Olha, se existe um inferno, deve existir lá em suas profundezas um círculo particularmente flamejante pra pessoas que agridem animais ou crianças.

Crueldade é infelizmente muito comum no nosso planeta, mas pessoas que são crueis com criaturas completamente indefesas é de uma filhadaputice difícil até de quantificar. A ciência evolucionária nos diz que somos biologicamente programados a sentir afeição por filhotes — sejam humanos ou animais –, então pra tratar animais com agressividade é preciso que algo esteja FUNDAMENTALMENTE ERRADO com os arranjos neurológicos do indivíduo.

E aí entra o vídeo abaixo. De acordo com a descrição, esse cachorrinho foi resgatado de um local onde o abusavam. Como o único toque humano que ele conheceu a vida inteira foi porrada (novamente, eu espero que seus antigos donos caiam de cu em cima de um poste metálico enferrujado e com farpas), o cachorro ficou completamente desesperado quando viu que mulher ia pegar nele.

A ponto de emitir sons que eu não sabia nem que cachorros eram fisiologicamente capazes de emitir. Ah, abaixe o som aí antes de dar o play!

https://www.youtube.com/watch?v=iogpZHkfN2I&ab_channel=Periscope360

Duas coisas importantes pra atentar neste vídeo: a primeira é que se você, como eu, não sabia nem que cachorros berravam, isso é perfeitamente comum. De acordo com a página na wikipédia sobre comunicação canina,

Screaming: A yelp for several seconds in length much like a human child, then repeated – anguish or agony, a call to the pack-mates for help, is rarely heard.”

Ou seja, cachorros berram, sim, como um pedido desesperado de socorro pra outros cachorros. Só que isso é uma ocorrência rara, porque FELIZMENTE o tipo de filho da puta que maltrata cachorros ao ponto de que eles precisem chorar por ajuda não é lá tão comum. O cachorro provavelmente passou ANOS nesses pedidos fúteis de ajuda pra outros cachorros; uma ajuda que nunca veio.

O outro detalhe que achei curioso é que o cachorro sequer tentou se defender, ou morder a mulher que o “atacava”. Animais não tem o mesmo senso de preservação baseado em análise da situação/negociação com os atacantes que nós temos; quando em estado de risco, um animal frequentemente luta até a morte, mesmo quando em desvantagem numérica ou de tamanho. É por isso que uma aranha ameaçada vai tentar te picar, por mais que você possa achata-la com facilidade. Quando a aranha/cobra/cachorro/qualquer tipo de bicho que tenha a habilidade de morder tá sem saída, ela pensa “então foda-se maluco, vamos os dois juntos pro inferno então”.

Como a raciocínio mais elaborado é um dom unicamente humano, frequentemente quando um animal se vê ameaçado ele não pensa “vou ficar de boa e quem sabe esta criatura me poupa”; em vez disso, na maioria das vezes um bicho mostra os dentes e parte pra cima.

Mas esse cachorro não fez isso. Ele só se acuava cada vez mais no cantinho lá dele, berrando por socorro ao ponto de destruir os tímpanos dos usuários de headphones, sem nem tentar muita resistência.

Se serve como consolo, o cachorrinho está bem melhor hoje me dia.

Reiterando: que as pessoas que fizeram isso com o bichinho sejam sodomizadas com uma serra elétrica incandescente. E olha que nem sou dessa turma super amante de animais e tal.

 

Eu sempre me considerei uma vítima do sistema educacional brasileiro. E essa semana, gravei um vídeo pra explicar melhor o que quero dizer com isso — mas obviamente não devo ter me explicado bem o suficiente, porque dessa vez preciso fazer um Além do Vídeo.

Acho que o ponto mais crucial que preciso martelar aqui é que há muitos anos, te ensinaram uma ladainha mentirosa pra justificar o processo enlouquecedor (e caro, e ineficiente) de decorar inutilidades gerais por 13 ou 14 anos pra vomitar tudo numa prova para entrar num curso sobre o qual não te deram literalmente nenhuma informação.

Não, nem todo conhecimento é útil.

Eu já consigo ouvir você rejeitando a minha heresia anti-científica e bolando cenários absurdamente específicos pra justificar que sim, aprender multiplicação de matrizes ou logaritmos ou as regras de um verbo transitivo direto traz algum benefício. Seja porque “estimula o raciocínio”, ou porque em uma condição extremamente particular você conseguiu achar uma aplicação prática de algo que você aprendeu ao longo de mais de uma década pagando pra ser programado pra passar num vestibular.

Vamos por partes. Primeiro, a gente precisa questionar seriamente essa noção idealista e romântica de que passar horas enclausurado numa sala fazendo e refazendo equações de segundo grau é uma espécie de “ginástica mental” que exercita o raciocínio, e por extensão o pensamento crítico, analítico, científico.

Soa bonito no papel; é aquele tipo de coisa que alguém te oferece como justificativa e tu pensa “é, tem razão, faz sentido“, e para imediatamente de criticar o sistema.

Só que aí você percebe que o Brasil não tem um prêmio Nobel sequer, ou que somos um país em que milhares (milhões?) de pessoas protestam pelo “direito” da Telexfree de roubar seu dinheiro, e precisamos admitir que essa noção de que ficar passar horas divindo polinômios talvez não tenha o menor efeito positivo em nossa capacidade analítica ou científica.

Aliás, esse bizarro e auto-flagelante culto à práticas matemáticas abstratas não nos rende benefícios nem mesmo no domínio da matemática.

Se você duvida, dê uma olhada no quadro de medalhas da Olimpíadas Internacionais de Matemática:

Ó o Brasil ali na lanterna. E olhe que a China, líder absoluta no placar, manda MENOS atletas pra lá, e participa a menos tempo que a gente.

O nosso último conterrâneo a entrar no Hall da Fama do evento teve sua última participação nas Olimpíadas há quase 3 décadas.

Já os americanos, a quem adoramos categorizar como burros porque acham que se fala espanhol no Brasil (a despeito do fato de que você provavelmente NUNCA ENCONTROU UM AMERICANO QUE ACHASSE ISSO, mas ouviu várias pessoas falando que acontece então deve ser verdade né? Olhaí os tais skills analíticos nos quais somos profissionais!), estão em segundo lugar no ranking.

Olha a posição brasileira. Você está entendendo o que eu estou tentando te dizer…? Esse foco todo na matemática abstrata não nos rende bom desempenho nem mesmo na matemática, que dirá então em faculdades mentais não-relacionadas. Eu simplesmente nunca vi evidência alguma de que passar anos decorando fórmulas de Física, e em seguida inserir números no lugar das variáveis, torna alguém mais intelectualmente apto a qualquer coisa. E OLHA QUE EU CURSEI BACHARELADO EM FÍSICA.

A segunda coisa que me incomoda nos defensores dessa teoria de que “todo conhecimento é útil” são as justificativas inacreditavelmente tortuosas pra justificar o currículo escolar que é essencialmente o mesmo há séculos. Por exemplo: nos comentários deste meu vídeo acima, alguém falou que o estudo de química é útil porque sem ele, você não saberia que compostos químicos são perigoso pra se ingerir.

Sim, porque sem decorar “Foi Clovis Bornay que Incendiou Atenas” (F Cl Br I At, a família 7A da tabela periódica), eu sou sair por aí bebendo querosene e água sanitária. Em seguida o mesmo rapaz falou que balanceamento de equações químicas é igualmente fundamental, porque sem ela sua mãe não conseguiria seguir uma receita de como fazer sabão.

Porque, naturalmente, pra seguir esses cinco simples passos você precisa estudar estequiometria por 3 anos.

O que me dá mais raiva é que eu, que sempre odiei química, teria achado FODA DEMAIS ver na escola uma aplicação prática de estequiometria como essa fabricação caseira de sabão aí. Consigo imaginar uma aula de equação química bolada em torno do processo de medição das proporções desses reagentes, mas obviamente isso seria muito interessante então é claro que não é assim que nos ensinaram.

Continuando o tema de “pessoas perdidamente acostumadas com um sistema caro e ineficiente inventando desculpas absurdas para defender sua perpetuação”, teve um outro sujeito (um médico!!!) que comentou que o ensino de geografia é igualmente essencial, porque é através dele que aprendemos as doenças típicas de uma região.

A absurdíssima insinuação aqui é que, sem ter ouvido uma vez na quinta série que há incidência de esquistossomose no Nordeste, um médico daria a esse paciente tratamento para dor de dente.

Os comentários do vídeo estão repletos de argumentos desse naipe. “Não, mas you see, eu trabalho com X e uma vez numa condição bem específica que só aconteceu comigo e que muito provavelmente jamais se repetirá eu pensei ‘ah é uma vez vi isso na escola’, logo, o currículo inteiro está justificado”.

Acho que o ímpeto por trás desse tipo de comentário é uma vontade irresistível de contradizer, mesmo que pra isso você defenda um caríssimo sistema de treinamento que demora mais de uma década porque UMA VEZ você conseguiu usar UMA COISA das 4789374892 que te ensinaram.

Não, nem todo conhecimento é útil. Seria se você fosse uma entidade imortal, com tempo de sobra pra dedicar a qualquer atividade (por mais trivial que fosse), e que pudesse aprender tudo de graça. Entretanto, não somos um Tio Patinhas vampiro. Nosso processo de aprendizado gasta tempo e dinheiro, dois recursos finitos que, como qualquer outro, precisam ser gerenciados e priorizados.

Na próxima vez que alguém vier com esse argumento idiota e pedante de que “todo conhecimento é útil”, pergunte imediatamente se essa pessoa está disposta a pedir uma folga no trabalho pra ler a biografia de Leonid Kravchuk, o primeiro presidente da Ucrânia. Ou um atestado médico pra faltar na faculdade e se ocupar lendo os artigos da Muneeza Shamsie sobre a literatura clássica paquistanesa. Pergunte quando foi a última vez que ele revisou um manual de conserto de videocassete.

Mas ué, se todo conhecimento é útil, por que você está priorizando o aprendizado de X mas não de Y…? Pelo motivo óbvio de que há uma distinção claríssima entre conhecimento PRÁTICO, necessário, e conhecimento sem uso algum, e apenas alguém num arroubo de empáfia acadêmica insistiria que não há diferença entre ambos. O problema é que o nosso modelo de educação — a preparação ao todo-poderoso vestibular — colocou conhecimento sem uso na categoria de conhecimento prático, ainda que seja prático APENAS no contexto “preciso saber disso pra passar numa prova”.

Você não tem noção de quanto eu odeio essa ladainha mentirosa de que aprender coisas inúteis te ajudam a “exercitar o cérebro”. Esse argumento é uma admissão de que a parada realmente não tem valor prático, mas ao mesmo tempo sem querer admitir isso totalmente.

Sim, eu sei, você nunca na vida precisará calcular uma equação de segundo grau no braço, sem usar uma calculadora ou consultar fórmulas — mas nós determinamos que saber fazer isso vai te tornar uma pessoa inteligente. Por que? Porque sim. E você não quer ser burro, né?

E não é apenas o ensino da ciência exata que tá errada, as humanas não são muito melhor que isso. Como qualquer pessoa que gosta de escrever, eu gostava também de ler. Aos 9 ou 10 anos lia calhamaços imensos do Crichton, Clarke, Clancy, repetidamente; aí na escola me obrigavam a ler O Cortiço — um livro de 200 anos atrás que não interessa de maneira alguma um moleque que curte viagem no tempo, espiões e robôs assassinos.

Aí eu não lia. E tentava chutar tudo na prova. Frequentemente me dava mal, e voltava pra casa com aquela nota vermelha que dizia implicitamente “desculpaí senhora Nobre mas esse teu filho é um vagabundo que não sabe ou não gosta de ler”.

E não apenas isso, mas o mais chato nesse currículo monolítico e imutável de literatura (O Cortiço. O Alienista. A Moreninha. Noite na Taverna. O Auto da Barca do Inferno, QUE FOI ESCRITO HÁ CINCO SÉCULOS) é que todas as interpretações manjadíssimas já foram determinadas e é justamente essas que os professores querem que você decore pra responder na prova.

E redação?! Redação deveria ser, idealmente, um exercício de criatividade e auto-expressão. No entanto, os meus professores determinavam o assunto sobre qual o deveria escrever, e ai de mim se eu “fugisse do tema” — era um zero no meio da cara. O que, por extensão, significava que eu não sabia ou não queria escrever.

Isso estimula tanto a criavidade quanto dizer que um moleque pode desenhar o que ele quiser, mas tem que ser só com esse lápis verde, e tem que ser uma árvore, e não pode ser uma árvore muito grande, e aliás aqui está o layout de árvore que eu quero. Faça uma igual.

OK IZZY já entendi é uma merda mesmo QUAL A SOLUÇÃO?

Eu já falei, mas no seu ímpeto de insistir que equações quadráticas são conhecimento valiosíssimo você não ouviu. Embora o sistema norte-americano definitivamente não seja perfeito, tratar o colegial como uma faculdade, com disciplinas obrigatórias somadas a matérias eletivas que dêem ao moleque 1) uma exposição maior a possíveis carreiras e 2) um marketeable skill que ele possa usar pra entrar no mercado de trabalho.

Eu sou o único que acha completamente insano que um moleque de 16 ou 17 anos tenha que decidir um futuro de carreira sendo que o mais próximo que ele chegou de Direito/Jornalismo foi decorando conjugação de verbos, ou a maior exposição que ele teve a Medicina foi aprender que DNA significa Ácido Desoxirribonucleico…?

Eu escolhi Física porque curtia ficção científica, somado ao fato de que minha tia é uma renomada Física brasileira e a jornada dela é uma fonte inesgotável de inspiração e orgulho pra mim. Mas e um moleque que queira fazer literalmente qualquer outra coisa…? A escola falha de forma estupenda em nos oferecer qualquer direcionamento nesse sentido.

Enquanto isso, o currículo colegial gringo ensina coisas como Introdução ao Direito — que é não apenas melhor pra preparar um aluno pra ser um advogado do que saber diferenciar um verbo transistivo de um verbo intransitivo, mas é por si só útil na formação cívica do indivíduo.

E alguém que queira fazer algo voltado às Artes? Você ri, claro, porque o contexto acadêmico brasileiro te treinou a ver como “ensino útil” apenas aquilo que é diretamente necessário pra passar no vestibular. Só que sem artes você não teria os filmes, ou música, ou quadrinhos, ou videogames, basicamente nenhum dos seus principais hobbies.

Aqui no Canadá tu pode estudar, através do sistema público de educação, Film and Video Production. Se interessa em atuação, ou talvez em performance como comediante? Há aulas de teatro. Minha esposa, aliás, foi atriz estudantil e atuou numa peça chamada The Insanity of Mary Girard.

Aliás, ela também participou de um Improv Club, que é um clube misto de atuação e comédia. Olha ela aí, circulada com caneta hidrocor vermelha no Yearbook da escola:

Photo 2015-11-07, 11 15 50 AM

Você talvez tenha se perguntado alguma vez porque minha mulher é tão animada e dada a fazer gracinhas e palhaçadas o tempo todo; é o jeito dela.

Que é o meu jeito, também, exceto que enquanto aqui ela tinha um veículo pra exteriorizar isso de forma criativa/produtiva, no Brasil eu era mandado pra fora de sala diariamente — sem exagero — porque estava “distraindo os outros estudantes”.

Talvez você queira ser um chef. A experiência colegial brasileira não vai fazer absolutamente nada pra te ajudar nesse objetivo. Aqui, por outro lado? Eles te ensinam.

Resolver uma divisão de polinômios: talvez eu use uma vez na vida. Cozinhar: usarei literalmente todo dia, mais de uma vez por dia, pra mim mesmo e pra toda a minha família, até o dia da minha morte. Claramente polinômios é o que deveríamos priorizar na formação educacional de um indivíduo.

Eu terminei o colegial em 2003 sem saber basicamente nada sobre o mundo fora das fronteiras brasileiras. Os alunos secundaristas aqui, por outro lado, viajam pelo mundo, tendo uma imersão na cultura e língua estrangeira na época formativa de suas vida.

Photo 2015-11-07, 11 16 26 AM

“IZZY MAS É QUE O CANADÁ É RICO AQUI NÃO TERIA DINHEIRO PRA ISSO” talvez porque estamos gastando dezenas de milhares de reais pagando alguém pra nos explicar, 5 dias por semana, 4 semanas por mês, 10 meses por ano, o que é um logaritmo ou um número irracional ou a “fórmula do sorvete”.

De repente o moleque não tem o MENOR interesse ou aptidão pra matemática, ou química, ou porra nenhuma, mas quer muito ser um músico. No Brasil? Tu tá totalmente fodido. Nos EUA? Tu recebe treinamento musical (novamente: na rede pública de ensino) no colegial, se quiser.

Enquanto eu aprendi NA MINHA TERRA TEM PALMEIRAS ONDE CANTA O SABIÁ/SENO A COSSENO B SENO B COSSENO A, o primo da minha esposa aprendeu a tocar bateria.

E ele toca bateria hoje. Já eu não sei mais nem o que é um cosseno OU um sabiá. Eu preferia INFINITAMENTE ter tido acesso a treinamento clássico em guitarra do que aprender trigonometria.

E a questão é essa. Preferência. Eu não estou dizendo que temos que matar todos os professores de matemática e queimar os livros; eu estou dizendo que deveriam haver outras opções que preparassem alguém melhor pra vida real. Estou dizendo que os 12 ou 13 anos que passamos enfurnado em cadeiras desconfortáveis vestidos exatamente iguais e fazendo exatamente a mesma coisa e dando exatamente a mesma intepretação pro mesmo livro de 300 anos atrás e ouvindo alguém explicar um monte de coisa que você nunca vai usar na sua vida não são um bom uso de dinheiro ou de tempo ou de energia.

Vamos parar com essa insistência da virtudes de saber balancear uma equação química, e admitir que tá passando da hora de considerar uma alternativa.

A essa altura tu já tá a par da situação da situação: Ahmed Mohamed, de 14 anos, foi preso no Texas por causa de um “relógio caseiro” que ele montou em casa.

(Repare que a matéria diz que o garoto “criou” um relógio — porque essa era a narrativa, de acordo com o garoto e os propagadores da história. Neste vídeo ele se refere ao relógio como sua “invenção”. Ou seja, a narrativa é “Um genial Tony Stark infantil — sim, o chamaram de gênio, não é hipérbole minha — sendo punido, em vez de celebrado, pura e exclusivamente por sua etnia”. Lembre-se dessa alegação de invenção, será relevante mais tarde.)

Eis o meu vídeo a respeito.

E esse vídeo foi mais mal interpretado do que de costume, a julgar pelo tipo de coisa que eu li no Twitter como resultado. Tive um feedback muito positivo, mas algumas pessoas perderam tão imensamente o ponto que eu tentei passar que achei que seria uma boa oportunidade de tirar a poeira do Além do Vídeo, e usá-lo pra responder alguns argumentos sobre a história.

Primeiro, e talvez o mais importante argumento, é apontar que a polícia não evacuou a escola, ou chamou o esquadrão anti-bombas. O ponto, presumivelmente, é que a polícia “sabia que não era uma bomba, estavam só querendo sacanear o rapaz!”

E veja bem: eu não chamaria de burro alguém que chega a essa conclusão. É uma conclusão burra, sim — mas é simplesmente o resultado de analisar uma situação sem ter conhecimento de alguns detalhes. Qualquer pessoa inteligente está sujeita a isso. Eu posso dizer que uma conclusão (ou seja, uma idéia) é burra, sem dizer que o seu autor é burro. Ok?

De fato, a polícia sabia, assim que deu uma olhada rápida no dispositivo, que não era uma bomba. Sabemos disso porque o chefe de polícia da cidade falou de forma explícita e clara. Por que então prender o garoto se eles já sabiam que não era uma bomba?

O motivo é simples.

No Estado do Texas, uma “hoax bomb” (definido como “qualquer objeto que pareça com uma bomba” na legislação) é um crime. E sabe o que “parece uma bomba” pros americanos?

Literalmente qualquer coisa. Pesquise “suspicious package” no Google e você achará, só nesse ano, centenas de incidentes em que alguém deixou uma caixa, ou uma mala, ou um pacote, ou qualquer coisa que a primeira vista um brasileiro como eu e você nem SONHARIA que poderia se tratar de uma bomba — mas que foi interpretado pelas autoridades como uma bomba.

"Alguém deixou cair um sorvete no chão, ou esses TERRORISTAS estão cada vez melhores em disfarçar suas bombas?! Melhor não arriscar, traz o robô!" -- método das autoridades americanas de determinar o risco de um objeto

“Alguém deixou cair um sorvete no chão, ou esses TERRORISTAS estão cada vez melhores em disfarçar suas bombas?! Melhor não arriscar, traz o robô!” — método das autoridades americanas de determinar o risco de um objeto

As intenções da pessoa portando um objeto que “pareça com uma bomba”, de acordo com a lei texana, não é um fator. Tá andando com uma porra dessa, você tá automaticamente cometendo um crime. E faz sentido — se alguém tava andando com um troço desse por aí pra soltar em algum lugar e incitar pânico, e o negócio é descoberto pela polícia antes, OBVIAMENTE 10 entre 10 acusados diriam que não tinham nenhuma intenção nefasta, que é só um mal entendido, etc. Melhor isso do que ir passar férias em Guantanamo.

Bater o pé no chão e argumentar que o relógio do Ahmed “não parecia uma bomba” (como vi TANTOS fazendo) é de uma futilidade incrível, não pelo motivo óbvio de que você nunca viu uma bomba na sua vida e não tem o menor treinamento pra fazer essa distinção vendo uma única foto na internet, mas porque a aparência da parada não importa. Aqui na América do Norte, costumam chamam o esquadrão anti-bombas quando alguém acidentalmente esquece uma porra de uma mochila numa parada de ônibus. Eu cito esse exemplo em particular porque aconteceu aqui em Calgary, perto do meu trabalho.

Aliás, o search “suspicious package Calgary” demonstra que os canadenses pegaram um pouco da paranoia americana.

Mas voltando ao assunto: uma mochila por acaso parece MAIS com uma bomba do que o relógio do Ahmed?

Não.

Não. Porque a aparência não importa. O modus operandi é suspeitar de qualquer coisa

Então, a próxima pergunta é: por que então prenderam o garoto? Eu já expliquei: Porque ter algo parecido com uma bomba é um crime por si só, porque quando algo assim é encontrado a suspeita é que o dono da parada intencione usar o dispositivo pra causar algum tipo de alarme — ou seja, ia deixar por aí como uma hoax bomb.

É uma suspeita razoável? Como argumentei no meu vídeo, não: é fruto de paranóia. Mas esse nível de alarme definitivamente não é fora do usual pra América depois do 11 de Setembro. E numa nação em hipervigilância, um aparelho que pode ser razoavelmente confundido com uma bomba, MESMO QUE NÃO SEJA, é algo que levantará sobrancelhas.

E esse é o xis da questão no que diz respeito à detenção, a despeito dos policiais verificarem rapidamente que o aparelho não era uma bomba. É por isso que não evacuaram a escola. A questão não era CORRAM PODE SER UMA BOMBA; era “…peraí, por que esse moleque trouxe, do nada, pra uma ESCOLA, um negócio que é basicamente o que fomos treinados por Hollywood a reconhecer como uma bomba…?

Eu não grifei o “escola” por nada. O ambiente escolar americano vem sofrendo o clima de tolerância zero até antes dos ataques do Onze de Setembro. O infame ímpeto americano de processar por tudo e qualquer coisa, somado ao terror que é a idéia de um garoto chegar armado na escola e fuzilar os amiguinhos, fez com que mesmo as maiores bobagens fossem tratadas pela administração da escola como coisa gravíssima. E vou citar alguns exemplos:

Em 2012, uma garota de 12 foi presa por BORRIFAR PERFUME EM SI MESMA. A garota é branca, caso você esteja se perguntando sem motivo algum — o cerne da questão aqui, já falei e repito, é a paranóia fora de controle e o clima de tolerância zero, e não ficar especulando a quantidade de melanina dos envolvidos.

No Novo México, onde o meth azul transborda — pertinho do Texas, aliás –, um garoto de 13 anos foi preso por arrotar na sala. O garoto nunca foi identificado, então não posso afirmar com certeza que ele é branco, mas eu seria capaz de apostar que sim, sabe por que? Porque se não fosse você teria visto a matéria ALUNO NEGRO/HISPÂNICO/ÁRABE PRESO APENAS POR ARROTAR NA SALA!!!!! linkada nos 5 textões sobre o assunto que você teria lido no Facebook.

Esta garota teve seu braço quebrado por um segurança porque deixou restos de bolo no chão.

Essa aí, de 12 anos, foi presa por rabiscar a carteira.

Essa garota trouxe acidentalmente uma faca pra escola (confundiu a lancheira com a do pai, que carrega uma faquinha dessas de cortar fatias de maçã). Foi presa. Branca.

Essa aí pelo menos trouxe uma faca de metal. Teve um moleque de 11 anos que foi preso por estar “portando” uma faquinha de plásticos, dessas de passar manteiga no pãozinho que te dão no avião.

Ahmed foi apenas algemado, uma sorte que essa garota da mesma idade que tomou um taser na VIRILHA não teve.

Teve aquela vez que prenderam um moleque de 5 anos. Eu repito: CINCO ANOS. E o motivo? Teria agredido um policial na escola. Prenderam um garoto de CINCO ANOS por isso.

Teve este rapaz (cujo corte de cabelo lembra o Justin Bieber no começo da fama) que foi preso, e suspenso, por escrever uma redação sobre matar o dinossauro de estimação do vizinho. A redação continha a palavra ARMA. Foi o suficiente pra ir pra delegacia algemado. Não é muçulmano, não tem pele escura e não se chama Mohamed, então é por isso que você nunca tinha ouvido falar dessa história.

Uma vez na Flórida duas crianças se beijaram e a polícia foi acionada por suspeita de “abuso sexual”. As duas crianças tinham a mesma idade: 7 anos.

Teve aquela ocasião em que um moleque foi preso porque, durante uma brincadeira de pega-pega, esbarrou a mão na coxa da amiguinha. O garoto tinha 6 anos de idade.

Este aqui não é especificamente na escola, mas dá uma boa idéia da paranóia americana no geral — uma mulher (branca, americana nativa) recebeu uma visita do FBI após procurar “PANELA DE PRESSÃO” no Google. Por que? Por causa do atentado na maratona de Boston, em que os irmãos Tsarnaev esconderam bombas caseiras fabricadas com panelas de pressão dentro de mochilas.

Mas “mochila não parece bomba”, então deve ser plenamente inofensivo, né?

Eu podia citar mais exemplos mas estou com preguiça de continuar googleando. Faça você o resto da pesquisa, “child arrested school”. Se tiver preguiça de ler, “kids arrested at school” no YouTube rende vários resultados também.

Agora eu te pergunto: tendo em consideração todo esse contexto que eu acabei de explicar, você realmente que o fator definitivo da prisão do Ahmed é seu nome/etnia/religião? Nos EUA prendem crianças de 11 anos por portar uma faquinha de plástico.

Que não é crime. Andar por aí com algo que pareça uma bomba, por outro lado, é crime.

Então. Agora que você sabe as maluquices sem sentido que causaram prisões de crianças em escolas nos EUA, é razoável dizer que qualquer criança andando pela escola com isso aqui…

O troço ainda começou a apitar no meio de uma aula.

…sofreria uma punição?

E que a REAL culpa disso é a política de tolerância zero nas escolas americanas?

Um detalhe relevante na situação é que o garoto não tinha sequer um bom motivo pra ter trazido aquele negócio pra escola, o que aumenta a suspeita de algum tipo de mequetrefezagem. Sabe porque essa distinção (“haver um bom motivo pra trazer o troço pra escola”) é importante?

Porque sites inescrupulosos como o horrível Gawker ignoram (ou fingem deliberadamente que a distinção não existe), quando publica uma matéria como “7 crianças que não se chamavam Mohamed que não foram presas por trazer relógios pra escola“.

Uma olhada rápida nos casos citados revela a tal distinção que é inconveniente para a narrativa e que impossibilita a comparação — todos os sete casos citados envolviam um projeto de aula, ou feira de ciências.

Ou seja: a invenção da criança era algo esperado pelos professores — não apenas esperado, era parte de uma atividade que valia nota. O que os paranóicos mais detestam é imprevisibilidade, quando algo inesperado acontece. Um garoto trazer pra feira de ciências dois copinhos cheio de água com um buraco e marcações pra contar a passagem do tempo não é a mesma coisa que um moleque aparecer na escola (sem motivo algum) com um dispositivo que é basicamente o que Hollywood nos convenceu que é a aparência de uma bomba.

E sim, minha menção de copinhos com água não é hipérbole: dois dos relógios citados na matéria do Gawker eram nada senão clepsidras, algo que consegue ser mais tecnologiamente rudimentar que duas latinhas e um barbante — tem, afinal, um componente a menos.

E assim, retornamos ao ponto central do meu vídeo.

Meta uma coisa na sua cabeça: Ahmed não foi preso porque era muçulmano, ele foi preso porque o garoto trouxe pra uma escola NOS ESTADOS UNIDOS algo que poderia ter sido facilmente confundido com uma bomba.

Não era, felizmente, mas andar por aí com algo que pode ser confundido com uma bomba é crime no Texas de qualquer jeito. E é por isso que os policiais o levaram pra delegacia pra tentar estabelecer se o garoto tinha de fato intenções inofensivas, ou se talvez estava planejando alguma brincadeira de mau gosto.

Repare nos comentários do Gawker. Você vê que a discussão está completamente centrada na guerra racial entre ocidentais e muçulmanos, com todo mundo se espevitando uns contra os outros, direcionando a raiva pra todas as direções exceto na joselitice paranóica das autoridades americanas…?

Se isso assemelha-se muito com a tática de dividir para conquistar, talvez não seja é coincidência. Pode não haver uma cabala governamental secreta orquestrando esse tipo de evento pra nos manter apontando as armas ideológicas uns pros outros e não contra os líderes — e eu duvido muitíssimo que exista –, mas o resultado é o mesmo. A paranóia das autoridades americanas acaba não sendo vista pelo consenso popular como a causa do problema.

E é por causa disso que essa porra vai continuar acontecendo. Observar a histeria generalizada gerada por esse caso é como ver uma casa com uma goteira no teto, com seus os moradores da casa eternamente discutindo se a goteira é mais ativa quando o João está embaixo dela, ou se é quando a Maria está embaixo dela. João e Maria discutem fervorosamente o assunto, citam estatísticas de quem está se molhando com mais frequência, chamam amigos pra reforçar seus pontos de vista, escrevem editoriais sobre qual deles é mais provável de estar sendo mais acertado pela goteira… e enquanto isso o buraco no teto continua lá.

Como gosto de argumentar com fatos, então deixo de fora pontos levantados por outros internautas: o fato de que o pai do garoto, Mohamed Elhassan Mohamed, é coincidentemente um ativista contra islamafobia com aspirações políticas (ó um debate com ele aí), ou também a parte mal explicada de que o relógio teria tocado na sala — ele precisaria estar plugado na tomada pra isso acontecer, e é de se questionar por que o garoto resolveu pluga-lo na tomada durante a aula quando a professora a quem ele mostrou o aparelho já tinha recomendado que não era boa idéia brincar com esse negócio na escola.

Como esses detalhes entram no campo especulativo, e não lido com especulações, resolvi não basear meu argumento nelas.

E pra finalizar: apesar de se referir ao relógio como sua invenção em diversas entrevistas, Ahmed não “inventou” coisa alguma, ele desmontou um relógio e remontou dentro de uma maletinha. Teria literalmente dado mais trabalho reproduzir sua “invenção” usando lego.

Não entendo qual é exatamente o grande skill necessário pra tirar a carcaça de um eletrônico simples como um relógio e coloca-lo em outra de forma mais precária, mas nem esse mérito todo de pequeno Tony Stark ele tem. Se eu removo a carcaça do meu notebook e coloco os componentes dentro de uma caixa de sapatos, eu não “criei” um computador.

A história fica menos interessante quando esse detalhe é revelado, né? Talvez um pouco broxante até. De repente você até se sente meio… enganado.

Por que será que os meios de comunicação aumentaram os feitos e a proficiência do moleque…? Seria talvez pra reforçar a narrativa de beatificação do moleque…? Certamente serviu os propósitos do pai ativista, né…? Novamente, entramos no campo da especulação. Mas é difícil ignorar esse detalhe.

Meu ponto final nesse caso é o seguinte: quando todo o contexto aponta que raça/orientação sexual/ideologia/religião/gênero teriam sido irrelevante no saldo geral da situação (se você ainda insiste que um garoto branco NÃO teria sido interrogado se estivesse mesma situação, você deve ter pulado uma parte imensa do meu texto), ignore raça/orientação sexual/ideologia/religião/gênero.

Não brigue contra a Maria, não brigue contra o João.

Conserte a goteira. Ela é o real problema.

VOLTEI, turma! As férias com a muié no Caribe foram fenomenais. Aqui está o primeiro vídeo da pequena série que decidi fazer sobre a viagem:

Eu estava bem indeciso em relação a como produzir conteúdo em vídeo sobre a viagem. De acordo com o visor da GoPro, filmei aproximadamente 2 horas lá. Seria impraticável fazer um vídeo com essa duração no YouTube — aliás, nesse ponto não seria mais VÍDEO, seria um FILME mesmo –, então pensei em fazer um especial de 30 ou 40 minutos mostrando tudo que fizemos lá, do primeiro dia ao último.

Acontece o seguinte. Eu, pessoalmente, não tenho paciência pra ver vídeos com mais de 10 minutos. E sim, eu sei que o vlogger X, Y e até mesmo o Z fazem vídeos de meia hora com muito mais views do que eu. Eu não estou dizendo que esse formato de vídeo é ruim, estou dizendo que não sei se funcionaria pra mim.

Pra você ter uma noção, a minha hiperatividade é tão debilitante que eu não consigo ver um filme do começo ao fim em casa. Distraio-me com o celular, com os videogames, com quadrinhos no iPad, com qualquer coisa que esteja ao meu alcance. Então, como não me interesso nesses vídeos longos, acho meio incongruente faze-los. Dará bem mais trabalho, mas acho que uma série composta de vídeos menores, de 5 ou 6 minutos, funciona melhor.

Sobre preços, que é o que muitos me perguntaram esses dias: Eu e a esposa pagamos, cada um, 885.17 dólares canadenses. Esse valor inclui o vôo e a estadia de 7 dias no resort Cofresi, que pelas fotos do site dá pra ver que é sensacional. Aliás, esse site foi recauchutado recentemente, pelo jeito — antes da minha ida lá, o site do hotel tinha um layout bem “webdesign do começo dos anos 2000”. Era tão inútil que as fotos do TripAdvisor eram melhores.

A propósito, o site era tão precário que isso chegou a me causar dúvidas em relação à qualidade do resort em si. Como as resenhas do TripAdvisor eram muito positivas, fui sem medo.

A propósito, esse Cofresi é um resort “all inclusive”, ou seja — você não paga absolutamente nada quando está lá. Abordo isso nos vídeos futuros em maiores detalhes; particularmente, a estranheza que é entrar num dos vários restaurantes do resort, pedir o que quiser/comer até estourar sem qualquer preocupação com a economia, e quando tá cheio simplesmente levantar e ir embora.

É sério, palavras não conseguem capturar perfeitamente o quão estranha é essa sensação. Chega a dar uma sensação de culpa, até.

O serviço é um dos melhores que já tive na vida, a propósito. O que faz sentido — turismo é a maior indústria do país, resorts como o em que eu fiquei empregam literalmente dezenas de milhares dos habitantes locais. A galera que trampa lá certamente sabe que é uma excelente oportunidade, e fazem por merecer a vaga.

A propósito, ao passear pela cidade você vê constantemente placas com dizeres em espanhol como “Cuide bem dos nossos turistas” ou “sorria para os nossos turistas”, o que passa de fato a impressão de que o país valoriza a presença dos viajantes (ou, pelo menos, que há um esforço maciço em educar a população nesse sentido). Fui imensamente bem tratado no hotel, mas isso já era esperado — fiquei curioso se o povão “comum” do país realmente compartilha desse sentimento.

No final das contas eu fiquei arrependido de não ter feito uma viagem como essa mais cedo. Aguardem os próximos vídeos, fizemos uns passeios legais.

Vou ser breve neste aqui porque lidar com essa situação durante o fim de semana me deu uma úlcera já.

O vídeo é este:

Não gostei muito do thumbnail desse vídeo, aliás. Geralmente fico bem satisfeito com eles, mas essa pegada meio cor pastel não me agradou muito. Enfim.

Como tu já deve saber, a Suprema Corte americana liberou o casamento gay em todo os EUA. E amigo crente, eu sei que é difícil pra você aceitar que a lei permita algo que você considera pecado, mas você precisa admitir pra si mesmo que não faz sentido o Estado advogar contra direitos pessoais baseado no que a sua religião acha pecaminoso. Imagina se tatuagem, ou beber cerveja, divórcio, sexo antes do casamento fossem ilegais. Não faz sentido, convenhamos!

Acho, ou ao menos quero acreditar, que a maioria dos cristãos são pessoas boas, e com compaixão, e entendem que gays finalmente terem um direito que eu e você também temos não te afeta taaaaaanto assim. E a maioria das pessoas, após pensar um pouco sobre o assunto, vão concordar que se são humanos no Brasil ou na China que eram discriminados legalmente e agora não são mais, é um motivo para algum celebração, por menor que seja.

E muitas pessoas ao redor do mundo fizeram um pequeno gesto de celebração. Pra mostrar seu apoio aos seus broders gays, como uma pequena forma de dizer “eu tô ligado que tem um bando de filho da puta que te despreza mas é nóis na fita aí, parça“, eu e inúmeras outras pessoas mudamos nossa foto no Facebook pra mostrar o arco íris que simboliza a comunidade gay.

A minha ficou assim

Então. Algumas pessoas, absolutamente iradas porque seus amigos estavam mostrando apoio a um segmento marginalizado da população, resolveram contra-atacar com o despeito reacionário que esse tipo de gente geralmente mostra.

criança12

Essa imagem foi compartilhada milhares de vezes. A filhadaputice que mais me irrita é que a pessoa poderia MUITO BEM criar uma imagem semelhante, talvez incluindo informação de uma ONG que ajudasse a combater a fome na África, SEM precisar dessa passivo-agressividade de “bem, com os problemas REAIS no mundo vocês não se incomodam né. Já eu, por outro lado, é só ser chamado que ajudaria. Não tou ajudando ainda porque não chamaram, claro.”

E eu ainda pensei em elaborar um bom argumento pra responder a essa babaquice, mas eu achei que mesmo a mais eloquente desconstrução dessa babaquice reacionária não seria melhor que forçar os lixos humanos que postaram essa bosta na minha timeline a mostrar publicamente a sua hipocrisia.

Fui ao Paypal. Tinha uma graninha sobrando lá, 50 contos. Doei à Save The Children Federation, uma ONG que ajuda a dar apoio a crianças necessitadas ao redor do mundo (inclusive no Brasil).

Antes que você pense em contra-argumentar que “nossa Izzy doando só pra poder aparecer na internet que babaca“, invente um argumento melhor. Eu SOU babaca, mas não por isso. Sou um gordo idiota que vive falando merda na internet, e não pense que eu acho que doar uma mixariazinha (comparado ao que eu ganho num mês de trabalho) uma vez na vida me torna moralmente superior que ninguém. Eu sou provavelmente a pior pessoa da minha família. Eu sou um bosta. Estou ciente disso. Não estou tentando me imbuir de superioridade moral alguma. Se existir um inferno eu sei que estou indo pra lá.

Só que isso é irrelevante ao ponto que eu estou tentando fazer.

Após mandar essa grana pra alguém que definitivamente fará mais proveito que eu, criei a seguinte imagem:

FB

E soltei lá naquele antro desgraçado que eu já nem sei mais por que frequento chamado Facebook, junto com o link para a Save The Children.

O argumento é simples: ok, beleza, de repente uma criança morrendo de inanição (parabéns por usar essa imagem sem qualquer cerimônia pra fazer um argumento ideológico tão mesquinho, aliás!) é uma causa mais urgente do que gays podendo se casar nos EUA. Eu suspeito que na real ela não é tão urgente pra você, e que você está falando isso porque é um lixo de ser humano, mas darei a você chance de provar que eu estou errado.

E ADIVINHA O QUE ACONTECEU.

Subitamente, pipocaram nos comentários daquela imavem INÚMEROS malucos dando as mais variadas desculpas de por que não precisam doar para ajudar as crianças que eles disseram que ajudariam se os chamássemos. A medida que pessoas iam marcando na imagem os amigos que fizeram essa promessa, mais desculpinhas (algumas com notável ódio) iam aparecendo.

Todos os screenshots inclusos aqui são de pessoas que postaram a tal imagem da criança morrendo. Eu preciso deixar isso bastante claro: todas as pessoas abaixo disseram que participariam na causa das crianças com fome se fossem chamadas. Vontade de ajudar elas insinuam que tem, o que faltava era alguém chamar.

1

“Fodam-se aquelas crianças cara, quero saber se VOCÊ VAI DAR A BUNDA TAMBÉM RSRS SUA BICHA”

2

“Eu falei que participaria da ajuda, e estou participando: fazendo greve de fome”

chamamos

“Eu sei que botei uma foto dizendo que participaria de caridade se fosse chamado, e sei que estou sendo chamado, mas se é assim você tem que dar o cu antes rsrsrsrs”

ditadura gay

“Estou falando ‘ditadura gay’ pra ficar mais fácil de você automaticamente ignorar qualquer coisa que eu diga”

doo de casa

“Você estão ajudando, mas não estão ajudando O BASTANTE

eu ajudo tá eu ajudo tá

“Eu postei uma foto dizendo que é só ser chamada pra contribuir com caridade que participaria, e estou enfatizando que DE FATO JÁ CONTRIBUO pra que ninguém esqueça, mas vocês é que são os bobocas que querem aparentar engajamento”

eu falei q ajudaria mas nao vai adiantar entao nao vou ajudar

“Sim eu falei que ajudaria mas não vai adiantar nada mesmo então foda-se e a propósito, você é um animal por me convidar a cumprir minha palavra”

fdp

“Ok ajudaram a criançada na África mas NÃO AJUDARAM O BASTANTE AINDA”

gls

“Fodam-se as crianças que eu falei que ajudaria se fosse convidada: quero saber se você é bonzinho mesmo e doa pros gays também!”

Nessa a seguir eu já tava tão irritado com a onda de desculpinhas e xingamentos — olha essa. Estão xingando um cara que está tentando incentivar doações pra uma instituição de caridade — que perdi a paciência com essa idiota.

ja tava puto

“Quando eu falei que participaria se fosse chamada, o que eu quis dizer é que daria duas desculpas cretinas pra não participar”

nao é competicao

“Vocês são uns babacas por ficar anunciando por aí que doam pra caridade Ô MAS SÓ PRA CONSTAR EU TAMBÉM DÔO TÁ?”

tcc

“Você queria doação ou textão? Era textão, né? Então taí, conforme prometido”

tem que ser a instituicao que ele quer

?????????????????????????

Teve uma particulamente canalha, aliás. A página Dollynho Puritano (se o Mark Zuckerberg proibisse definitivamente que IPs brasileiros abram páginas no Facebook, isso seria de fato uma coisa 100% ruim?) se incomodou com meu convite, e disponibilizou essa montagem pra ser usada por quem quer continuar argumentando e ao mesmo tempo se omitindo a cumprir o que prometeu.

recibos

Enquanto isso, a turminha arco-íris sendo acusada de não se importar com as criancinhas com fome na África levantou mais de três mil reais em um dia de doações. Eu parei de contabilizar nos 3 mil, quando percebi que outras pessoas estavam postando os recibos nos comentários desse vídeo. Fiquei com preguiça de contabilizar tudo de novo. E aí eu percebi que a cotação do dólar tava em R$3,14, e que eu estava multiplicando por 3 pra facilitar a conta mas que no final ela ia ficar bem abaixo do valor final real. Entre doações vistas mas não computadas porque eu já tava cansado, doações que vi postadas em outros locais mas eu já tinha fechado o app da calculadora, e esse erro de câmbio, eu chuto que rolaram mais de 4 mil reais nessa campanha.

Em um dia.

Enquanto isso, vi UMA doação vinda de alguém que postou aquela imagem desgraçada — e uma outra doação que se revelou ser um photoshop.

E aí está o resultado que eu imaginava. As pessoas postando aquela foto e enchendo o peito num arroubo de “olha só esses burros, eu sim sei qual a REAL causa a qual precisamos nos unir” são nada senão hipócritas da pior estirpe. Não tinham nenhuma intenção de realmente ajudar se fossem chamados para tal, ou seja: estão cagando para os gays E para as crianças cuja morte eles erguem nas redes sociais como um estandarte ideológico.

Eu estou na internet há literalmente vinte anos, experimentando com bate papo na web desde 1995, mantendo esse blog já desde 2002, e vlogando desde 2008. Eu já vi MUITA babaquice na internet. Mas muita mesmo.

Já vi muita coisa escrota. Seria impossível catalogar todas as demonstrações de desgraçabilidade da raça humana que eu já tomei conhecimento através da minha conexão com a internet.

Mas ISSO AÍ foi o que finalmente me quebrou. Ver tanta hipocrisia, tanta gente usando imagens de uma criança morrendo pra se perfazer de bom samaritano (e recusar agressivamente ajudar de fato), e pior, ser ATACADO por tentar levantar uma grana em prol de uma causa nobre… esse texto era pra sair ontem, mas eu simplesmente não consegui escreve-lo.

Fui dormir ontem pensando “que bosta, amanhã terei MESMO que reler todos aqueles comentários malditos pra atualizar o HBD“. A falta de vontade era tamanha que pensei em escrever o post SEM inclui-los, o que eu sabia que seria uma omissão grave.

É preciso ler esses comentários. É preciso ver o que há de fato a falta de solidariedade desses canalhas. É preciso que a lição fique aprendida.

Porque não vai ser a última vez que alguém levanta a bandeira do “mas e as criancinhas da África! Com elas você não se preocupa né”. E na próxima vez você vai poder esfregar esse texto na cara dessa pessoa e dizer “cale a boca, porque quando o tipo de pessoa que faz esse argumento tem a oportunidade de provar que de fato se importa, o que ouvimos são desculpas e xingamentos”.

E que alívio poder fechar essas abas do Facebook aqui e nunca mais ter que ler essa enchente de chorume.

Aê, turma. Hoje o assunto é mais sério do que eu costumo abordar aqui. Vou deixar esse cara bonito aí falar por mim:

Não fiz grande edição, não corrigi as cores, não fiz thumbnail pro vídeo, nada. Por ser uma denúncia mais urgente, minha prioridade foi coloca-la no ar.

O que rola é o seguinte. Existe um sujeito chamado Alberto “Albertinho” Gazio no YouTube. O sujeito mora nos EUA há quase 20 anos e faz, como muitos outros imigrantes vloggers, vídeos falando sobre como é a vida fora do país.

Sua especialidade são vídeos em que ele se propõe a fazer os não-imigrantes chorarem, presumivelmente de inveja, com o preço de frivolidades nos EUA.

Pensei “porra. O cara mora nos EUA há duas décadas e ainda tá deslumbrado com preços de Walmart e Dollar Stores?“, mas ok. Não é a pior coisa que ele já fez no YouTube, ao menos — esse mérito vai pro vídeo em que ele fala que as vítimas do incêndio da Boate Kiss não teriam morrido se estivessem na igreja.

Tem também o vídeo em que ele culpa negros (a quem ele chama repetidamente de “vagabundos” e “preguiçosos” em inúmeros de seus vídeos) por incidentes que acontecem em seu prédio. Ele não viu quem derrubou sua moto ou arrombou seu carro, mas como fez um censo completo na região e sabe que é definitivamente o único branco “num raio de 30 milhas daqui”, só pode ter sido um negro que zoou o veículo dele.

Como você pode ver, falar asneira na internet já é o MO do Albertinho Gazio. Entretanto, ele recentemente migrou do “falar bobagens preconceituosas” pra “induzir seus inscritos a viver irregularmente nos EUA, sem conta-los exatamente o risco que estão passando”.

É o seguinte. O Albertinho está há algum tempo oferecendo um serviço de “consultoria de imigração”. Ele não gosta de explicar exatamente qual é o “esquema” — uma palavra que ele mesmo usa repetidamente ao se referir ao seu serviço –; o que ele sugere, como aos 5:19 desse vídeo, é que a pessoa vá aos EUA e chegando lá, SEM SABER EXATAMENTE O QUE ELE ESTÁ PROMETENDO, o contate pra então contratar seu serviço.

https://www.youtube.com/watch?v=91HiS9NS2Sw

O “esquema” do Albertinho é explicitado por seu comparsa, um sujeito chamado Fábio Pinheiros que foi aos EUA recentemente através da “consultoria” do vlogger, e está agora fazendo às vezes de assistente do cara.

https://www.youtube.com/watch?v=57UT8QbjQuE

O sotaque carregadíssimo de malandragem não é coincidência.

Em resumo: Albertinho e este sujeito aí estão induzindo brasileiros a pedirem vistos de turismo com intenções ilegais (pedir visto B-2 com intenção de permanecer indefinidamente no país), trabalhar ilegalmente com visto de turista, e ficar ilegalmente além do período permitido.

Repare que literalmente tudo nessa frase após “vistos de turismo” é ilegal.

E o problema é que Albertinho não deixa isso explícito pros milhares de desesperados entrando em contato com ele diariamente buscando ajuda pra sair do Brasil, alguns deles provavelmente se desfazendo de bens pessoais pra levantar a grana/cortando laços com a família pra sair o país.

Em seus vlogs, o picareta mente à sua audiência sobre inúmeros conceitos de imigração americana. Em primeiro lugar, ele induz o pessoal a pensar que trabalhar com visto de turista, ou ir pra lá com esse visto com intenção de ficar indefinidamente, é uma prática perfeitamente regular.

Não é.

Tirar um visto de turista com “dual intentions”, trabalhar nos EUA com visto de turista, e ficar no país após o visto expirar — tudo isso é ilegal. Alguém que seja pego pode ser deportado, perder suas posses (a imigração não volta com você em casa pra pegar suas coisas, rapá — tu volta pro Brasil com a roupa do corpo e ), e ser permanentemente impedido de voltar pra lá.

Evidentemente, ele sabe disso (ninguém mora por duas décadas nos EUA sem saber algo elementar como “visto de turista é pra turismo”); ele omite esse detalhe porque honestidade com os “clientes” não é financeiramente inteligente pro lado dele.

Em vários vídeos, o Albertinho enfatiza que não se deve “ir ilegal” pros EUA. Ele não está errado nisso, a desonestidade no entanto é a distinção arbitrária que ele faz entre “ir ilegal” (que ele define simplesmente como “atravessar a fronteira do México na calada da noite”) e “ficar sem status”.

Embora tecnicamente não sejam exaaaaatamente a mesma coisa, AMBOS SÃO ILEGAL.

Alguém com visto de turista não pode trabalhar, sob pena de deportação. Alguém “fora de status” está no país ilegalmente, não pode trabalhar, também sob pena de deportação. Ou seja: na prática, ambos estão quebrando a lei do país e ambos estão se submetendo a punições se forem pegos.

E convenhamos que a chance de ser pego quando o sujeito te ajudando a arrumar emprego ilegalmente põe a sua cara no YouTube é alta.

E a turma provavelmente aceita de boa ser filmado peo vlogger por não estar completamente ciente de que estão fazendo algo irregular.

O Albertinho Gazio está mentindo para seus inscritos (gente ignorante sobre o processo de imigração, e desesperada) e os induzindo a cometer um crime em país estrangeiro pra ganhar lá seus míseros 250 dólares de comissão.

Este é o único vídeo do Albertinho Gazio no qual ele fala algo sensato

Desconfie especialmente desse aí

Ah, um bônus pra vocês. Avance para os 9:10 do vídeo.

https://www.youtube.com/watch?v=Q0aLOg2_Qes

Já tem um tempo que o Albertinho inventa qualquer motivo pra falar mal de negros em seus vídeos. Nesse vídeo, seu amigo/comparsa Fábio fala que duas mulheres negras não disseram “obrigado” a Albertinho por segurar uma porta “por eu ser branco”.

Ignore o salto lógico de que se duas pessoas foram rudes com ele, a raça INTEIRA é culpada. Ignore o quão hilário é esse imigrante ilegal recém chegado interagir brevemente com DUAS pessoas e tirar então uma conclusão sobre TODOS os outros negros do país.

O real delírio é o Albertinho, com essa gritante cara de latino e inglês rudimentar, achar que é visto como “branco” nos EUA.

A propósito, assista o vídeo completo, é um festival de vergonha alheia e malandragem. O ponto alto é o Albertinho filmando a funcionária do banco escondido, rindo da própria estripulia, e fazendo piadinhas de cunho sexual em seu portunhol lamentável.

E um disclaimer: embora eu não recomende qualquer tipo de estadia ilegal em país estrangeiro, eu entendo que a coisa está preta no Brasil, e por isso não discrimino alguém que se preste a correr esse risco. Desejo boa sorte, porque a vida de ilegal é uma vida de MERDA — ficar com medo sempre que vê a polícia, quando precisa de atendimento médico, quando é parado no trânsito, não poder estudar, ficar condenado a uma vida inteira de empregos braçais sem grande remuneração e nenhum direito trabalhista, não poder JAMAIS sair do país pra visitar a família, etc.

Meu problema aqui, o que me deixa PUTO, é este sujeito estar mentindo para seus inscritos (frequentemente enfeitando seu sales pitch com um ângulo religioso, do tipo “Deus vai te ajudar, irmão! Ele quer que você saia do Brasil!”, por saber que essa pegada rende) pra tirar uma graninha de gente desavisada.

E ainda tem a cara de pau de fazer vídeos criticando a corrupção no Brasil.

[ UPDATE ] Fábio Pinheiro, que falou explicitamente no vídeo de ontem que “o negócio é trabalhar ilegal”, agora joga panos quentes na situação e fala que jamais sugeriu a ninguém a fazer nada ilegal, e arremata com o clássico “bom, ele é meu amigo, mas nem concordo com tudo que ele diz não…

https://www.youtube.com/watch?v=3VBkd8rn6kw

[ Update 2 ] Ihhh, rapá. A parada é mais séria do que eu pensava. Neste vídeo, aos 10 minutos, este outro imigrante ilegal sobre conseguir documentação falsa pra ficar nos EUA.

O sujeito é mais um cliente do Albertinho, conforme vemos neste vídeo de abril. Hmmm.

[ Update 3 ] O Albertinho está, previsivelmente, queimando os arquivos do canal e tirando vídeos do ar antes que dê merda.

[ Update 4 ] O Albertinho fez um vídeo me respondendo.  Cheio de palavrões e ofensas, óbvio, porque é tudo que ele tem capacidade de fazer. Ele tirou o vídeo do ar rapidamente, mas a internet não perdoa:

 [ Update 5 ] The plot thickens. O Albertinho, sabendo que tá com a piroca da lei encostando nas beiradas do brioco, saiu deletando inúmeros vídeos incriminadores de seu canal. Só que a internet não esquece:

Tirem as próprias conclusões from Izzy Nobre on Vimeo.

[ Update 6 ] Aparentemente, o esquema do Albertinho é levar essa turma ilegal lá, pra que eles mesmo passem a oferecer “assessoria” a outros turistas. Aqui está Phelipe, o mesmo que confessou no YouTube usar documentos falsificados, falando sobre o seu serviço de auxiliar turistas a evadir La Migra e arrumar emprego.

E aqui aos 6 minutos e 10 segundos ele confirma que o Albertinho agencia empregos para os turistas recém chegados — um detalhe que Albertinho (o poderoso chefão dessa mini-máfia de imigração ilegal), deixa escapar nos vídeos às vezes mas nunca falou assim tão explicitamente. Esse Phelipe é o PIOR parceiro pra uma atividade ilegal que alguém pode arrumar, puta que pariu!

[ Update 7 ] É, chapéu de otário é marreta mesmo. Por mais que as atividades ilegais do Albertinho estejam completamente transparentes, existem fanboys que sofreram lavagem cerebral e o defenderão à morte. Eu recebi literalmente CENTENAS de comentários como este:

Eu já tentei oferecer este link para eles, que basicamente descreve com precisão todo o “serviço” do Albertinho e cia e adiciona no final “…e isso é crime federal com punição de até 5 anos na cadeia“, mas não adianta. O Albertinho foi extremamente bem sucedido em fazer parecer que o que ele faz é legal, através de meias-verdades e omissões cautelosas sobre o processo de imigração.

E isso não foi acidental: ele DEPENDE que desavisados como o Demerios confiem que o serviço dele é perfeitamente legal pra maximizar as potenciais vítimas.

Mas na cabeça dos caras eu sou apenas um invejoso tentando atrapalhar um micro-empresário.

[ Update 8 ] A queima de arquivos continua. Quando comecei este artigo, Albertinho tinha 3526 vídeos em seu canal do YouTube. Ontem, quando saí pro trabalho, ele tinha 3512. E agora, 3500.

Salvei alguns deles. Como este, em que ele mostra seu “banco de empregos” para os turistas recém chegados (um quadro de avisos anunciando ocupações triviais) e em seguida aponta pro “cliente” e diz aos 2:40 que este “já entrou no esquema, já sabe que tu vai ganhar 10 dólares por hora!”. O empregador, animadíssimo, diz pra Albertinho trazer mais gente pra indicar a ele.

O rosto de desconfiança e desconforto do “cliente” é inegável. Os três no vídeo estão fazendo algo ilegal, mas o rapaz de branco é vítima dos outros dois, e ele parece que sabe disso.

E mais vídeos sumirão, pode apostar. Ele é um prolífico falador de merda no YouTube, então ele deve estar ocupado procurando mais momentos em que se incrimina. Curioso porque no vídeo em que me xinga por denunciar sua máfia criminosa, ele fala com sarcasmo que “não vai deletar nada porque não está fazendo nada ilegal”. Reveja:

https://www.youtube.com/watch?v=5ZJ3Il5YU_U

E esse próprio vídeo já foi deletado. Se o Albertinho não fosse tão claramente ególatra, eu apostaria que ele deletaria o canal inteiro pra facilitar.

[ Update 9 ] O Albertinho retorna com um pedido de desculpas. Seriam desculpas por ter enganado seus 80 mil inscritos, induzindo-os a pensar que trabalhar com visto de turista/permanecer nos EUA após a expiração do visto é perfeitamente legal e tranquilo, porque sob essa impressão ele consegue mais clientes que estão arriscando perder tudo indo pra lá?

Não. Ele pediu desculpas por falar palavrões num vídeo. Que é a coisa menos ilegal que ele fez essa semana.

Eu sei que não fui o único que percebeu a hesitação nos 1:30 quando ele explica por que tirou os vídeos do ar. Aquela leve titubeada e olhares pros lados poderiam ter sido evitados dando uma estudadinha no script que você decorou pra gravar essa explicação, Albertinho! Oh Glória!

Ou talvez ele estava olhando pros lados porque depois que ficou sabendo que o caso não deve demorar a bater na porta da Immigration and Customs Enforcement, ele tem que ficar de olho em todas as possíveis saídas de emergência de qualquer lugar onde esteja.

[ Update 10 ] Há MUITA gente defendendo esse marginal ainda. Parece que mesmo com tantos vídeos incriminadores, alguns querem muito continuar acreditando na solução fácil e sem desvantagens ou riscos vendida por Albertinho.

Caso ainda não esteja perfeitamente claro, o esquema do Albertinho é 1) mostrar as GRANDES MARAVILHAS de morar nos EUA (como ele é um pé rapado que não tem onde cair morto, tais maravilhas se limitam a chinfrins no Walmart e desodorante em lojas de um dólar.

Junto a esses luxos inimagináveis a um pobre brasileiro, existe o passo 2) a promessa implícita de que “ficar fora de status/ilegal nos EUA não é tão ruim assim não, gente!”. Pra convencer melhor a turma disso, ele faz vídeos por exemplo com uma policial brasileira que mora lá. Acompanhe:

https://www.youtube.com/watch?v=bwWemsWMurw

Ele abre o vídeo com a parte mais importante para seu negócio: uma POLICIAL, uma figura de autoridade, falando que se parar um ilegal dirigindo irregularmente, apenas dá multa e cai fora. Que é pra ajuda-lo a manter a narrativa sedutora de que ir pros EUA ilegal “não dá nada”.

Logo depois da vinheta, a mulher dá o disclaimer que está falando de forma totalmente extra-oficial, sem o uniforme, sem a autoridade de policial, que está basicamente fazendo isso por favor ao amigo, etc etc etc. Em outras palavras: “quem tá falando isso aqui sou EU, não é uma política uniforma da polícia”. Pra meio entendedor, este “olha…” ficou bem claro.

E fica então faltando só o passo 3) instruir seus “clientes” a tirarem vistos de turismo, mentir ao desembarcar na imigração, e ao receber uma taxa de $250, leva-los aos seus colegas para arrumar casa/emprego. Que é crime federal.

Nem condeno a pessoa desesperada que se arrisca a ficar ilegal no país. Não condeno o Albertinho nem tanto por estar “prestando essa ajuda” aos seus clientes porque SEI que essa pática é bem comum nos círculos de brasileiros nos Estados Unidos e não sou eu quem vai mudar isso. É curioso que essa galera tenha saído do Brasil pra continuar fazendo brasileirice no país dos outros, mas não cabe a mim julgar.

O que realmente me deixa é que o método do Albertinho é predatorial e desonesto. Se ele não tentasse manter essa aparência de que o serviço que oferece aos clientes é 100% legal, eu teria ficado na minha. Se ele deixasse CLARO que é uma merda, que é ilegal, que a pessoa pode ser deportada, perder as posses, o visto, e tudo mais, e a pessoa ACEITA, eu não tenho NADA em que me meter. É um acordo voluntário entre duas pessoas que sabem em que estão se envolvendo.

O problema pro Albertinho é que ser honesto sobre o “serviço” renderia poucos clientes. E aí surge a necessidade dessa narrativa de que “ah não gente mas ILEGAL e FORA DE STATUS não são a mesma coisa e pode vir que é super de boa, olhaqui essa policial prometendo que não vai te prender!

Ontem eu postei esse vídeo:

Como eu esperava, iniciou-se um shitstorm nos comentários do vídeo, com as já esperadas acusações de esquerdopatia, comunismo, etc.

Acho que uma das partes mais frustrantes de criar conteúdo na internet é ser obrigado a lidar com esse tipo de pessoa — alguém que sequer compreendeu o ponto que você fez (ou seja, que parece incapaz de processar o significado de um simples vídeo de alguns minutos), mas que acha que analisou todas as nuances delicadas da situação socio-cultural de um país com 200 anos de existência e sabe exatamente o que se deve fazer pra consertar um problema endêmico que dura várias gerações. E cujas conclusões são tão infalíveis que você precisa ser obviamente burro e/ou investido cegamente em algum partido político pra negar.

Essa arrogância lamentável no discurso político atual brasileiro me deixa triste por vocês, que tem que aturar isso diariamente na vida real.

Caso seja necessário explicar mais cuidadosamente: eu não sou favor do desarmamento. Já argumentei mais em favor dos seus méritos, mas aceito a situação de que condições desesperadas requerem medidas desesperadas. Eu continuo rejeitando todos os pseudo-argumentos das grandes figuras em favor do armamentisto — que se resumem a comparações míopes dos níveis de segurança em países onde posse de armas é menos regulada, e a conclusão apressada de que um é a causa do outro. Soa mais ou menos como dizer “carros tem antenas, e carros andam rápido, logo, o motivo pelo qual carro andam rápido é a antena!”, mas eu não acho que eles percebem isso. E o constante apelo por esse tipo de “argumento” me deixa sem vontade de da-los razão no debate.

Eu continuo convencido que o PRINCIPAL fator na qualidade de vida de um país são as condições econômicas. Sem querer soar muito como os Daniels Fragas da internet afora, (quase) tudo se deriva, inevitavelmente, das políticas econômicas de um país. É através de medidas econômicas falidas que se caga um país, e igualmente, é consertando essa base que teremos esperança de um Brasil melhor. Educação tá ali pertinho no páreo, também.

Aí vem um grande porém.

O processo de mudança socioeconômica é um plano a longo prazo, coisa de 50 anos ou mais. Não dá pra ficar assistindo impassível 50 mil assassinatos anuais na esperança de que quandos seus NETOS estiverem terminando a faculdade o Brasil TALVEZ será o país melhor.

O ideal seria uma mudança socioeconômica que tornasse a “empreitada criminosa”, digamos assim, algo indesejável ou desnecessária. Meter bala na vabagundagem seria menos eficiente do que não ter tanto vagabundo pra começo de conversa.

Veja o caso do Canadá, por exemplo — onde a economia é bastante livre (embora com algumas medidas estatais de cunho social ainda rolando; seria desonesto omitir esse detalhe) o salário do cidadão médio é de 50 mil dólares por ano. No Brasil, a família média ganha 25 mil dólares por ano. Com menos oportunidades e menos dinheiro, a vida de crime parece uma opção viável.

O problema é, primariamente, econômico. Só que não dá pra ver cenas como as do vídeo acima e pensar “ah, não, coitados. São pessoas sem oportunidades, são vítimas da sistemática opressão do status quo” e não sei o que mais. Eu posso entender, do ponto de vista teórico, os mecanismos que levam alguém a recorrer ao crime — mas não preciso aceitar isso, ou ficar impassível diante da situação. Eu sei que a galera de Humanas se recusa a atribuir qualquer responsabilidade pessoal a um marginal que sai na rua com uma faca na intenção de perfurar o fígado de um trabalhador que voltava pra sua esposa e dois filhos ao fim do expediente, mas EU não preciso me recusar.

Aliás, posso aceitar ambos fatores: o sujeito está realmente em clara desvantagem social se comparado a mim, mas isso não o dá aval pra esfaquear alguém em plena luz do dia pra roubar um cordão de ouro — e algo precisa ser feito AGORA em relação a isso.

Por isso, e chegando ao cerne do debate do vídeo, talvez esteja na hora SIM de dar ao povo uma chance de se defender. Não encaro isso como a solução final; o discurso de alguns é que isso é A saída para o problema da segurança pública no Brasil e eu sinto uma vontade simultânea de rir e chorar porque esse tipo de miopia vinda de pessoas com um certo alcance político não tem como gerar bons resultados.

Só que é pelo menos uma alternativa enquanto a Terra Prometida da plena igualdade socioeconômica não chega, se é que um dia chegará ao Brasil.

Aliás, acho que a maior ironia de todo esse debate é que a galera da esquerda socialmente consciente com diploma de Humanas prega incondicionalmente que se dêem a todos oportunidades iguais… a menos que esta seja a oportunidade igual de se defender.

Aê pessoal! Foi bom o fim de semana? Espero que sim. Fim de semana é um dos pequenos prazeres que todos temos acesso; um fim de semana ruim me faz pensar que a semana toda foi em vão.

Cês viram o Jurassic World? Aparentemente o filme fez 874 bilhões de dólares na bilheteria, então a menos que o público pagante do filme tenha se limitado à família real da Arábia Saudita assistindo o filme repetidamente, estatisticamente falando é impossível que você não tenha visto essa merda ainda.

E fiz uma resenha em vídeo. Olhaí:

Já mencionei bastante aqui: eu sou um grande fã da obra do Michael Crichton, ao ponto de que a morte dele foi a primeira vez na vida em que lamentei imensamente o falecimento de uma celebridade.

A escrita do Crichton é um misto de ficção científica com explicações plausíveis e ação frenética hollywoodiana. Eu diria que lembra um pouquinho o Dan Brown, no sentido de que o Crichton é o que o Dan Brown CLARAMENTE queria ser, e falha miseralmente. Sim, eu sei que os livros do Dan Brown não são exatamente sci fi, mas você que leu os livros de ambos sabe perfeitamente do que estou falando. Quando o Crichton fala sobre algum conceito científico — seja verídico ou inventado para a trama do livro –, ele passa a impressão de que pesquisou sobre o assunto. Quando o Dan Brown faz o mesmo, ele soa como se tivesse visto uma chamada de 10 segundos de um documentário do Discovery Channel sobre o assunto.

Por isso, mesmo que você não seja um grande fã de ficção científica (como é o caso da minha esposa) eu ainda recomendo.

Eu não gostei tanto de Jurassic World quanto queria ter gostado. Parte disso é porque, embora Jurassic Park (livro e filme) tenham habitado perenemente na minha cabeça infantil, hoje em dia os dinos perderam um pouco do apelo pra mim. Também pudera: tu já viu o que é a aparência que os dinossauros tinham, de acordo com nossas pesquisas paleontológicas?

Como é possível aceitar isso? AS ASINHAS, MANO!

O filme é divertido, e acerta em trazer a tona discussões interessantes do livro original sobre a prática de “modificar” os dinossauros para atender as expectativas do público do parque.

E uma parada que não mencionei no vídeo é o fato de que originalmente, o livro Jurassic Park teria sido quase inteiramente do ponto de vista de uma criança, sabe-se lá por que. Eu percebi um certo resgate dessa premissa quando o filme focou tanto nas desventuras daqueles dois moleques lá. Que, aliás, não tem uma gota do carisma da Lex e do Tim — tanto que já esqueci seus nome. E olha que a presença da Lex e do Tim (além daquele Spielbergesco arco de “protagonista não gosta de crianças/não sabe lidar com elas direito, mas passou por uma aventura com eles e agora mudou de idéia e será um bom pai!”) é uma das coisas que mais me incomoda no Jurassic Park.

Aliás, vou soltar uma blasfêmia aqui logo — é chover no molhado apontar que um filme foi inferior ao livro que o deu origem (isso, afinal, é a norma). Só que chega a ser difícil gostar REALMENTE do Jurassic Park do Spielberg quando você leu o livro. O bate-papo sobre ciência (que é justamente o que os nerds mais curtem no livro) é resumido a um monólogo insatisfatório de alguns segundos, inventa-se um final feliz açucarado onde vários personagens que se foderam no livro sobrevivem…

Aliás, alguns personagens e suas dinâmicas são completamente diferentes. No livro, Allan Grant e Ellie Sattler são simplesmente professor e assistente; no filme, como é obrigatório de dois personagens de sexo diferente, insinua-se que são par romântico.

Já o John Hammond (interpretado como um idealista romântico com ares de vovô boa gente) era no livro um sujeito mesquinho,  arrogante e irresponsável. O que é uma constante nos livros do Crichton, aliás — o dono babaca da empresa de tecnologia que bolou algo que sairá do controle. A propósito, sabe o “não poupamos nenhuma despesa!” que ele fica constantemente repetindo no filme? O livro deixa claro que aquilo era um blefe pra impressionar os visitantes. O parque era bem gambiarrado, funcionava à base de automatização (experimental e não devidamente testada, justamente pra economizar), era uma merda. O filma não explora esse ângulo da trama, o que é natural porque não dá pra falar de TUDO.

Leia o livro, vai por mim. Tu vai se apaixonar pelo Crichton. E ele foi BASTANTE variado na sua obra, aliás — tem Airframe, que foi um mistério coorporativo envolvendo uma empresa aérea; já Sphere é um terror excelente meio HP Lovecraft/Além da Imaginação, e Pirate Latitudes é uma aventura de piratas no século XVIII que faz você desejar que Piratas do Caribe tivesse sido baseado na obra dele, em vez de uma atração da Disney.

Fica aí a recomendação.

Oi amigos! A semana foi movimentada hoje lá no meu canal. Primeiro, fiz esse vídeo elaborando as consequência de um possível contato alienígena com a raça humana (spoiler: acho que eles iriam nos foder):

Depois, ainda com medo de ETs, fiz uma resenha breve do filme Alien, de 1979, no que será um novo quadro no meu canal: resenha de filmes! É algo que já fiz muito no passado, mas agora terá um programa específico.

Finalmente, eu peguei este post e transformei num vídeo:

Repare aliás que tem muita gente levando o vídeo super a sério. Não fale nada pra eles.

Como BÔNUS, eu gravei minha primeira livestream ever. Também na antecipação do lançamento do Izzy Mode, meu programa de games, joguei Settlers e Command and Conquer pra galera.

Há muitos jogos de PC antigos que eu acho que não recebem atenção dos youtuber que falam sobre games, então decidi eu mesmo falar deles. Aguardem a estréia do Izzy Mode!

 

O debate sobre direito armamentista é infindável, e é complicado de ter com brasileiros porque nossos compatriotas INEVITAVELMENTE vêem a situação pela nossa própria ótica sociocultural nacional, que não sofre o fenômeno dos “mass shootings” como os EUA. Pro Brasileiro Comum (eu chutaria que uns 90% da nossa gente), população armada simplesmente significa “pessoas de bem tem métodos de se defender”, e não o inevitável efeito colateral de “pessoas com problemas mentais terão métodos mais fáceis à sua disposição para se vingar do mundo, a quem eles culpam por suas incapacidades”.

Até a questão cultural da posse de armas é muitíssimo diferente. O Americano Comum se arma porque acredita, baseando-se em sua cultura constitucional, que um dia poderá precisar peitar o próprio governo. Brasileiros em geral querem apenas uma defesa contra bandidos mais ordinários.

armas

Uma Glock 19 e balas 9mm hollow point em cima de uma bandeira e da Constituição Americana. Isso dá uma excelente idéia da cultura armamentista americana.

Curiosamente (ou talvez eu deva dizer “inevitavelmente”), antes de finalmente escrever este texto complementar a esse vídeo, já rolaram DOIS outros casos de tiroteio gratuito — um deles atipicamente canadense. O outro, nos EUA, foi impedido por um estudante portando spray de pimenta.

De um ponto de vista puramente teórico e ideológico, sim — é bonito que os Founding Fathers gringos (os caras que basicamente criaram o país e bolaram sua constituição) tenham criado uma emenda pra garantir ao povo um método de lutar contra o próprio governo, caso um dia ele se torne tirano como a coroa inglesa cuja bunda eles acabavam de chutar pra fora do continente americano. O problema é que como muitas outras coisas que funcionam num nível teórico, (como socialismo, jogos freemium, ou minha técnica de fazer miojo no microondas), uma população armada tem efeitos colaterais extremamente problemáticos.

Mas Izzy o Elliot Rogder também matou pessoas com uma faca, e atropelando-as com seu carro. Certamente você não defende que deveríamos banir também facas e carros“, dirá um comentarista neste post.

Na realidade, nenhuma das pessoas que ele atropelou morreu, mas vamos fazer de conta que sim.

Então. Defendo a proibição de facas e carros por isso?

Mas claro que não. Existe aqui um problema de proporcionalidade que os defensores do armamentismo popular ignoram convenientemente — quando foi a última vez que alguém matou 30 pessoas atropeladas, ou esfaqueadas…? Com exceção de um caso raríssimo na China que precisou da coordenação simultânea de QUATRO bandidos, não, facas e carros — além de servir inúmeras outras funções além da exclusiva tarefa de matar pessoas, e talvez por isso mesmo — não são instrumentos eficientes para chacinas em massa.

Não, nem eu nem nenhuma pessoa com mente sã pretende banir qualquer instrumento que possa ser usado pra matar alguém. Sabemos que é impossível impedir completamente violência. O problema é que existe uma miríade de opções entre “impedir completamente qualquer tipo de violência”, que é fantasioso, e “tomar passos necessários pra ao menos reduzir a incidência de malucos fuzilando inocentes”.

Não fazer absolutamente nada pra previnir essas tragédias é como concluir que bandidos vão continuar assaltando de qualquer forma, e por isso não deveriamos nem trancar as portas de casa. Afinal, eles vão arrombar a tranca de qualquer forma, OU roubar seu carro em vez da sua casa. Vamos deixar tudo destrancado mesmo, não há como impedir roubos!

Pessoas de bem deveriam ter o direito de se defender? Mas claro. Ninguém discorda disso. O problema é que eu não acho que MAIS armas balanceem a equação da violência.

Seria coincidência o fato de que o único país no mundo que cultiva uma cultura de direito constitucional inalienável a armas seja também o único país em que essas chacinas ocorram rotineiramente — a ponto de que tenham que redefinir o termo pra reduzir artificialmente o número de tragédias?

Lembra do Massacre do Realengo? Agora imagina isso se tornando uma trivialidade no nosso país.

Agora, trazendo de volta pra nossa realidade brasileira. Você não quer armas pro completamente hipotético e surreal cenário da luta armada contra o governo, eu entendo. Você só quer chances melhores de se defender, e defender a sua família, de vagabundos. Como alguém que já foi vítima de assaltos (tanto no Brasil quanto aqui no Canadá, pra você ver como eu sou sortudo), eu compreendo.

O problema é que existe algo fundamentalmente errado com a noção de que o problema da inequalidade social — que é o real perpetuador da criminalidade — será resolvido armando todo mundo, e rezando pra que os homens de bem é que tenham a melhor mira.

Ah, e sobre os tais “homens de bem” — são eles quem cometem a maioria dos homicídios no Brasil. Ao contrário do que você acredita, bandido matando cidadão enquanto comete um crime na real é a MINORIA dos assassinatos no nosso país. São “pessoas de bem” matando-se uns aos outros que engordam as estatísticas de homicídios no Brasil.

Agora imagina com todo mundo armado.

“AH IZZY QUERIA VER SE FOSSE SUA MULHER SENDO ESTUPRADA E SEUS PAIS SENDO ASSASSINADOS E SEU CARRO ROUBADO…” se seu argumento é essa absurda apelação emocional, ficou patente que você não tem os fatos do seu lado.

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