o Capital Cities, que são duas de minhas bandas favoritas atualmente, era o tipo de coisa que me causava urticária tamanho era meu desgosto por aquele estilo.

Aliás, nem era só indie que eu odiava — qualquer música mais “calma” me causava, paradoxalmente, profunda irritação. Instant Crush do Daft Punk com o Julian Casablancas, uma das canções que mais ouço hoje em dia, é o tipo de música que me faria arrancar a própria piroca e jogar pela janela, tamanha era minha insatisfação com esse tipo de música.

Meu negócio era METAL. Todo tipo de metal. Nu metal, black metal, death metal, speed metal, metal melódico, eu só ouvia isso. Se não tivesse guitarra distorcida, bateria com pedal duplo e alguém gritando (geralmente sobre dragões e feiticeitos, como era o caso do metal melódico), eu não queria nem saber do que se tratava.

Aliás, essa temática meio Terramédia do metal melódico era curiosa. Fonte de galhofa pra alguns e motivo de orgulho pra outros, a inspiração claramente tolkeniana tornava as capas dos discos virtualmente indistinguíveis de livros de RPG ou cartas de Magic. Por exemplo, abaixo coloquei várias imagens. Qual deles você acha que é uma capa de um álbum do Rhapsody, e qual é um livro do jogador de Dungeons and Dragons?

carta de magic

Se você respondeu que alguma dessas é a capa de um livro de RPG, você errou. Todas são ilustrações de discos do Rhapsody.

Então, hoje eu estava tentando re-experimentar um pouco do meu antigo apreço pelo metalzão de outrora. E explorando o catálogo metálico do Apple Music (com quem fiz as pazes, finalmente encerrando os perrengues centenários que tenho com o iTunes e a sincronização meio bugada com meu celular), percebi um fato que nunca contemplei antes: se eu não fosse metaleiro, eu não teria conhecido minha esposa.

Eu e a Bebbinha nos conhecemos em 2004, na festinha de um amigo em comum chamado Chris. Este é o Chris:

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Duas coisas dignas de nota: não, ele não é maconheiro; e na PRIMEIRA foto que catei dele no FB, ele tá com uma camiseta temática ao post. Sensacional.

Conheci o Chris totalmente por acaso — meu pai estava consertando o computador de uma senhora do nosso bairro pra tirar uma grana extra, notou uma revista de metaleiros na mesa de centro (que pertencia ao filho dela), e falou “olha, meu filho toca guitarra também, e tá em casa sem fazer porra nenhuma, posso chamar ele aqui pra conhecer o seu filho?“. Mais ou menos um mês depois, eu e o Chris tocávamos numa banda junto. E foi tocando nessa banda que eu conheci a Bebba — que era amiga dele de escola, e igualmente metaleira.

Aliás, olha uma foto aí de quando ela tinha míseros 16 aninhos:

DCP_8206

Mudou quase nada

E foi aí que eu percebi que, não fosse o gosto mútuo por Linkin Park, Metallica e Dragonforce, eu provavelmente não teria conhecido o Chris. E, consequentemente, não teria começado uma banda com ele, e assim não teria conhecido a Bebbinha.

A vida é curiosa desse jeito. As circunstâncias que me levaram a conhecer minha esposa foram extremamente tênues — um delicadíssimo balanço de acontecimentos se fez necessário, e se qualquer daquelas variáveis não estivesse milimetricamente posicionada, minha vida hoje seria dramaticamente diferente.

Se você é daqueles que acredita em destino, você provavelmente dirá “mas se não fosse através do Chris, e se não fosse por causa daquela revista, você teria conhecido ela de alguma outra forma”. Os mais céticos, como é o meu caso, vêem o universo de outra forma. Não acho que existam “inevitabilidades”; não creio que eu estava de alguma forma destinado a um futuro específico, que aconteceria a despeito de qualquer circunstância.

Se o Chris tivesse trazido a revista pro seu quarto naquele dia, em vez de deixado-a na mesa, eu não teria conhecido minha esposa. Um gesto tão absolutamente trivial que mudou fundamentalmente a vida de duas pessoas (na verdade, até mais — um casamento une duas famílias, afeta incontáveis vidas), pra sempre.

Isso me faz pensar em todas as coisas que NÃO me aconteceram por fatores microscópicos. Será que comer num certo restaurante em vez de outro teria resultado numa morte prematura, sendo atropelado a sair de lá? Ou perder o trem me levaria a conhecer alguém com quem eu iniciaria um negócio, me tornando rico…? As possibilidades são literalmente infinitas. Tragédias devem ter sido evitadas por circunstâncias trivial.

Tenho um exemplo bem recente disso, aliás: há algumas semanas, ao sair do trabalho, percebi que a fome não me permitiria chegar em casa. Passando por um posto de gasolina, senti água na boca imaginando um sorvetinho gelado. Sei que eu sabia que deveria evitar tais quitutes, mas a gula falou mais alto. Entrei no posto e comprei um Cornetto de chocolate.

Aliás, foda-se. Pra que mentir? Comprei três.

corneto

Só deus pode me julgar

Pois bem. O processo todo demorou apenas uns 2, 3 minutos.

Saí do posto e, ao chegar na 16th Ave, uma das maiores avenidas da cidade, percebi uma comoção em um dos semáforos. Um carro branco, com janelas quebradas, cercado de transeuntes. Um grupo de pessoas tentava agitadamente tirar do carro uma garota que parecia estar desmaiada. Não havia ainda polícia nem ambulância no local — e eles costumam chegar na cena MUITO rápido aqui na América do Norte –, o que indicava que o acidente deveria ter acabado de acontecer. Foi disso que eu imaginei que a cena se tratava: um acidente, possivelmente causado por embriaguez, e a galera tava tirando a menina do carro pra evitar que ela fugisse.

Até pensei em tirar uma foto pra comentar ocorrido no Twitter, mas repensei por causa da imprudência que é tuitar digirindo.

Então. Eu estava trafegando na faixa da direita, porque teria que entrar à direita dali alguns quarteirões, mas tinha uma massa imensa de pessoas bloqueando a pista. Fui pra faixa da direita, onde passei devagarinho tanto pra evitar a multidão, quanto pra dar uma olhada na cena. A galera tava colocando uma garota negra desacordada no chão ao lado do carro, e berrando pra alguém “chamar a polícia”.

Nossa, essaí bebeu todas pelo jeito“, pensei, e segui meu caminho.

Na manhã seguinte, descobri o que havia acontecido. Alguém havia parado o carro do lado esquerdo do carro da menina (que estava na faixa do meio), e eu… pera, vô precisar de uma imagem pra explicar isso.

carros

Carro A está na faixa e que eu geralmente transito, já que saio da avenida à direita, dali alguns quarteirões. Carro B é onde o carro da garota estava. Carro C é pode onde precisei passar, porque a galera tava amontoada nas outras duas faixas. Entendeu?

Pois bem. O que rolou é que alguém passando na faixa do Carro C FUZILOU o carro da garota — matando a menina, ferindo o passageiro dela (que era o real alvo), e enchendo a parede do banco, que fica do lado oposto (ali no lado esquerdo da foto), de balas.

Agora vem a parada tensa. O assassinato rolou quase exatamente 3 minutos antes do momento em que eu passei por lá. Eu estava na faixa onde o se encontra o Carro A na foto acima, ou seja — se eu não tivesse parado pra comprar sorvete, EU PODERIA TER PEGADO TIRO NA CARA TAMBÉM. Estaria na linha de fogo.

metero bala

Você não faz idéia do choque que foi ver isso na manhã seguinte nos jornais, e perceber que você passou PERTÍSSIMO de morrer a toa.

Isso me faz perceber que a nossa vida é muito menos “fixa” do que gostamos de imaginar. No ponto de vista micro, sua vida é igual todo dia — acorda, levanta, escova os dentes, vai pro trabalho, volta pra casa, joga videogame… previsível. Imutável. Every day is exactly the same, diria o Trent Reznor.

Mas quando olhamos de forma macro, dando um “zoom out”, estão acontecendo todo dia MILHÕES de interações aleatórias, cada uma delas com o potencial invisível de mudar sua vida COMPLETAMENTE. A vida não é uma caminhada tranquila por terreno tranquilamente familiar. Em vez disso, estamos em cima de uma corda bamba, constantemente.

O que eu estou querendo dizer aqui é, compre sorvete sempre que sentir vontade, e deixe revistas de metal espalhadas pela casa. Pra mim sempre rendeu bons resultados.

Essa moça aí na foto é minha esposa. Casamos em 2012, e vivemos felizes até então. Sermos um casal feliz é uma certa contradição, e ao longo desse texto — que é na real uma franca confissão de forma que nunca fiz antes na minha vida internética — você vai entender perfeitamente por que.

Eu não consigo parar de irritar minha esposa. Literalmente não consigo. Se minha vida dependesse de eu passar 24 horas sem irritar minha mulher, eu morreria. Rezo para que eu nunca seja pego por um serial killer estilo o Jigsaw que imponha essa bizarra condição para que eu continue vivo.

Começa já de manhã cedo. Minha mulher sofre de cócegas por qualquer coisinha (talvez é por isso que ela vive rindo); sabendo que isso a irrita mortalmente, eu propositalmente passo o dedão na sola do pé dela. Ela se contorce toda de raiva, me empurrando pro outro lado da cama, enquanto eu me mijo de rir da reação dela. É idiota, eu sei. Mas é incontrolável.

Se eu levanto primeiro e vou ao banheiro, finjo que estou usando a escova de dentes dela, para seu horror. Ela entra pra tomar banho, eu pego TODAS as toalhas e escondo no meu escritório. E na saída do banheiro, apago a luz. “Ops, foi força do hábito, rsrs“, eu respondo quando ela inevitavelmente berra no escuro. Às vezes, pra zonear a temperatura da água do banho dela, dou descarga na privada. Três segundos depois ela está berrando novamente porque a temperatura da água do chuveiro caiu uns 20 graus.

Photo 2008-04-10, 6 24 17 PM

Em minha defesa, ela nasceu na neve. Tá acostumada ao frio.

Eu faço todas as mais desnecessárias piadas de tiozão do pavê num esforço de ser o menos prestativo possível para responder qualquer pergunta dela.

Por exemplo: após uma refeição, a mulher pergunta se “tem algo nos dentes“, e mostra os mordedores. Eu começo a recitar tudo que sei sobre anatomia dental:

“Ah, tem esmalte, tem dentina, tem polpa, tem um monte de coisa nesse teu dente aí”

E o Netflix? Se ela escolhe um filme qualquer (“aquele ali!”), eu faço questão de selecionar todos os filmes ao redor (“esse aqui?”), mas não o que ela escolheu. Até ela finalmente se encher e tomar o controle da minha mão.

Se ela tá me dando bronca por qualquer motivo, eu canalizo o Izzy Nobre de 12 anos — aquele que ao ser mandado pra sala da diretora, ou quando tomava bronca do pai, começava a rir histericamente. Se minha mulher está chateada porque eu não lavei os pratos, ou esqueci de ir pega-la em algum local no horário determinado, minha reação é começar imediatamente a rir (o que a deixa ainda mais revoltada).

Eu não consigo me controlar. Existe dentro de mim um estranho ímpeto que me leva a irritar minha mulher. É incontrolável; se eu deixo passar uma oportunidade de irrita-la, me sinto fisicamente mal até.

Como diabos eu resolvo isso?

Meu fim de semana consiste em estudar, fazer vídeo e atualizar o blog pra vocês. Essa semana eu balanceei mal essa equação e acabei estudando mais do que qualquer outra coisa, mas cá estou de volta com um conto em que eu QUASE me fodi.

QUASE. Esses dias aí eu perdi meu celular e o achei de uma forma que faria ninguém menos que o próprio Angus MacGyver se orgulhar deste cearense expatriado que vos escreve.

macgyver

Se bem que se ele perdesse o celular, o MacGyver construiria outro usando dos clipes de papel, uma batata e 3 folhas de jornal, então tem isso.

Foi o seguinte. Ontem, ou acho que anteontem, sei lá, depente de quando você ler esse artigo né? Então, nesse dia misterioso qualquer — que agora que eu paro pra pensar foi provavelmente na quinta feira –, eu e a patroa decidimos ir ao YMCA (que é melhor conhecido em terras nacionais como ACM, ou “aquela música lá do Village People”). Eu, como já expliquei, tornei-me um adepto da natação, e agora a Bebbinha quer entrar na onda também. Aliás, se eu fosse mais gordo e causasse maior deslocamento de água, ela entraria na onda literalmente.

Ao chegar na YMCA, puxo o celular do bolso pra verificar algo e encontro nada senão vento nos bolsos.

Pavor.

Começo aquele movimento quase epilético de bater simultaneamente em todos os bolsos (num país frio em que somos obrigados a usar jaquetas POR CIMA de suéters, você acaba com uns 13 bolsos pra verificar). O pulso cardíaco vai aumentando consideravelmente, e aí cai a ficha de que eu não sei onde está meu celular.

Sabe o que é separation anxiety? É uma desordem que causa profundíssima agonia se o doente mental que a tem está separado de alguma coisa da qual ele gosta muito. Aliás, o artigo da Wiki não inclui separation anxiety de celular mas eu mesmo posso corrigir esse defeito lá pra eles.

Não que eu tenha isso, na verdade. Eu não tenho piripaques só por precisar ficar sem usar o celular — eu acho, já que nunca fico longe do celular pra verificar isso empiricamente –, mas não saber onde está a porra do iPhone novinho em folha é de causar taquicardia em qualquer um.

Começo a reverificar os bolsos desesperadamente pra encontrar o bicho. A essa altura o staff da YMCA deve estar imaginando que estou dançando uma misteriosa Macarena silenciosa em velocidade Créu Número 5.

É: não sei onde está o celular. Não há como negar a realidade do fato.

O desespero é que eu lembrava claramente de ter saído com o celular no bolso. Minha mulher, já ciente da minha completa agonia, pergunta “mas você tem certeza que trouxe o celular?” e eu dou um olhar que diz “você está realmente perguntando se EU saí de casa com o celular? O cara com quase meio milhão de tweets? Você já me viu alguma vez fora de casa, ou até mesmo em casa, sem o celular na mão?”

Puta que o pariu. Saí de casa com o celular, e cheguei no meu destino sem. Onde estaria essa merda? Batendo a mão nos bolsos futilmente pela milésima vez (o MO clássico de quem perdeu algo mas simplesmente não quer aceitar a realidade), sinto a chave do carro e me vem o estalo: caiu dentro do carro, claro! Saí voando em direção ao meu veículo.

A esperança durou pouco. Revirei o carro inteiro e nem sinal do celular. Só aí me veio a idéia de usar o iPhone da muié pra, através do Find My iPhone, localizar meu celular perdido. Se o blipzinho do “radar” apontasse lá pra casa, TÁ DE BOA.

Volto correndo pra YMCA e peço o celular da muié. Ela, já impaciente com a perda de tempo, me dá o aparelho e vai pra piscina. Me sentindo como um funcionário da NSA tentando localizar o paradeiro de um importante informante que sumiu do mapa, entro no Find My iPhone e vejo, com alívio, que a bolinha do GPS do celular indica que sua posição é lá no meu apartamento mesmo.

Só que… tem um problema.

A triangulação do Find My iPhone não é perfeita. Frequentemente, ela não indica o local exato onde o celular está — ele mostra, em vez disso, a área geral onde o celular se encontra. O problema é piorado se o aparelho está dentro de um prédio, o que é o meu caso, forçando o sinal a atravessar inúmeros andares. O app interpreta esse sinal mais fraco como um círculo verde, dizendo “teu celular tá mais ou menos dentro desse círculo aí”.

Pior que isso, esse sinal errático faz a localização do celular oscilar entre alguns pontos aleatórios dentro da área geral onde ele se encontra. A maioria das pessoas normais, sem problemas crônicos e debilitantes de overthink as coisas, aceitaria o diagnóstico do aplicativo como “é, o celular tá lá em casa mesmo, e ele apenas aparenta estar se teleportando dentro do meu quarteirão por causa de idiossincrasias da tecnologia de GPS”.

Só que eu sou o Izzy Nobre, o cara que consegue pegar o cenário mais inócuo e, após pensar fixamente, obsessivamente, doentiamente nele por uns 2 ou 3 dias seguidos, achar que ele vai resultar na minha morte.

Veio-me a seguinte constatação: esse aparente movimento do celular pelo quarteirão, embora bem limitado e com epicentro bem próximo do meu apartamento (ou seja, confirmação não-oficial de que tá lá em casa mesmo), seria consistente com ter deixado o celular cair na rua ao entrar o carro, e algum vizinho o encontrou e tá perambulando lá perto com ele no bolso.

Pronto. Lá vem a ansiedade de novo. Find My iPhone não seria suficiente pra alguém paranóico como eu. Eu precisava de algo mais concreto, uma evidência daquelas que o advogado dos filmes leva no tribunal e o juri fala “Ohhhhh! Mas que advogado foda ele é!” e o juiz bate o martelinho pra eles se acalmarem porque isso aqui não é a casa da Mãe Joana.

Ok. O que eu posso fazer, daqui da YMCA e apenas com o celular da minha esposa, pra ter uma confirmação de que o celular tá lá em casa.

Já sei. Posso controlar meus computadores remotamente, e usar a webcam pra dar uma olhada no meu escritório. É uma idéia maluca, mas ir pra Lua ou fazer um filme baseado numa série dos anos 80 que ninguém mais dá bola também eram e deu bem certo.

Loguei no PC do escritório, abri o OBS (o software que uso pra transmitir joguinhos no meu canal do Twitch) e liguei a webcam.

Photo 2015-01-01, 7 05 49 PM

Mas é óbvio que não daria pra ver porra nenhuma. Que idéia imbecil, Izzy.

AÍ EU PENSEI: Peraí. Posso não VER o celular, mas posso OUVI-LO! O Find My iPhone tem uma função de disparar um alarme remotamente no celular perdido. Ligo essa merda, volto pro acesso remoto, e se ouvir o celular apitando, é sucesso!

Fiz o processo, voltei pro app de acesso remoto e… nada. Nenhum som. E aí eu lembrei porque — porque havia desconectado o microfone momentos antes de ir pra natação pra usar o headset com outro computador.

Puta que pariu. Tudo está contra mim hoje, vai tomar no cu! E agora?

Aí lembrei que minha webcam tem um microfone também! Bastaria então habilita-lo como fonte de captura de áudio nas configurações do OBS. E foi o que fiz.

Photo 2015-01-01, 7 05 41 PM

Imediatamente a estratégia mostrou sinais de funcionamento — o marcador de áudio do microfone, que antes estava sem atividade, começou a captar pequenos ruídos no quarto. Cooler do PC, aquecedor do apartamento estalando, o Marshmallow cagando em cima dos meus quadrinhos ou algo assim, há toda uma ópera de sons pitorescos num apartamento vazio.

Pingo o celular no Find My iPhone de novo. Volto pro TeamViewer e percebo claras oscilações no nível de áudio — algo está sendo captado! É o celular! OBA!

Só que lembra que eu falei que sou um ultra paranóico? Então. O TeamViewer não transmite sons sendo capturados ao vivo, então eu não teria como confirmar que os picos sonoros estavam sendo gerados pelo celular. Os picos PARECIAM consistentes com o som do ping do Find My iPhone, mas lembra que eu queria confirmação 100%?

Como então ouvir o som da parada se o TeamViewer não captura som “ao vivo”?

JÁ SEI! Removo o “ao vivo” dessa equação! O OBS permite fazer gravações usando a webcam; basta então ativar o Find My iPhone pela milésima vez, voltar pro app de acesso remoto, ativar a captura de vídeo, gravar alguns segundos, e então dar play.

Foi o que fiz.

Photo 2015-01-01, 7 05 29 PM

Perfeita solução, né? Só que DESGRAÇADAMENTE a função de tocar sons sendo executados remotamente via TeamViwer, que eu já usei no passado, parece não funcionar mais. A essa altura o iPhone 5 velhinho de guerra da minha esposa já tá com tipo 15% de bateria. Já percebeu que pessoas não-viciadas em tecnologia CAGAM se os aparelhos deles estão com pouca carga, e frequentemente deixam o bicho morrer antes de recarregar? Então.

Comecei a googlear desesperadamente uma forma de reativar a transmissão de áudio através do TeamViewer. Achei a solução: era uma mísera caixinha que de alguma forma se auto des-selecionou no meu aplicativo.

A primeira

Depois de TODA ESSA NOVELA DESGRAÇADA eu dei play no vídeo capturado remotamente. E eis o som estridente e monótono que soou como os cânticos sagrados dos anjos pros meus ouvidos ansiosos:

ACHEI A PORRA DO CELULAR, CARALHO!

E aí saí correndo pra piscina, com a sensação de que ninguém mais no mundo jamais se deu a TANTO TRABALHO só pra garantir que havia deixado um celular em casa.

fome

Então é (ou melhor, era) Natal, amigos! Natal! O aniversário de Jesus Cristo, um judeu que nasceu há mais ou menos dois mil anos atrás e que, de acordo com uns amigos próximos, fazia altas mágicas e tentou deixar uma mensagem de amor ao próximo (que seus fanboys seguintes de alguma forma transformaram numa estranha obsessão com a sexualidade alheia).

Você já parou pra pensar que se Deus é Pai, e criou tanto Jesus quando o Diabo… Satanás é irmão de Jesus? É assim que funciona, não é? Satanés seria então o irmão vagabundo, marginal, que tira nota baixa na escola, que deixa o cabelo crescer a contragosto do avô, que usa o gelo e não enche a forminha de volta.

Voltando à minha aventura natalina. Troquei os presentes com a Bebbinha, mandei SMSs para pessoas importantes e algumas não tão importantes assim mas que os contratos sociais obrigam a troca de mensagens de felicitações natalinas, e fui pra casa do meu pai tomar café da manhã. Chegando lá gravei esse videozinho com o Kevin, meu meio-irmão.

(Como SEMPRE tem alguém pra perguntar o que isso significa — é o filho do segundo casamento do meu pai)

VIRA BAIXO PARA QUE

Um vídeo muito excelente publicado pelo Izzy Nobre (@izzynobre) em

Depois disso voltei para casa com a patroa para uma noite de preguiça no sofá assistindo filmes natalinos (Duro de Matar ou Esqueceram de Mim, faltava decidir qual — embora, se tu parar pra pensar, são BASICAMENTE a mesma história: um herói inesperado e em desvantagem numérica combate bandidos e prepara armadilhas, pulando de esconderijo a esconderijo).

Só que não é uma boa noite de preguiça no sofá assistindo filmes sem COMIDINHAS, como diríamos no 99 Vidas. Vou investigar a geladeira e encontro-a completamente deserta. Se isso fosse uma cena de filme, eu teria ouvido o barulho de um grilo montado numa bola de feno.

Essa aí ainda tá em melhor condição. Eu acho que a minha geladeira tá até sem a lâmpada.

Não há problema“, pensei burramente, que é uma tendência comum aos meus pensamentos, “vou pedir um deliveryzim esperto“.

Após ligar pra 3 pizzarias diferentes — em ordem de preferência, claro –, a ficha caiu de que sendo apenas o MAIOR feriado do ano, eu não encontraria delivery funcionando. A mulher começa a lamentar-se da fome, mas ainda não há problema: existem 1,3 bilhão de pessoas que contribuem com a cultura mundial com sua culinária e que convenientemente não celebram Natal: os chineses!

Agora, eu não gosto muito de comida chinesa. A única comida chinesa que eu como nesses restaurantes é chicken balls, que sequer é genuinamente chinesa. Tal qual o Bear Grylls, que bebe urina para sobreviver, terei que me sujeitar a ingerir algo que não gosto para me manter vivo. Um Bear Grylls cearense.

Ligo para os seis restaurantes próximos (é o que acontece quando você mora perto da Chinatown de Calgary) e nenhum faz delivery. Primeiro os chineses se escravizam uns aos outros em fábricas de iPhones, e agora isso? Começo a me decepcionar com a nação asiática.

A mulher começa a ficar impaciente. Começa a ficar claro que

1) Eu deveria ter feito compras antes do Natal;

2) É possível que eu vá dormir com fome como meus tataravós retirantes o fizeram muitas vezes em seu êxodo de Quixadá pra Fortaleza décadas atrás.

Tal qual Desmond Miles, eu aceito as responsabilidades de reviver as experiências de meus antepassados, mas deixar minha pobre esposa com fome? Por mais que a essa altura ela seja praticamente uma cearense honorária, eu não posso permitir que ela passe fome. Então me resigno ao inevitável: terei que me arrumar pra sair e procurar comida.

É incrível como eu sou retardado o bastante pra fantasiar sobre as situações mais triviais. Enquanto pegava as chaves e me agasalhava pra enfrentar o inverno canadense (que tá até bem tranquilo esse ano, aliás), eu me imaginava um membro de um “away team”, sabe coé? Aquela turma do Star Trek que entra nas navinhas pra ir consertar a Enterprise ou explorar a superfície de um planeta, entende? Eu estaria igualmente abandonando a segurança da minha casa quentinha pra sair na rua procurando mantimentos.

Chego no carro, dou a partida, luzinhas acendem, barulhos apitam. O painel do carro me dá diagnósticos do status da máquina — nível do óleo indica que não preciso troca-lo por mais dois meses, o indicador de combustível mostra que posso correr outros 200km antes de precisar encher o tanque, e um embrulho de chocolate do lado direito informa que preciso limpar meu carro com mais frequência.

Engato a ré e tiro o carro da vaga com o mesmo cuidado que um piloto espacial sairia da landing bay da Enterprise, rumo ao restaurante mais próximo que ainda esteja aberto.

Eu tirando o carro da vaga

É por isso que eu não posso assistir filmes de ficção científica sem passar os próximos dias vendo tudo ao meu redor como um análogo dos equipamentos espaciais do filme. Depois que assisti Interstellar, passei umas duas semanas achando que estava ativando retrofoguetes ao ligar o aquecedor do carro, ou imaginando uma docking sequence ao parar o carro no estacionamento do hospital onde trabalho.

Outro dia reassisti Apolo 13 e sempre que estou numa situação em que a bateria do celular está acabando e não terei uma chance de recarrega-la em breve, saiu desligando features do celular pra economizar energia me imaginando como os astronautas do filme.

É foda.

Então. Meu primeiro destino foi o Chicken on the Way. Isso aí:

Não parece grandes coisas, correto? Entretanto, você estaria julgando o livro pela capa se pensasse isso. O Chicken on the Way é o provedor da mais suculento frango frito que eu já comi na minha vida, com perfeitos temperos e crocância ímpar. Confie em mim, como gordo profissional eu entendo dessas coisas.

Uma vez que você comeu Chicken on the Way, nenhum outro frango jamais te satisfará, e isto não é um exagero ou tentativa de piadinha. Não desconsidero a possibilidade de que estão colocando crack na receita.

CotW inclusive tem uma mega fama na minha cidade. Tente ir lá num fim de semana e a fila sai da loja e passa da calçada. Pra colocar em outros termos, CotW faz KFC parecer um balde de vômito com pedacinhos de câncer estomacal flutuanto entre aglomerados de muco.

Dirijo animado em direção ao Chicken on the Way, mas a vida mais uma vez me decepciona — aquela plaquinha de neon “Open” está claramente apagada, assim como as luzes dentro do estabelecimento. Estaciono na frente do restaurante de qualquer forma, incrédulo, sem saber o que fazer em seguida. Engulo frustrado a saliva que minhas glândulas estavam produzindo em overtime desde que decidi passar no CotW.

Desanimado com minha própria existência e novamente indagado se existe de fato um deus justo neste universo, me resignei a ir ao Subway próximo. Que estava igualmente fechado. O McDonalds da esquina? Também fechado. Dois restaurantes no meio do caminho? TUDO FECHADO ESSAS PORRAS.

Meu raio de atividade na missão era de apenas NO MÁXIMO 5km da minha casa. Decidi contrariar os parâmetros e acelerei, rumo a um McDonalds que eu SABIA que estaria aberto.

Cheguei lá e pelo jeito aquele restaurante estava absorvendo todos os outros andarilhos esfomeados, porque tinha — sem putaria — uns 10 carros em fila no drive through. A fila saia da área normalmente designada ao drive through e chegava à avenida; na prática, uma das faixas da avenida era uma extensão do drive through a porra do restaurante.

Quase meia hora depois finalmente consigo comprar a comida. Volto pra casa alegremente, enfiando batatas fritas na boca enquanto dirijo, e noto que, assim como Interstellar, o final dessa minha aventura deixou um pouco a desejar.

Mas o vídeo do autorama lá em cima valeu a pena, diz aí.

Primeiramente, feliz segunda-feira. Não entendo por que odiar a segunda feira. A segunda-feira é como um mini Ano Novo; você pode tentar tudo de novo e estabelecer novos objetivos de self-improvement. Se não deu certo na semana passada, você ao menos tem outra chance hoje.

Se você meter na cabeça a perspectiva de que só perdedores sem objetivos ou ambição reclamam de ter que trabalhar (te garanto que o Bill Gates, Sílvio Santos ou Richard Branson nunca ficaram reclamando que era segunda-feira), talvez você passe a ver as segundas-feiras de forma diferente.

Mas se você realmente precisa de algo pra animar seu humor, tome aí.

Melhorou?

Mas vamos ao post de hoje!

gato

Tu pode xingar o time do sujeito, o deus que ele segue, seu partido político e até mesmo a mãe. Já testei todos estes e descobri empiricamente que aparentemente nada ofende mais alguém do que comentários sobre animais de estimação.

Eu e a Patroa agora temos um gato, como já informei há algum tempo aqui no blog. Descobri rapidinho que a Sociedade Protetora dos Animais tem muitos representantes nas redes sociais, e que adoram dar conselhos não-requisitados sobre como cuidar dos bichos. Uma garota chegou a (furiosamente) insinuar que aparar a pontinha das unhas do gato (pra que ele pare de rasgar minhas pernas quando pula no meu colo) seria o mesmo que AMPUTAR o gato, por exemplo.

Aceitei isso como uma característica dos amantes dos animais e aprendi a aceitá-los como são, pela boa convivência internética. Só que tem UM hábito dessa galera que eu não consigo engolir.

Se referir aos animais como filhos deles.

cachorrim

“Me desculpe cachorrinho mas zoofilia é crime, portanto não posso casar com seu pai”

Olha, eu entendo o sentimento. Tive cachorros durante toda a minha infância — certamente a feature dela que mais sinto falta por não poder recuperar hoje; apartamentos alugados que permitem cachorros são raríssimos aqui — portanto entendo SIM o apego que uma família desenvolve em relação aos bichos. Um dos momentos mais tristes da minha juventude foi quando o cachorro do meu irmão, um poodle chamado Alf, foi… pera, preciso explicar porque diabos meu irmão tinha um poodle, e ainda por cima um chamado “Alf”.

Era o seguinte. Meu pai tinha um colega de trabalho com uma esposa meio dondoca; a mulher um dia deu de criar poodles. Vá entender.

Os filhos da mulher se encarregaram em dar nomes pros bichinhos, apesar do fato de que era uma péssima idéia porque ela pretendia vender os bichos e um cachorro com nome já embutido seria uma merda pro novo dono. Antes que você chilique que “aiiin mas cachorro não se compra cachorro se adota meeeeu” — esta história aconteceu no começo dos anos 90. Naquela época podia TUDO rapá, tu não tem noção. O politicamente correto ainda não havia sido inventado.

Então, os garotos decidiram dar nomes de coleguinhas de sala aos cachorros — com intuito de sacanear mesmo. E assim um dos cachorrinhos foi batizado de ALFREDO, um nome infeliz pra caramba até pra ser humano, imagina pra um cachorro.

Calhou que minha mãe comprou esse cachorrinho pro meu irmão, mas o peste já estava relativamente acostumado com a sonoridade de ALFREDO. Meu irmão, um gênio, teve a idéia de chama-lo de algo similar o bastante pra que o cachorro respondesse aos comandos, e assim aos poucos aceitaria a nova alcunha. Assim, “Alfredo” virou “Alf” — um nome bem mais justificável.

O plano deu certo e a conversão foi total; quando os filhos do amigo do meu pai iam lá em casa e chamavam o cachorro de “Alfredo” meu irmão ficava putíssimo. “Você tem noção de quanto tempo demorou pra ele esquecer esse nome escroto que vocês deram pra ele, porra?!

Pois bem. Uma das maiores tristezas foi o dia em que o Alf fugiu/foi sequestrado por algum malfeitor do bairro. A esperança de reaver o cachorrinho se diluindo à cada dia que se passava, a agonia de não saber que fim levou o bichinho, a revolta quando um colega da escola comentou, com total casualidade, que “a essa altura ele já virou sabão”. Foram dias horríveis.

Então, não me venham com esse papo de que eu sou desalmado e por isso não entendo a conexão que a família tem com um animal de estimação.

Acontece que eu acho a insinuação de ser “pai” de um animal meio… creepy. Cê tá ligado no processo biológico necessário pra gerar uma cria, né? Pra um overthinker como eu, apegado à literalidade de tudo, dizer que sou “pai” do Marshmallow implica dizer que eu conheci sua mãe biblicamente. Isso me causa arrepios de asco.

Alguém no tuíter falou que defender a literalidade do termo “pai” como progenitor da criatura em questão seria como dizer que dois gays não podem ser o “pai” de uma criança adotada. Sim, porque uma criança adotada e um ANIMAL IRRACIONAL DE ESTIMAÇÃO QUE VOCÊ PODE COMPRAR NA LOJA DA ESQUINA são seres equivalentes.

Sou o único que pensa assim? Não vejo meu gatinho como meu “filho” — se ter que cuidar da parada se equivale a paternidade, um carro e uma unha encravada são meus filhos também? –, tampouco como minha propriedade.

Eu pelo menos vejo como um companheiro. Como um amigo. Um amigo meio filho da puta às vezes, mas que amigo não é?

byford

Todos temos dias ruins de vez em quando. Se você já bateu o carro, perdeu o emprego, teve uma morte na família ou tomou uma bomba desgraçada naquela prova em que você precisava ter um bom rendimento pra passar numa certa disciplina, você já experimentou uma dose generosa do desalento que acompanha o quebrar do espírito humano. Talvez HOJE MESMO uma (ou múltiplas?) dessas coisas  tenha acontecido com você.

Quando tais coisas acontecem, uma das técnicas frequentemente usada pelos broders é dizer que “as coisas poderiam ser pior, mano!”; como evidência disso, ofecerem cenários hipotéticos que seriam de fato piores do que a sua condição atual. “Sei lá cara, podia você ter pego sua mulher na cama com o seu cachorro!” ou outros cenários absurdos são imaginados pra fazer você não sentir na merda. Bem, frequentemente estes cenários fogem tanto do reino da realidade que fica até difícil considera-los como exemplo de que de fato as coisas poderiam ser pior.

Hoje eu venho trazer um exemplo melhor que ser chifrado pelo Totó. E o exemplo é o seguinte: pelo menos você não estava na Byford Dolphin quando ela explodiu.

A Byford Dolphin é uma plataforma de petróleo construída nos anos 70. Atualmente ela é operada pela BP, a petroleira infame pelo vazamento no Golfo do México.

Então. Em 5 de novembro de 1983 (exatamente um ano antes do meu nascimento; marque no calendário pra não esquecer aliás) a plataforma estava perfurando perto da Noruega.


byford 2

Neste dia terrível (e é foda, bem que os caras podiam ter escolhido outra data né), as leis naturais que regem o nosso universo deixaram patente que não se importam, nem um pouquinho só, com o bem estar da raça humana. Ou pelo menos com uns quatro mergulhadores em particular que estavam trabalhando lá naquele dia.

É o seguinte. Pra trabalhar nas profundidades necessárias pra puxar petróleo/gás natural do fundo do mar, os caras entram em batisferas (também chamados de “sinos de mergulho”, de acordo com meus seguidores no Twitter) pra descer até lá embaixo. A pressão da água lá embaixo é mais alta do que a sua dívida do cartão de crédito, então pra evitar que a batisfera seja amassada feito uma latinha de guaraná Kuat,  a pressão dentro dela é altíssima — 9 atm, pra ser exato, ou 9 vezes a pressão da nossa atmosfera ao nível do mar.

Uma batisfera similar.

Então. O problema é que ao puxar os mergulhadores pra superfície novamente, o diferencial de pressão é ABSURDO. Por isso, existe todo um sistema de equalização atmosférica pra permitir que os mergulhadores saiam do ambiente altamente pressurizado. A batisfera é conectada à plataforma, mas as portas que separam os dois ambientes só são abertas quando um supervisor averigua que a pressão já foi equalizada.

E aí está a desgraça.

Naquele fatídico dia 5 de novembro, um dos mergulhadores fez merda e abriu uma das travas das portas da plataforma antes que a pressão tivesse sido equalizada. O ar da cabine sob 9 atmosferas saiu violentamente pras outras câmaras, matando instantaneamente toda a galera que estava no ambiente. Mas isso não é a pior parte.

Um dos caras se chamava Truls Hellevik. Ele estava DO LADO da porta por onde o ar passou, ou seja, sofreu a maior exposição dos efeitos da descompressão explosiva. Sabe quando usa-se o termo “explosivo” como um modificador hiperbólico? Tipo uma notícia explosiva, ou um temperamento explosivo. 

Neste caso, quando a gente diz “descompressão explosiva”, é exatamente disso que estamos nos referindo. O Hellevik literalmente explodiu de dentro pra fora por causa da expansão súbita dos gases dentro do corpo dele, tamanho era o gradiente de pressão.

Vejamos o que a wikipédia tem a nos dizer:

 All of his thoracic and abdominal organs, and even his thoracic spine, were ejected, as were all of his limbs.

Em outras palavras, foi essencialmente a versão mundo real disto aqui.

E não é só isso. Além de ter EXPLODIDO, os restos mortais do pobre Hellevik foram expelidos por uma passagem de menos de 60 centímetros de diâmetro formada pela porta emperrada da câmera onde ele estava, fazendo dele provavelmente o único infeliz na história da humanidade a ser explodido e em seguida moído.

Foi Hellevik pra tudo quanto era lado, basicamente pintando o interior das câmaras com suas entranhas. Encontraram pedacinhos do cara numa torre 10 metros acima de onde a explosão aconteceu.

Pra você ter uma noção ainda melhor da desgraça, o sangue do cara ferveu instantaneamente, tamanha foi a brutal diferença de pressão a que o corpo dele foi submetido.

Então. Seja lá o que te aflige no momento, podia ser pior.

Como os senhores certamente sabem, eu tenho dois meio-irmãos do segundo casamento do meu pai. Estes são o Kevin e o David:

O Kevin, que há alguns anos eu apelidei de “Kevo” sem nenhum grande motivo lógico, tem 9 anos. O David, que o Kevin apelidou de “Davotron” (que mostra que ele manja mais de apelidos do que eu), acabou de completar um aninho.

Eu sempre gostei muito de brincar com os moleques, que me lembram muito meu contato com o Matheus — meu priminho de Fortaleza que foi o primeiro membro da família que eu vi crescer, com exceção da minha irmã. Sempre que vou na casa do meu pai, o Kevin corre pra me mostrar os joguinhos no iPad dele, pergunta que jogos eu tenho jogado, se eu vi aquele ou este outro filme.

E eu sempre cumpro meu papel de irmão mais velho — dou uns cascudos às vezes, brinco de lutinha, esse tipo de coisa. Pra ilustrar bem as nossas brincadeiras, veja este vídeo:

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😀

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Ou este, que filmamos momentos depois porque eu não queira desperdiçar esse excelente cospobre de Subzero que eu o ensinei a fazer:

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Subzero me pegou! View on Instagram

Então. Eu tinha prometido pro Kevin que “qualquer dia desses” — aquela data mítica que nunca chega, é excelente pra marcar coisas que você não quer ou pretende de fato fazer — ia levar ele pra sair. E esse dia chegou ontem.

Como tanto eu quanto ele assistimos o Lego Movie recentemente, achei que o melhor lugar pra leva-lo seria na loja de Lego que tem aqui em Calgary. Não tínhamos nem chegado no shopping ainda e já rolava cantoria da música tema do filme no carro:

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Everything is awesome

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Chegando na loja de Lego, a primeira experiência paterna: a porra do pivete estava CONVENCIDO que eu compraria metade da loja pra ele.

Não, sério: ele tinha uma listinha mental de uns 5 kits diferentes que, na cabeça dele, já era GARANTIDO de eu dar de presente pra ele.

Foi realmente um pequeno vislumbre da paternidade. Até ontem, minha experiência com o Kevin era limitada a chegar lá na casa do meu pai, jogar o moleque pra cima (sempre sob olhar preocupado da mãe dele, que teme que eu vou arrebentar o teto com a cabeça do menino), gravar uns vídeos engraçados e então ir pra casa.

Enquanto ontem eu tive que jogar um balde de água fria na empolgação do pirralho, dizendo que “não tinha dinheiro pra comprar brinquedo”, uma frase que ouvi muito crescendo.

“Você pode usar seu cartão de crédito!” ele retorquiu. Fiquei atônito com a sagacidade do pirralho (e com seu não compreendimento de quão baixa é, na minha lista de prioridade, comprar brinquedo pra criança ou pior ainda, usar meu cartão de crédito pra isso).

Neguei novamente apressei-o pra fora da loja, porque eu estava morrendo de fome.

“Kevin, você quer comer onde?”

“Não sei…”

“Bom, decide aí. Onde tu quer comer?”

“Hmm… não sei.”

Essa conversa, com poucas variações, continuou por uns 3 minutos. Foram os 3 minutos mais longos da minha vida e suspeito que por pelo menos metade deles, o moleque estava me sacaneando com sua resposta indecisa. O moleque decidiu então que não estava com fome o bastante, então não queria nada.

“Você tem CERTEZA?”, questionei com ênfase clara no “certeza”.

“Tenho”, ele garantiu.

Ok então. Comprei um lanche e, mal havia sentado na praça de alimentação, Kevin havia decidido então que o meu lanche era comunitário. Ele passou a redistribuir minhas batatas fritas pra si mesmo.

“Porr… caramba Kevin!” (tento não falar palavrão na frente dele, e sempre falho) “te perguntei MIL VEZES se você queria alguma coisa e você disse que não!”

“Agora eu quero” ele falou, com um sorriso pilantríssimo no rosto. Aquele sorriso do moleque que já sacou que fazer piadinhas com tudo é a melhor forma de se sair de enrascadas. É como se eu estivesse vendo o Izzy Nobre de 1995.

Pior que eu meio que parecia com ele, também

Além de comer minhas batatas fritas, o Kevin passou literalmente o tempo inteiro fazendo isso:

Fico tonto só de ver o GIF

O moleque deve ser alimentado por uma bateria nuclear daquelas que a NASA instala em sondas exploratórias, porque puta que pariu mano. Vai ter energia assim na cara do caraio.

Depois, fomos para a YMCA. Decidi que ia ensinar o pirralho a nadar. Na pior das hipóteses, sou certificado como Emergency Medical Responder, então morrer ele provavelmente não morreria. Arrumei as coisas, pus numa mochila, e dei pro moleque e falei que ele estava encarregado da missão de guardar nossas coisas. Convencer a pirralhada a fazer qualquer coisa só funciona se tu transforma numa brincadeira.

Ele pôs a mochila nas costas com um olhar compenetrado e falou “vamos lá!”

Pra chegar na YMCA, temos que atravessar uma ilha que fica aqui pertinho. O moleque nunca tinha visitado essa área da cidade (acho que ele nunca tinha visto o centro, aliás); ele ficou maravilhado.

Chegamos na YMCA. Experimentamos a piscina de pirralhos primeiro; o moleque ficou mais audacioso e falou “ok, vamos para a piscina dos adultos, Izzy!”

Ensinei-o a dar braçadas pra se manter a tona. Ele fez mais ou menos; demos algumas voltas na piscina, e ele desistiu de se tornar aquaticamente independente e resolveu voltar pra piscina de pivetes.

Na saída da YMCA, o moleque tava com fome de novo. Fomos no Subway, onde ele pediu um sanduiche tipicamente nove anos de idade, ouj seja: pão branco, queijo, presunto, e nenhum tipo de molho ou verduras. Eu riria, exceto que como sou FRESQUÍSSIMO pra comer, meus sanduíches geralmente são assim também.

Na saída da parada, um trailer de sorvete. Não deu outra, o moleque literalmente saiu correndo na minha frente em direção aos sorvetes.

Eu acabei cedendo. Momentos mais tarde o Kevin saltivava pela trilha que passava pela ilha, se lambuzando com sorvete, em direção ao meu apartamento.

No retorno, gravei esse videozinho enquanto cruzávamos a Peace Bridge, 

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Peace Bridge #yyc

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Vale um parêntese aqui. O prefeito de Calgary, Naheed Nenshi, é conhecido por suas trolladas no tuiter. Quando essa ponte foi inaugurada, a oposição espevitou a população contra seu líder, criticando o preço alto que os contribuintes pagaram pela construção. Numa dessas, o prefeito mandou essa resposta pra um crítico:

“Pra que essa ponte tão cara?”, “Acho que é pra atravessar o rio”

Sim, essa é a conta oficial dele e tudo.

Mais tarde, já de noite, era hora de deixar o menino em casa. Eu já estava cansadíssimo, e o pirralho ainda saltitando pelo meu apartamento, me fazendo perguntas aleatórias sobre meu trabalho (?), implorando pra que eu o deixasse jogar GTA 5 — o diálogo “mas todos os meus amigos jogam!”, “não importa, você não é seus amigos” novamente me imbuindo com uma aura paterna.

Quando ele percebeu que eu estava muito cansado pra continuar acompanhando suas estripulias, ele puxou o iPad e ficou jogando Minecraft até eu o deixar em casa.

E esse foi meu dia de pai.

É hilário ouvir da boquinha do pirralho o tipo de abobrinha que eu falava pro meu pai quando tinha sua idade (“mas se você não tem dinheiro pra comprar brinquedo, como é que tá pagando pelo lanche?!?!”), e moleques energéticos assim nunca entendem que você não tem mais a gana pra acompanhar suas estripulias e que já tá na hora de parar, o que me deu todo um insight de por que meu pai se irritava tanto comigo quando eu era criança.

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